Cheguei no hospital em pouco tempo. Larguei as coisas no conforto medico e me troquei as pressas. Já de uniforme e tênis corri para a emergência e encontrei Deise encostada no balcão da recepção fazendo anotações em alguns prontuários.
- Deise... – falei ofegante me aproximando dela – Como eles estão?
- Ainda em cirurgia. Parece que houve complicações. – ela falou com um semblante preocupado.
- Os quatro? – perguntei confusa.
- Sim... Samira teve hemorragia cerebral e teve um surto minutos depois que chegou aqui... Victor foi direto para a cirurgia... As pupilas estavam dilatadas e nem contrações com a luz.
- Meu Deus... Qual o mais grave?
- Lola... Sofreu uma lesão cervical e os médicos não sabem se ela voltará a ter movimentos.
- Vou entrar na cirurgia da Lola... Avisa a Arizona.
- Sim senhora. – ela disse se afastando.
Eu peguei o elevador, ansiosa. Cheguei no andar das salas de cirurgia um tanto nervosa. Procurei a sala onde estavam operando Lola e me preparei para entrar.
Assim que apareci na sala os enfermeiros me olharam espantados.
- Uma pediatra numa sala de cirurgia? – caçoou uma das enfermeiras.
- Quem está liderando a cirurgia? – perguntei vendo o medico de costas pegando alguns instrumentos na bandeja.
Ele se virou e pude ver seus olhos se enrugarem por cima da mascara.
- Karev? – perguntei confusa.
- Doutora Carter! – ele falou voltando a operar – O que uma futura cirurgiã pediátrica faz na minha cirurgia?
- Ela é minha amiga. – apontando pra Lola.
- Li isso no prontuário...
- O que você faz aqui? – me aproximando.
- Eu voltei... Hoje é meu primeiro dia de volta e resolvi pegar um caso que envolvia a minha paciente preferida e agora medica.
- É tão bom saber que é você que está operando-a.
- Ela vai ficar bem... A doutora Torres fez uma reconstrução e eu só estou terminando a cirurgia.
- Deise me disse que ela teve complicações...
- Teve uma hemorragia, mas controlamos e ela vai ficar bem.
- Graças a Deus.
- Estou feliz em vê-la Mel! – ele disse começando a suturar.
- E digo o mesmo doutor Karev! – disse sorrindo – Vou me retirar...
- Fique calma... Todos eles ficaram bem! – ele disse me tranquilizando.
Sai da sala de cirurgia, tirei a roupa, as luvas e a mascara e fui para a sala de espera. Rachel chegou alguns minutos depois e me abraçou com força.
- Pensei que estivesse em cirurgia. – ela disse ainda me abraçando.
- Eu ia entrar, mas alguém muito especial me tranquilizou sobre o quadro dos meninos.
- Como eles estão?
- Daqui a pouco as cirurgias acabam.
- Como foi a sua prova? Você se atrasou...
- Eu consegui terminar, mas não tenho certeza se fui bem. Eu estava nervosa.
- Imagino... – ela disse se recostando na poltrona – Você disse que alguém especial te tranquilizou... Quem foi?
- Alex voltou. – respondi sorrindo.
- Karev? – ela perguntou espantada e tentando conter o largo sorriso – Alex Karev voltou para NY?
- O próprio... Ele estava operando a Lola.
- Eu não posso acreditar que ele está de volta. – ela disse sorrindo.
- Também não acreditei quando vi... Foi meio confuso quando ele sumiu...
- Foi por minha causa.
- Mel! – Torres disse se aproximando.
- Callie! – eu falei me levantando e indo abraça-la.
- Soube que passou na sala da Lola.
- Eu queria ajudar na cirurgia.
- Ela está ótima! – ela disse animada – Já está indo para a UTI, e em breve estará no quarto.
- Graças a Deus! – exclamei.
- Eu ajudei na cirurgia do Harry e ele daqui a pouco estará saindo da cirurgia também.
- Como ele está? – Rachel perguntou.
- Bem... Os sinais vitais estão ótimos. Ele vai precisar de mais uma cirurgia nas pernas, mas nada grave.
- Porque outra cirurgia?
- Para reconstruir os músculos. Os cortes da perna dele foram profundos.
- Mas está tudo bem?
- Sim...
- E o Victor e a Samira?
- Os dois estão na cirurgia até onde eu sei. Eles não são da minha área, então não participei da cirurgia.
- Eu entendo...
- Onde está o Karev? – Rachel perguntou afobada.
- Foi ajudar com Samira. – respondeu preocupada me olhando – Ela teve uma complicação.
- É a hemorragia não é? – perguntei tendo a certeza da resposta.
- Parece que a hemorragia não tem como ser estancada. – ela falou encarando o chão.
Eu passei a mão pela nuca preocupada e fui tomar agua pra conseguir respirar normalmente. As coisas pareciam estar loucas e fora do controle. Sentia minha respiração pesada e lenta e meus olhos pesavam a cada piscada. Tomei o copo de agua pela metade e o joguei fora. Me sentei na poltrona da sala de espera e senti Rachel me abraçar e dizer que tudo ficaria bem.
Fazia um tempo que não estava com tanto contato com Victor, Lola, Samira e Harry. Aliás, desde quando me mudei para Nova York tínhamos nos afastados. Mas eles ainda eram os meus amigos. As pessoas que estavam ao meu lado quando fiquei desacordada por tanto tempo. Verdadeiros amigos que eu tinha como família estando ou não por perto.
Minha cabeça girava e meu estomago parecia querer sair do meu corpo. As mãos suavam e o corpo estava gelado. Sabia que era pelo nervoso de ter dois amigos em uma cirurgia complicada, mas não era só por isso. Ah não. Tinha uma coisa me incomodando desde a hora que vi o acidente. O problema maior era o acidente. A imagem dos carros colididos. Eu já havia passado por aquilo. Não foi um choque entre dois carros, mas também já havia vivenciado aquele desespero e inconscientemente aquilo todos os dias me perturbava.
Ao assistir tele jornais, nas noticias de acidente de transito eu sempre mudava de canal, quando eu via Nick ou meu pai lendo jornais pela manha e alguma foto era de um carro destruído em um acidente eu me afastava, ou os mandava fechar o jornal. Quando tinha plantão na emergência e crianças aparecia machucadas por conta de um acidente de carro eu sentia meu corpo se contrair de nervoso. Mas tudo era uma coisa extremamente inconsciente. Nunca havia me dado conta das proporções traumáticas que aquele acidente tinha me causado e quando a ficha caiu e o meu corpo de amoleceu na poltrona em que estava sentada meu estomago resolveu colocar todo o meu café da manha pra fora.
Rachel se afastou um tanto enojada e ao mesmo tempo preocupada. Eu apoiei os cotovelos nos joelhos e olhei para a enfermeira como quem pedisse socorro.
- Doutora, a senhora está bem? – ela disse se aproximando e jogando papeis toalha sobre o vomito.
- Não muito... Eu preciso medir minha pressão... Peça pra alguém limpar isso e venha medir minha pressão. – eu ordenei.
Em poucos minutos a moça da limpeza estava limpando o chão perto dos meus pés e me olhando assustada enquanto a enfermeira media minha pressão um tanto preocupada.
- Você está pálida. – Rachel disse se aproximando preocupada.
- Estou com dor de cabeça... – eu disse assim que o aparelho de pressão foi retirado do meu braço.
- Eu acho melhor à senhora ficar em repouso. – a enfermeira disse – Sua pressão está baixíssima.
- Foi o estresse do dia. – falei me levantando – Vou para um quarto... Traga-me algo salgado pra comer e chama a doutora Montgomery. – indo para o quarto, acompanhada de Rachel.
Entrei em um dos quartos vazios e me deitei na maca. Estava sentindo meu corpo pesado e formigando. Respirei fundo e olhei pra Rachel que me olhava sem piscar, preocupada.
- O que foi? – perguntei enquanto me acomodava na cama.
- Você está pálida e parece estar com muita dor.
- Você poderia ser medica. – eu brinquei tentando esconder a dor.
- Está assim por causa do acidente não é?
- Como sabe?
- A sua expressão foi à mesma expressão que fez quando acordou do coma e te falaram sobre o acidente.
- É tão estupido me sentir assim ainda.
- Você não passou por nenhum tratamento para o trauma Mel. Você seguiu a vida como se nada tivesse acontecido.
- É o que as pessoas normais fazem.
- Pessoas normais não passaram sete anos em coma depois de um acidente de carro. – segurando minha mão.
- Pare de agir como psicóloga. – falei rindo.
- Não da pra evitar. – ela riu.
- Depois podemos conversar sobre isso? – perguntei colocando a mão sobre o ventre – Eu estou estranha.
- Está com dor?
- Sim e estou preocupada. – fechando os olhos.
- Por quê?
- A dor... – falei alisando a barriga.
- Foi por isso que mandou chamarem a Addison? – Rachel falou com um tom ainda mais preocupado.
- Sim... Na bula dos remédios que ela me receitou disse que eu não poderia passar por muito estresse.
- Mas, você só se estressou nos últimos dias...
- Eu sei... Por isso estou preocupada. – eu disse me deitando de lado – Mas não se preocupa. Não deve ser nada.
- Me chamara? – Addison disse entrando no quarto.
- Eu chamei. – sorri ao olhar pra ela.
- Minha nossa você está branca que nem um papel! – ela disse espantada – O que houve?
- Estou com dor. – eu disse com a mão sobre a barriga.
Ela me olhou assustada e mando a enfermeira buscar imediatamente o carrinho do ultrassom.
- Passou por muito estresse? – ela perguntou passando a mão logo abaixo do meu umbigo.
- Nos últimos dois dias até demais. – respondi sentindo a dor aumentar cada vez que ela apertava.
- A dor é como uma cólica?
- Sim, mas um pouco pior.
- Teve sangramento?
- Não que eu saiba...
- A dor começou quando?
- A uma hora atrás mais ou menos, mas aumentou muito nos últimos 15 minutos.
O carrinho chegou e Addison passou o gel extremamente gelado na minha barriga e em seguida o aparelho do ultrassom. Ela encarou a tela por uns 10 minutos em silencio e tirou o aparelho da minha barriga.
- O que aconteceu? – perguntei – Parece preocupada.
- A bula do remédio fala sobre não ter estresse porque ele deixa suas veias e artérias mais sensíveis e frágeis...
- Uma delas se rompeu não foi? – perguntei com calma.
- Sim... Você está com hemorragia interna e precisa ir pra cirurgia agora mesmo. – ela respondeu empurrando o carrinho do ultrassom pra longe.
- Droga. – falei olhando pra Rachel – Liga para o Nick.
- Tudo bem! – ela respondeu pegando o celular.
- Não se preocupa... Eu vou reconstruí-la e já farei a primeira tentativa para a reconstrução do útero.
- Mas isso era só daqui uns dias.
- Você está ovulando Mel... Essa é a hora.
- Tudo bem... – respirei fundo.
- Não é um procedimento complicado e em dois dias você está podendo voltar à ativa.
- Você é a medica... Sabe o que faz e confio em você! – disse segurando a mão dela.
- Obrigada pela confiança. – ela disse sorrindo enquanto seus olhos azuis penetrantes se enrugavam como se estivessem sorrindo junto.
- Mel, ele quer falar com você! – Rachel disse segurando o celular.
Peguei o celular da mão dela e tentei controlar o nervosismo da voz.
- Oi amor. – eu disse.
- O que aconteceu? Rachel falou sobre hemorragia. – ele disse desesperado.
- Eu estou bem. Preciso de uma cirurgia porque uma veia se rompeu, mas é simples. Addison vai cuidar de tudo.
- Eu sinto o nervosismo na sua voz. Me fala a verdade.
- Está tudo bem Nick. Só estou um pouco aflita.
- Estou indo para o hospital agora mesmo.
- Ta bom.
- Eu amo você!
- Também te amo. E fica calmo. – desligando.
Devolvi o celular pra Rachel e sorri pra ela tentando acalma-la.
- Tudo vai ficar bem. – eu disse segurando sua mão e deixando uma lagrima escorrer no canto do olho.