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Fanfic: Coração Envenenado | Tema: Livro


Capítulo: Capítulo 03

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Não importava o quanto me mantivesse ocupada, uma sensação chata de mau presságio estava sempre à espreita, porém eu tentava reprimi-la, concentrando-me em Merlin. Estava oficializado: éramos um casal de namorados. Não havia necessidade de anunciar nada na faculdade, a notícia logo se espalhou, e minha popularidade alçou voo. Passávamos cada minuto que podíamos juntos, e Nat e Hannah brincavam que estavam enjoadas de nos ver babando e olhando no fundo dos olhos um do outro.


Merlin marcou de passar lá em casa no sábado, o que me deixou nervosa, pois minha mãe já tinha formado uma opinião a respeito dele. Eu estava uma pilha de nervos a manhã inteira e, quando espiei pela porta da frente pela vigésima vez para ver se ele estava chegando, foi impossível não enxergar Luke descarregando do carro antiguíssimo dele todas as tralhas que trouxera de seu apartamento. Estava repleto de caixas, sacolas plásticas, montanhas de roupas amassadas e havia também pratos, xícaras e uma chaleira chacoalhando no banco de trás.


— Por onde anda minha Kat favorita? — gritou ele.


Sorri ao ouvir o apelido com que costumava me chamar e fui até lá.


— Acabou a vida de estudante — falei de gozação, recuando ao ver um vidro se espatifar na calçada. — Agora você virou gente grande de verdade.


— Nem em um milhão de anos — zombou. — Você está falando com o cara que costumava jogar lesmas nas suas costas e enfiar aranhas dentro do seu nariz.


Luke Cassidy era cinco anos mais velho que eu e tinha passado os últimos dez me aterrorizando de todas as maneiras possíveis. Passei minha infância correndo atrás dele e de seus amigos, mas eles sempre achavam um jeito de me jogar para escanteio. Mais tarde, quando foi para a faculdade, fiquei surpresa com o quanto eu sentia falta de tê-lo por perto. No entanto, ele estava de volta e continuava implicando comigo.


— A pequena Kat também cresceu — disse ele, recolhendo com cuidado os cacos de vidro do chão. — Vi você com seu namorado e acenei, mas estava meio ocupada.


Corei, sabendo o quanto devo ter aparentado estar aérea segurando a mão de Merlin.


Rapidamente mudei de assunto.


— Então, que tal a vida de jornalista?


— Até agora, cobri três festas de igreja, uma feira de cachorros e a história de um velho que dorme em uma casa na árvore com um esquilo.


— Nenhuma ligação dos jornais grandes?


Luke ergueu o olhar para o céu.


— Quem sabe ano que vem.


Ele parecia me espiar de canto de olho.


— Alguma coisa errada? Minha maquiagem está borrada?


— Você está diferente, só isso — balbuciou e baixou os olhos mais que depressa.


Estiquei o dedo para tocar no queixo dele e abri um sorriso.


— Você também. Luke finalmente tem barba para fazer.


— Faço a barba há anos — protestou, e eu apertei os lábios para evitar cair na risada. Luke tinha rostinho de bebê e cabelos cor de milho, que faziam com que aparentasse ter menos idade do que tinha. Deixando as portas do carro abertas, adentrou nossa casa sem ser convidado. Tentei chegar na frente, mas ele alcançou a cozinha, puxou uma cadeira e pediu, preguiçoso:


— Ponha a chaleira no fogo, Kat.


Minhas mãos colaram na minha cintura.


— Não pode mais entrar na nossa casa como se fosse a sua.


Luke deu de ombros:


— Por que não?


Enquanto eu tentava encontrar uma boa resposta, mamãe apareceu do nada e estragou tudo. Ela puxou do armário a caneca “especial” de Luke, que tinha o nome dele, e abriu a lata de biscoitos. Eu me recusei a sentar e olhei de relance para o relógio.


— Você está arisca, Kat.


— Merlin vem me visitar — anunciei, tentando parecer impassível e experiente. — Depois, vamos para a casa dele. Ele é um pintor talentoso e tem o seu próprio estúdio.


Luke não riu ao escutar o nome de Merlin, mas eu sabia que ele sentira vontade.


— Onde ele mora?


— Lá na estrada Victoria, perto da escola de hipismo.


— É um garoto rico, então.


Minha boca se abriu e fechou como a de um peixinho dourado.


— Não, não é. Merlin é um cara comum, mesmo com uma casa tão grandiosa. E a mãe dele dedica um tempo enorme dando aulas para quem não tem condições de pagar e deixa que trabalhem no estúdio dela.


— Quanta nobreza — comentou, sarcástico.


— Não seja tão crítico, Luke. A mamãe já está convencida de que ele me encoraja a fumar, e agora você acha que ele é mimado.


Luke se recostou na cadeira, tomando um longo e satisfatório gole de café.


— Você não está se deixando levar pela imagem glamorosa do artista conturbado, está? Esse...


Merlin provavelmente tem uma fila de garotas cujo retrato ele está pintando.


Apertei os olhos de um jeito perigoso, pronta para dar uma resposta ácida, quando a campainha tocou. Merlin ficou pairando no degrau da porta com seu ar confiante habitual, mas suspeitei de que talvez tivesse se vestido especialmente para a ocasião, porque a calça jeans não era desbotada e a camisa fora passada. Puxei-o para o hall e gaguejei uma apresentação para a mamãe, torcendo para que Luke ficasse na cozinha, mas ele decidiu aparecer bem naquele instante. Ele e Merlin se examinaram de cima a baixo. Não fosse a situação desconfortável, eu poderia ter caído na gargalhada de tão diferentes que eles eram: Luke, atarracado, loiro, com uma expressão aberta e simpática; Merlin, alto e moreno de traços circunspectos. Resmunguei qualquer coisa sobre Luke morar na casa ao lado, peguei meu casaco e saí correndo. Merlin segurou a minha mão. A unha do dedão dele se enterrou na minha pele; estava doendo, mas eu não disse nada.


— O que é tão importante? — perguntei, finalmente recuperando o fôlego ao ver minha casa sumir do nosso campo de visão. — Você disse que eu precisava ir até a sua casa com urgência.


Merlin hesitou.


— É o retrato, Katy, não consigo acertar as cores. — Ele se inclinou e esfregou o nariz na minha bochecha. — Não consigo me concentrar. Não sei por quê.


— Como posso ajudar?


— Você pode posar para mim. A melhor luz é nesta hora do dia. Se posar, então, pode ser que eu encontre a solução.


— Ok, tudo bem, Merlin.


Percorremos a extensão da larga avenida da casa dele, e fiquei me culpando por ter soado tão desinteressada.


— Quer dizer, é claro que posso. É o mínimo que posso fazer.


Fiquei estirada sobre o sofá gasto de chenile, tentando minimizar meus quadris e não pensar nas pinturas de Rubens, com seus nus femininos de vastas proporções e carnes macias e onduladas.


— Preciso trocar de roupa — disse ele.


Sem avisar, com um único movimento, abriu todos os botões de pressão da camisa e jogou-a sobre a cadeira. Apanhou uma camiseta velha de um gancho e vestiu por cima da cabeça. Desviei o olhar, mas não antes de entrever o peito nu e a linha de pelos negros serpenteando e passando do umbigo.


Meu rosto ardia de vergonha, e fiquei preocupada em acabar imortalizada na pintura com bochechas gigantescas e rosadas. Tentei pôr a culpa no sol.


— É bem... quente aqui, não é?


Merlin resmungou algo sobre o ar quente subir e abriu uma das janelas do telhado. Formou um quadrado com os dedos da mão esquerda, olhou para mim e depois olhou de volta para a tela.


Balançou a cabeça.


— Seus cabelos são impossíveis de reproduzir... não são reais... lembram uma mistura de fios de ouro com castanhas quentes, e sua pele diria que é de... sardas de alabastro.


Ele sorriu e eu me derreti por dentro. A maioria dos caras sofreria para inventar o mais simples dos elogios, mas Merlin era capaz de fazer uma única frase parecer um soneto inteiro. Tentei não me mexer, mas era torturante ficar tão exposta, e a temperatura do estúdio estava subindo. Precisei tirar meu cardigã, torcendo para que não fosse parecer uma tentativa brega de striptease. Merlin trabalhou por horas a fio e permaneci calada, porque ele estava envolvido demais no que estava fazendo.


Mesmo me pintando, ele parecia distante, quase como se me visse de forma abstrata. Pestanejei com o aumento da intensidade do sol e pude ver uma gota de suor brilhando na testa dele.


— Hora do intervalo? — sugeri.


Merlin assentiu. Limpou as mãos em um pedaço de pano e foi se chegando.


— Tem lugar para mais um aí, Katy?


Eu me endireitei no sofá rapidamente e encolhi as pernas.


— Como estão as suas... cores?


— Bem melhores.


Eu me agitei e fitei a porta.


— Não há para onde fugir — disse ele, com suavidade.


Esfreguei o nariz, ajeitei os cabelos com as mãos e olhei ao redor da sala enquanto Merlin continuava perfeitamente imóvel, me observando. Esfreguei meus braços, tremendo, apesar do calor.


— Quero olhar para você, Katy.


Tentei desconversar fazendo graça.


— Está olhando para mim há horas.


— Não assim.


Ele pôs uma das mãos sob o meu queixo, e fui forçada a retribuir o olhar dele. Seus olhos eram penetrantes, intensos e de um cinza rochoso.


Merlin inclinou a cabeça na minha direção enquanto uma das mãos deslizava a alça da minha blusa, fazendo-a descer pelo ombro, e seus lábios me beijavam subindo pelo pescoço.


— Sua mãe pode entrar a qualquer instante — murmurei, tensa.


— Mas não vai.


Percorreu o caminho até minha bochecha, nariz e pálpebras antes de voltar sua atenção para minha boca, quando ficou impossível dizer qualquer coisa. Ele me envolveu nos braços de um jeito tão apertado que eu mal podia respirar. Correspondi com tamanha naturalidade que fiquei chocada comigo quando coloquei a mão sob a camiseta dele, contando cada uma das costelas com os dedos.


Senti que ele estava ficando arrepiado.


— Estou com a mão fria? — Eu ri, sabendo não ser esse o motivo. Tive uma sensação inesperada de poder.


Eu enfim descobria o porquê de toda a excitação quando o assunto era beijar. Estávamos tão espremidos um contra o outro que não sabia onde terminava o meu corpo e começava o dele, e ambos escorregamos no sofá até ficarmos na horizontal. Era como se estivesse me afogando nele. Foi então que escutei vozes falando mais alto, e elas me fizeram hesitar.


— O barulho vem do jardim — garantiu-me Merlin. — Minha mãe está reunindo sua coleção de artistas de rua.


Ouvimos um estrondo, e a porta do estúdio se escancarou de repente, fazendo voar papéis para todo lado. Consegui me desvencilhar do abraço dele e sentei de novo.


— É só o vento. Minha mãe é maníaca por ar fresco.


— Desculpe — resmunguei. — Não sei o que está acontecendo comigo. — Olhei para o chão. — Não sei se... se estou preparada para algo... forte.


— Forte? — Merlin passou a mão nos cabelos e soprou o ar devagar. — Katy, já estou envolvido demais... Se você quer apenas ir ao cinema uma vez por mês e andar por aí de mãos dadas, não sei dizer se consigo.


Mordi o lábio, envergonhada. Ele alisou meu braço, mas me mantive rígida.


— Talvez seja só um pouco... cedo demais.


A voz dele estava áspera de emoção.


— Bastaram sete segundos para eu descobrir o que sentia por você, mas se ainda precisa esperar para sentir o mesmo por mim...


O nó na minha garganta aumentou.


— Sinto o mesmo por você, mas talvez a gente apenas precise de algum lugar com mais... privacidade.


Merlin sorriu, cheio de intenções.


— Estou pensando em trancar você aqui na minha torre para afastá-la do restante do mundo.


Estava prestes a responder quando reparei no horário. A tarde se esvaíra e precisava voltar para a minha mãe. Sempre que estava com Merlin as horas voavam. Espiei a tela quando ele saiu do quarto. Não passava de uma série de belas pinceladas, mas meu rosto estava começando a ganhar forma, brilhando pálido e etéreo, as cores eram suaves, totalmente diferentes do estilo usual e ousado de Merlin. Escutei passos retornando e, mais que depressa, afastei-me do quadro. Relutantes, saímos


da casa dele de mãos dadas e atravessamos o jardim. Ao chegarmos no portão, olhei de relance para trás, apertando os olhos mesmo com o sol já se pondo. Vi uma silhueta se mexendo entre as árvores, tão veloz e tão leve que poderia ter sido um espírito, mas algo nela me inquietou. Olhei para Merlin, e ele não demonstrou ter percebido coisa alguma; eu estava começando a achar que aquela garota havia me jogado um feitiço. Ela não poderia estar em todos os lugares desse jeito, não era possível.


Acelerei o ritmo porque sentia como se centenas de olhos estivessem nos vigiando. Dei um beijo de despedida em Merlin com um estranho desespero que eu não saberia explicar.


Sonhei novamente com ela naquela noite. Desta vez, estava deitada de costas sobre o sofá velho de Merlin, lânguida, comprazendo-se com sua própria beleza. O olhar não me largava, e ela levantou-se de um jeito muito gracioso, atravessou a sala, como que desfilando, e virou o cavalete para mim, forçando-me a ver. O retrato não era meu, era dela, os lábios cor de carmim estavam curvados para cima, com um sorriso triunfal disfarçado. Acordei em um susto e, com o sobressalto, sentei na cama.


O pingente verde ainda estava na minha penteadeira e parecia brilhar no escuro. Dei um pulo da cama e enfiei aquele negócio na bolsa.


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Autor(a): Fer Linhares

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— Tem alguém me perseguindo. Hannah parou de bocejar por um instante para expressar sua surpresa. — Você já tem Merlin, o cara mais gato da faculdade, e agora ainda tem um perseguidor só seu? Que injustiça! Quem é ele? — Não tem nada de engraçado — insisti, desejando que o pai de Nat dirigisse ...


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