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Fanfic: Coração Envenenado | Tema: Livro


Capítulo: Capítulo 04

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— Tem alguém me perseguindo.


Hannah parou de bocejar por um instante para expressar sua surpresa.


— Você já tem Merlin, o cara mais gato da faculdade, e agora ainda tem um perseguidor só seu?


Que injustiça! Quem é ele?


— Não tem nada de engraçado — insisti, desejando que o pai de Nat dirigisse mais devagar ao passar pelos quebra-molas, pois minha cabeça estava batendo no teto do carro toda vez que ele passava por um. — E não é um cara... é uma garota. Já a avistei do ônibus, na rua, em um café, e, além disso, ela chegou a aparecer na minha casa vendendo bijuterias.


Procurei na bolsa e passei o pingente para Nat.


Ela o examinou dos dois lados e depois o segurou contra a luz.


— É bem legal. É feito de quê?


— Acho que é de vidro marinho — resmunguei. — Vidro marinho cor de esmeralda... mesmo tom dos olhos dela. Pode ser legal, mas acho que é um aviso.


— O que é vidro marinho?


— É um vidro qualquer, mas que passou muito tempo no oceano até todas as bordas ficarem lisas e o vidro em si, opaco.


Hannah olhou o relógio de relance.


— E por que ela estaria enviando um aviso? Tem certeza de que você não está meio que dormindo ainda? Afinal, são só seis e meia da manhã.


Baixei a voz para me certificar de que o pai de Nat não estava ouvindo.


— Acho que ela fez algum tipo de magia... pois sempre sabe onde eu estou.


A gargalhada foi tão alta que precisei tapar os ouvidos.


— Você não existe — disse Nat, repreendendo-me.


Fiquei contemplando a janela, mordendo o lábio.


— Ela está em todos os lugares aonde vou, fica me vigiando, escutando e ainda por cima sabe onde moro.


— Você acredita mesmo nessa... bruxaria?


— Não chamaria exatamente assim — respondi, sendo pega de surpresa. — Mas há alguma coisa fora do normal nela. Naquele dia do ônibus... algo aconteceu entre nós duas, e me sinto diferente desde então.


Elas estavam me olhando de um jeito esquisito.


— Então... por que você comprou o pingente? — perguntou Hannah.


— Não fui eu. Foi minha mãe que comprou para mim.


— E o que sua mãe disse da menina?


— Disse que ela era simpática, talentosa e muito persuasiva, mas agora me digam se não é estranho... quando minha mãe foi buscar a bolsa, ela... a menina... desapareceu sem cobrar nada pelo pingente.


Hannah balançou a cabeça.


— Não entendo. Uma desconhecida aparece na sua casa e deixa um pingente maravilhoso, quase como um presente?


— Não tenho a sensação de que seja um presente — murmurei.


— Chegamos, meninas — avisou o pai de Nat assim que cruzou os portões imensos do parque.


Uma empolgação tomou conta de mim quando vi todos os carros e furgões espalhados pela grama e a maioria das barracas já montada. Era a maior feira de artesanato e artigos usados da região, e nós três poderíamos passear horas a fio à procura de pechinchas. Definitivamente valia a pena acordar às cinco da manhã para isso. Estávamos com tanta pressa que saímos do carro aos tropeços, e Nat deu um berro ao quase afundar os pés em bosta de vaca.


Hannah seguiu direto para a barraca mais próxima e agarrou um vaso largo com desenhos de flores azuis e brancas.


— Parece bem antigo — anunciou toda importante —, provavelmente é do período eduardiano.


Ficaria muito bonito com uma planta dentro. Vou comprar para a minha mãe.


— É um urinol. — Nat riu baixinho em meu ouvido. — É feito para urinar dentro. Não conte até chegarmos em casa.


Meu ânimo melhorou enquanto caminhávamos por ali. A grama estava molhada de orvalho e a barra da minha calça logo ficou ensopada e pesada; meus sapatos de lona, encharcados. Hannah não estava em melhores condições, pisava com todo cuidado enquanto atravessava o campo com seu vestido estilo bata e as pernas de fora; a grama roçava, irritando sua pele. Nat era a única que se vestira com mais sensatez, calçando galochas verde e rosa fluorescente sobre uma meia-calça preta e short jeans. Assim que a neblina da manhã se dissipou, o céu se abriu num azul surpreendente, e nós três arrancamos as jaquetas e os cardigãs. Ninguém havia se preocupado em tomar café da manhã, e o cheiro do café, das rosquinhas e croissants se espalhava pelo ar. Meus pés começaram a andar por conta própria na direção da barraquinha de comida, mas quatro mãos me seguraram pelo braço.


— Não podemos parar ainda, senão vamos deixar de comprar as melhores coisas.


Elas tinham razão; em dez minutos de buscas frenéticas, eu encontrara um chapéu de tecido com risca de giz que Merlin iria amar e um vestido estilo anos 1950, com saia evasê, estampado com rosas imensas. Sabia que não era vintage de verdade e consegui convencer a vendedora a baixar o preço de oito para cinco libras. Nat se atracou a um gato de pelúcia, porque fazia coleção, e a uma bolsa de sair à noite, toda bordada, da década de 1920, que custou apenas quinze libras. O café da manhã não podia mais ser adiado; com todas as cadeiras plásticas ocupadas, sentamos na grama, saboreando nosso café e comendo rosquinhas polvilhadas de açúcar, tão doces que chegavam a doer os dentes.


A sensação de estar ali com Nat e Hannah era ótima, absorvendo os primeiros raios da manhã e observando a multidão chegar. Longe de ser um empecilho, a aglomeração de pessoas dava ares de desafio, e a gente também gostava de observá-las. De vez em quando, Nat suspirava por causa de um amigo de Merlin — Adam — por quem estava irremediavelmente apaixonada desde que o conhecera em uma festa. Hannah levantou para jogar o lixo na cesta, e me debrucei na direção de Nat.


— Por que você não usa o poder da sua mente para conquistá-lo? — sussurrei.


Os olhos de Nat se arregalaram maliciosamente.


— Então você também mexe com magia?


— Não... não com magia — tentei explicar —, só com energia positiva para tentar dar um empurrão em certas coisas. Qualquer um pode exercitar isso, mas algumas pessoas têm mais... facilidade.


— Que tipo de pessoa?


— Bem... precisa ter a mente aberta, mas quando queremos algo de verdade, de verdade mesmo, acredito que somos capazes de... manifestar aquilo.


— Está parecendo um feitiço de amor — debochou Nat. — Talvez eu devesse tentar. Foi assim que você seduziu Merlin?


Pressionei os lábios e me recusei a revelar a resposta. Hannah reapareceu e olhou para nós duas sem entender, mas bati na lateral do meu nariz e disse que era uma piada particular. Ela fez uma careta, mas não pareceu ter se incomodado. Arranquei algumas margaridas do chão e espalhei as pétalas no gramado.


— Hannah? Você conhece Merlin há mais tempo — comecei, como quem não quer nada. — Ele teve muitas namoradas?


— Por mais estranho que pareça, não — respondeu ela, devagar. — Embora um bom número de garotas tenha tentado, ele é bem... intenso e envolvido com o trabalho. Acho que estava se guardando para você.


Fiquei de pé, tentando disfarçar o prazer que senti com aquelas palavras, e espanei o açúcar da minha calça. Foi então que a avistei, mais tranquila do que nunca, arrumando o mostruário de bijuterias sobre uma mesinha de madeira instável e dando um sorriso de canto de boca para mim. A rosquinha entalou na garganta, e meu estômago se revirou no mesmo instante. O copo descartável escorregou da minha mão, caindo na grama.


— Estou vendo a menina — rosnei. — Estou cheia dessa história, vou até lá confrontá-la.


Sem esperar pela resposta de Nat ou Hannah, marchei em direção à barraca dela, mantendo os olhos fixos na garota. Um homem se intrometeu na minha frente de modo grosseiro e me distraiu. Foi apenas um segundo, mas naquela fração de tempo ela evaporou. Uma mulher mais velha, com a expressão irritada, estava agora parada em seu lugar.


— Para onde foi a garota?


— Nunca a vi antes — resmungou a voz. — Ela pediu que eu ficasse de olho em sua barraca, mas tenho a minha para cuidar.


Notei um vulto no meu campo de visão. Não passava de um movimento de tecido desaparecendo na multidão, mas sabia que era ela e precisava segui-la. Mas tinha gente para todos os lados, e eu tentando abrir caminho para passar. Eu era lenta e desajeitada se comparada a ela, que era leve como um fio de seda, uma pena flutuando e dançando no ar, um balão fugitivo subindo ou uma bailarina dando piruetas. Sempre que a perdia de vista, reaparecia algum fragmento de algo: o vislumbre de um brinco, uma mecha de cabelos ou mesmo o canto da boca quando ela virava de costas... Eu quase podia ouvir gargalhadas ao meu redor.


O mais sensato seria parar e voltar para perto das minhas amigas, mas eu não conseguiria fazer isso, e ela sabia muito bem. Estava ficando cada vez mais difícil forçar minha passagem por entre as pessoas, e já não me importava mais se pisava no pé ou dava alguma cotovelada nas costelas de alguém. De repente, derrubei uma barraca, e os livros e as louças foram parar no gramado. Os gritos de indignação não me detiveram. Havia uma clareira em que a multidão diminuía, e pude entrever o asfalto, o que indicava o início do estacionamento. Corri mais rápido e, ao chegar ao fim do campo, consegui voltar a respirar livremente. Por poucos segundos, olhei para as nuvens, ofegante, desorientada pela amplidão do espaço. Uma rápida olhada para os dois lados não revelou nada; era como se ela tivesse sido engolida pela atmosfera. Não podia ser real, pelo jeito com que se movia, pela sua velocidade e pelo fato de sempre desaparecer diante dos meus olhos.


Um ruído súbito me assustou. Alguém estava pigarreando. Dei meia-volta devagar e congelei. A garota estava a menos de dois metros de distância, enchendo um galão de água em uma torneira do parque. Fiquei enraizada no lugar. Ela definitivamente era de carne e osso, não um fantasma qualquer da minha imaginação. Fiquei encarando-a por uns trinta segundos, até que finalmente ela levantou os olhos e me examinou sem piscar.


Recobrei os sentidos. Com o braço estendido, levando o pingente no meio da palma da mão, fui até ela.


— Acho que isso é seu.


— Ah, é? — perguntou, com ar jocoso. — Não deixei cair nada.


— Você foi até a minha casa, mas não esperou pelo pagamento...


Os olhos ovais dela quase se fecharam.


— Nós chegamos a conversar?


Aquilo era ridículo. Senti como se minha língua estivesse amarrada, como se ela fosse um adulto, e eu, uma criança.


— Eu não estava... não, não conversamos. Minha mãe atendeu a porta. Você falou com ela.


A água transbordou do galão e derramou nos seus pés, mas ela não fechou a torneira.


— Então como sabe que fui eu?


— A bar... a barraca — gaguejei. — Reconheci o pingente por causa da sua barraca de bijuterias.


Os lábios dela se curvaram num leve sorriso.


— Não tenho nenhuma peça desse tipo.


Meu rosto ficou vermelho como tijolo.


— Bem... minha mãe descreveu você, depois a vi por aqui e juntei as duas coisas e...


— Decidiu me seguir — completou ela.


Aquilo era loucura. Estava começando a parecer que eu era a perseguidora em vez dela. E era impossível avaliar o tom que ela estava usando, se havia ou não alguma aresta.


— Então não é seu? — perguntei em tom de desafio.


— Deixe-me ver.


Quando ela pegou o pingente, seus dedos tocaram os meus, e senti como se um choque elétrico percorresse meu corpo. Na verdade, dei um passo para trás, o coração disparado, mas ela parecia totalmente impassível. Franziu a testa e jogou o pingente de volta para mim.


— Não sei dizer.


Aquilo não daria em nada, mas me recusei a rastejar de volta até Nat e Hannah me sentindo derrotada. Tentei disfarçar a hesitação na voz e encarei a garota com determinação.


— Você esteve na rua Hillside semana passada?


Finalmente ela cortou o fluxo de água, jogou longe as sapatilhas que estava usando e, toda graciosa, roçou os dedos dos pés na grama.


— Não me lembro.


— Tem que se lembrar.


Ela deu de ombros.


— Não entendo, qual é o problema? Você pode ficar com o pingente.


— Não quero ficar com ele. — Bufei e tentei entregá-lo de volta, mas desta vez ela se recusou a pegar.


Encarei a garota com rebeldia, mas sua expressão se suavizou e ela começou a rir baixinho.


Passado um minuto de perplexidade, também comecei a rir, percebendo, de repente, a impressão ridícula que eu devia estar causando ao disparar atrás dela com todo tipo de acusações estranhas.


— Sinto muito se estamos começando assim de maneira péssima. — Desculpei-me. — Não queria que você saísse prejudicada de uma venda, apenas isso.


— Gosta do pingente?


— É um graça — admiti.


Ela inclinou a cabeça para o lado e me observou sob a camada de cílios.


— Então deveria ficar com ele, Katy.


— Você sabe meu nome?


Ela parecia continuar rindo.


— Sei muito sobre você.


Franzi a testa.


— Mas eu não sei nada de você.


Ela chegou mais perto e pude sentir sua respiração no meu rosto. Os lábios se entreabriram e se moveram inaudíveis. Não saía nenhum som e, no entanto, eu a escutava. Ela repetia a mesma frase uma porção de vezes, e eu não conseguia me afastar.


Um toque no meu ombro fez o meu corpo inteiro se contrair.


— Katy! — exclamou Nat. — Procuramos você por toda parte.


Hannah se intrometeu.


— Por que sumiu desse jeito?


Deparei-me com as duas olhando para mim e depois me voltei para a garota. Ela sorriu, piscou e acenou para mim de um jeito amigável.


— Está tudo bem? — perguntou Hannah.


Assenti e, enganchada nos braços das duas, andamos em direção às barracas. Virei-me apenas uma vez e vi a garota me observando de longe, estranhamente petrificada. Balancei a cabeça, brava comigo mesma porque deveria estar fantasiando. Porém, não importava o quanto me esforçasse para esquecer, ainda podia ouvir a voz dela retumbando dentro da minha cabeça e repetindo mil vezes:


Eu sou o pior pesadelo da sua vida.


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Autor(a): Fer Linhares

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