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Fanfic: Fantástico Clandestino Amor – Relive | Tema: Fantástico; Aventura; Literatura; Livros. Releitura do conto Felicidade Clandestina (Clarice Linspec


Capítulo: Fantástico Clandestino Amor – Relive (OneShot)

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Era um dia ensolarado e eu era cinza.


Não vos minto, mas em minha vida não haviam surpresas até aquele dia. Caminhava toda manhã para a universidade, perto de minha casa. Que sorte! Pois, na verdade, eu me arrastava até lá sentindo todo o peso de todas aquelas disciplinas chatas e cansativas. Apesar de amar o curso, passei a odiar ler todos aqueles textos enfadonhos.


Vivia sem amigos e morava sozinha. Pagava minhas próprias contas com o trabalho de professora de dança para crianças à tarde e ilustradora num escritório de webtoons à noite, mas não gastava com nada além de comida e textos xerocados, adivinhem, para aquelas chatas disciplinas. Talvez eu seja só um pouquinho sovina, mas é tudo culpa do Jung. Ah, está certo, devo dividir esta culpa meio a meio.


Jung, meu namorado, trabalhava meio turno, sem contar que fazia hora extra de vez em sempre e ainda arrumávamos tempo para nos vermos todos os dias depois de tudo. Ainda não entendo como ele conseguia passar em todas as matérias do seu curso, enquanto eu me arrastava pelo meu.


Sentia que algo estava faltando.


Enquanto ele falava em pouparmos grana, mudanças, casa nova e noivado, eu pensava em poupar grana, terminar minha graduação em Língua Estrangeira e viajar. Porém, esta última parte ainda não me era possível, a segunda iria demorar mais alguns semestres e, para eu chegar na última deveria fazer a primeira. Então, o que me restava desta equação era fazer economias com o que ganhava dos meus dois empregos.


Era um dia ensolarado e eu era cinza precisando respirar, precisava de uma pausa dessa vida frenética e curar de uma vez por todas minha apatia. Mas, como? Me sentia correndo em círculos, como um hamster enjaulado sendo enganado de que tudo o que teria para explorar se resumia àquele espiral que me sugava.


Vida perfeita?


Só aparência e Jung era o único que conseguia me entender. Eu bebia de sua determinação, mas ambos sabíamos que sofríamos do mesmo mal.


Conversávamos sobre isto por telefone enquanto eu caminhava pela ampla e limpa rua que daria até minha universidade. Sua voz tremia pelas trepidações do ônibus já do outro lado da cidade às 6:30 da manhã.


- Entendo completamente o que está sentindo, querida. Também me sinto cansado muitas vezes. Mas um dia sairemos dessa; é para o que estamos trabalhando. ‘Tamos juntos nessa.


Ele me dizia no que eu concordava e refletia aquelas palavras.


- Sinto falta da minha infância em que não precisava me preocupar com mais nada além de qual o novo gibi seria lançado no mês ou qual novo país eu iria conhecer através de páginas amareladas dos livros...


Jung suspirou do outro lado da linha.


- Nesta época eu só queria saber de jogos de vídeo game e gibis de super-heróis. – Riu com a lembrança e me deliciei com aquele som agradável imaginando seus olhos puxados esconderem-se em duas linhas finas e apaixonantes.


- Sabe que te amo, não é? – Perguntei mais como afirmação.


- É mesmo? – Riu novamente – Até as minhas manias?


- Até suas manias.


- Também te amo.


Desliguei a ligação pensativa.


Ah, como eu gostaria estar em outro lugar, vivendo a vida que sempre sonhei...


Continuava meu caminho. A universidade já próxima. Mas, um som retumbante me fez paralisar procurando de onde estaria saindo.


Olhei ao redor com os olhos curiosos e acatitados. A rua era tranquila e as poucas pessoas que passavam pareciam não se importar.


TUM-TUM.


Me sobressaltei. Aquele som parecia ecoar por toda a cidade tamanha era a altura, mas eu parecia ser a única a ouvir.


TUM-TUM, TUM-TUM...


Aumentava o ritmo a cada segundo, mas tentei continuar meu caminho, mesmo me sentindo desconfortável. Por um breve momento, pensei se estaria ficando louca ou delirando por algum motivo surreal. Pisquei incomodada com o sol alto repentino ainda tão cedo e toda aquela luz me cegou.


Pus uma mão na frente do rosto fazendo sombra e assim que minha vista se acostumou não evitei em gritar.


- Mas que lugar é este?!


Eu me via em meio a uma movimentada rua de arquitetura rústica e detalhada. Carros cruzavam o caminho alheio, sem sinal algum e animais passavam em meio ao estranho trânsito. Bicicletas se espremiam em meio a carroças e buzinas preenchiam meus ouvidos deixando-me quase surda!


Um homem de turbante na cabeça, barba escura e pele bronzeada passou apressado batendo em meu ombro falando algo em um idioma que não pude compreender.


Meu coração pululava assim como os grãos de poeira agitados naquele caos.


Avistei uma mulher ao longe, sua beleza me chamou atenção e ela parecia curiosa com tudo e sorridente, até que habilmente e tão veloz como uma flecha, um pivete correu até ela roubando-lhe a bolsas. Levei as mãos à boca mais uma vez assustada e a vi correr atrás do jovem ladrão.


Um estalo me veio à mente e poderia jurar que seriam capazes de avistar uma lâmpada bem em cima de minha cabeça.


- Cairo! Estou no Egito, em uma das cenas de um livro que li anos atrás! Como isto é possível?


Levei as mãos ao cabelo puxando-os sem me dar conta do que fazia.


Olhei ao meu redor e como num flash, relembrei de cada cena preferida daquele enredo; de como viajei por cada rua daquela cidade e cada mistério que tentei desvendar junto àquela mulher que sequer existia! Lembrei-me da Esfinge, que dá nome ao livro, e da câmara secreta em uma das pirâmides. Ah, os ladrões de túmulo e o mercado negro...


- Uau... – Deixem-me viajar mais uma vez, agora, de forma fantástica e surreal, podendo pisar naquelas terras e sentir todo aquele clima árido que tanto amei.


- Perdida? – Uma voz feminina fez-se ouvir e olhei por cima do ombro.


Uma jovem ruiva de cabelos volumosos e ondulados, alta e de corpo avantajado, tinha um sorriso misterioso nos lábios. Alguém que parecia saber quem eu era, mas eu sequer a conhecia, então, quem seria ela que falava meu idioma naquele país tão distante do meu Brasil? Tão distante das ruas de meu Leão do Norte?


- Quem é você? – Me senti confusa – Como vim parar aqui?


- Lembra do quanto se divertiu com esta cena? Lembra daquele pivete e da bravura da personagem em segui-lo? – Ela tinha um tom saudoso e ao mesmo tempo feliz.


- Eu amava aquela arqueóloga. Tão forte e destemida. Quando criança, que li este livro, queria ser como ela!


Os sons das buzinas não cessavam e homens gritavam para todos os lados. Um cavalo relinchou a milímetros de onde eu estava e pulei para perto da ruiva, que como num piscar já não se encontrava mais ali.


- Céus!


Novamente uma forte luz invadiu meus olhos e senti meu corpo leve como uma pluma. A imagem a minha frente, da caótica Cairo, craquelou-se diante dos meus olhos e cores se difundiam como em uma ciranda psicodélica. Eu estava mais uma vez em meio ao espaço-tempo sem aviso prévio. Onde eu iria parar agora?


Estava longe de me acostumar com esta mudança brusca de cenário e mais uma vez gritei a todo pulmão. Até que senti meus pés tocarem o chão, para o meu enorme alívio.


Cerrei os olhos evitando a forte luz inicial e quando os abri por completo dei passos cambaleantes para trás, tamanho foi meu choque.


Olhei em volta e me deparei com um horizonte infindável. Montanhas cobertas de neblina e pradarias preenchiam toda a extensão. Eu me encontrava no alto de um desfiladeiro com caminhos de pedras instáveis. A poucos passos de onde eu estava, pude ver uma escura caverna.


Caminhei até ela, respirei fundo e um frio fez-se presente na boca do meu estômago. A adrenalina à mil. E, involuntariamente, um sorriso desenhou-se em meus lábios. A mesma sensação de quando li o professor Lidenbrock e seu sobrinho Axel adentrando aquele lugar em busca d’O Centro da Terra.


Eu estava na Islândia!


Assim que entrei timidamente na caverna pude ouvir as vozes dos dois personagens. Tio e sobrinho haviam se desencontrado em meio ao labirinto de caminhos que aquela caverna proporcionava.


Meu coração acelerou ao lembrar-me do desespero do Axel a correr pelos estreitos corredores escuros da caverna. Uma cena de tirar o fôlego!


E agora cá estava eu, perdendo o fôlego literalmente, ouvindo-os gritar um pelo outro em busca de uma solução para alcançar a ambiciosa viagem ao núcleo da Terra.


Em um ímpeto, senti vontade de chorar e lágrimas já se acumulavam no canto de meus olhos. Um misto de aflição pelo Axel e emoção por estar revivendo cada cena dos meus livros preferidos; cada cena das melhores e preciosas fases da minha vida.


Como eu havia esquecido de tudo isto?


- Não chore, minha jovem.


Me sobressaltei pela milésima vez em menos de três horas. A mulher ruiva e avantajada, parecia gostar de me maltratar com estas sensações vívidas entre o real e o surreal. Como em uma tortura asiática para capturados de guerra. Talvez ela gostasse de me ver sofrendo com a falta que eu descobria que tinha de mim mesma. Que cruel.


Em que momento me perdi de mim?


Esta mulher seria um demônio ou seria ela meu anjo?


A encarei com os olhos esbugalhados. Eu nunca tinha tempo de fazer-lhe um questionário digno de Sherlock Holmes sobre quem era ela e ainda o que estava acontecendo. Como me conhecia e o que queria de mim.


- Vê como os sentimentos gritam ao revivermos o que amamos? Esta emoção é mesmo pelo jovem e inconformado Axel? Ou seria por você mesma?


Sempre tão enigmática...


- O que quer de mim e quem é você?


Ela riu de forma amena alisando meus fios escuros.


Franzi os cenhos e fiz menção em abrir a boca para mais uma pergunta, mas como num rompante fui tomada novamente à passagem psicodélica pelo espaço-tempo de mundos que faziam parte de mim. Mundos que me apresentaram ao mundo das letras e ao mundo afora, por meio de acolhedoras páginas.


As cores mesclavam-se e a forte luz me cegava impedindo-me de tentar enxergar imagens para além do caos. Senti minha cabeça zonza e me perguntei por quantos lugares mais eu iria passar. Afinal, se fosse depender da quantidade de livros em que li na minha juventude, creio que passaria o resto da vida fazendo viagens por portais fantásticos.


Tombei num chão fofo e uma quentura logo penetrou minha pele me tomando de meus devaneios. Cambaleei, as pernas bambas. Deixei que meus olhos se acostumassem à nova paisagem. Para onde eu teria ido?


Ao meu lado, um profundo lago borbulhante expelia um líquido fervente. Afastei-me de imediato levando uma mão ao peito numa tentativa de controlar meus batimentos.


Observei ao redor e uma grama fofa estendia-se rente ao chão úmido de cheiro forte. Minha irmã diria que era enxofre. Olhei para o lago estranho que borbulhava e me afastei um pouco mais, só por precaução. O ar era fresco e um sol, que parecia mil vezes mais próximo, deixava o lugar entre imponente e o bucólico. Olhei com estranheza, mas aquilo me lembrava um lugar...


Tudo ali parecia ter vida e uma forte sensação de olhos a me espreitar me tomou.


Desconfiada, girei em meus calcanhares virando-me de costas para enxergar o todo ao meu redor e aquilo parecia um vale. Árvores enormes agrupavam-se a um canto, pradarias seguiam ao infinito, lagos espalhavam-se pelo campo de grama úmida e ao longe, um gigantesco platô coberto por uma névoa que parecia rente ao céu.


- Não acredito que vim parar aqui... – Falei comigo mesma reticente e mal pude concluir a frase. Logo, um som agudo ecoou pelo vale juntamente a um som rouco de lufadas sendo espalhadas por alguma espécie leque colossal, arfando com facilidade as longas folhas das árvores majestosas.


Olhei para o céu imaginando o que viria, no mesmo instante em que um gigante pteranodonte emitiu, como um grito, sua ameaça contra mim. Pus-me a correr desesperada fugindo daquele réptil voador e isto foi mais que o suficiente para que eu pudesse concluir que estava n’O Mundo Perdido. Nunca imaginei que passaria pelo mesmo desespero da sobrevivência que passou o grupo do professor Challenger.


Ofegante, com o coração descompassado e pensamento em um turbilhão, tropecei com força em algo, caindo em um baque surdo e me deparei com um osso de um ser tão colossal quanto todo aquele lugar e foi o que me salvou. O pteranodonte sobrevoou minha cabeça raspando minha pele e senti meus pelos eriçarem pelo medo. Levantei-me correndo sem rumo e ao meu lado ouvi passadas igualmente apressadas. Olhei para o lado e tive a plena consciência de que seria possível que meus olhos saltassem das órbitas tamanha era a adrenalina e logo avistei a mulher de fios alaranjados. Seus olhos brilhavam e parecia se divertir.


Chegava a conclusão que, na verdade, a louca era ela.


- Não é emocionante?! – Me perguntou quase que num grito tamanha era a agitação do momento.


- Emocionante? Isto é horripilante! Mas, não sei explicar – comecei também gritando já sem fôlego pela corrida – apesar de estar morrendo de medo, estou amando tudo isto, esta aventura! Faz sentido? Eu quase acabei de morrer! – Gargalhei ao concluir me desviando de mais ossos e pedras em meio à corrida.


Bom, retiro o que disse. Acredito que a louca seja eu, mesmo.


A ruiva sorriu satisfeita.


- Compreende que a melhor fase da sua vida, em sua mais tenra idade, continua aí, dentro de você? – Ela apontou para o meu coração.


Parei de correr escondendo-me à sombra de uma das grandes árvores, apoiando as mãos nos joelhos puxando o ar com dificuldade.


- O quê? Não conseguia formular mais nada além do que eu conseguia ver. Era informação demais para tempo de menos.


- Quero dizer que você tem que resgatar a si mesma. Saia dessa apatia lembrando de quem você realmente é. Seu eu interior.


- Espera. – Pedi pondo-me ereta, regularizando minha respiração. Queria saber afinal, quem era ela, o que ela estava tentando me mostrar.


Ouvi uma movimentação nas folhagens da árvore acima de mim e meu coração voltou a acelerar cheio de medo e euforia, mas logo voltei minha atenção para a mulher à minha frente antes que ela resolvesse sumir mais uma vez.


- Não temos muito tempo, precisamos ir embora. – Ela falou também olhando para a árvore que parecia esconder algo.


- O que quer que eu faça?! – Inquiri impaciente.


- Sei o quanto tudo pode ser cansativo e cinza, mas não deve se esquecer que a felicidade está nas pequenas coisas.


Olhei-a surpresa compreendendo, no que ela continuou brevemente parecendo ansiosa.


- Tudo isto, você já viveu. Os livros já te trouxeram até estes lugares e com eles, você era feliz sem ter pressa para isto. Não esqueça do seu Eu interior e tudo pode acontecer como num piscar de olhos.


- Então você está dizen--


Mas já era tarde demais e mais uma vez a mulher pareceu evaporar bem diante dos meus olhos. Pendi, no mesmo instante, minha cabeça para cima avistando as folhas agitadas a metros de distância do chão e, por entre os galhos e longas folhas, pude finalmente ver o contorno do que parecia ser uma pessoa envolto nas sombras daquela planta gigantesca.


Gritei assustada, em um ato de puro temor e pude ver que o ser escondido pulou de onde estava caindo em minha direção calculando um pouso ameaçador. A medida que aproximava-se pude ver que segurava uma afiada lança e senti meu coração retumbar em meu peito e pude jurar que errou uma batida.


Mas, como num momento de salvação a forte claridade invadiu o lugar e cobri meu rosto com ambas as mãos fechando os olhos com força e pedindo aos céus que eu não morresse em um lugar em que seria esquecida; em que minha existência de nada valesse.


Lembrei-me do Jung e do seu sorriso sincero e aquilo foi meu ponto instantâneo de equilíbrio.


As imagens craquelaram rachando-se diante daquela luz e iniciei mais um fantástico teletransporte. Novamente cores borradas dançavam e como em um vislumbre pude finalmente enxergar algo por entre toda aquela psicodelia: um submarino à léguas oceano abaixo, seres magníficos, um balão sobrevoando lugares esplêndidos do mundo, a histórica Catedral de Notre-Dame e uma cigana esvoaçando seu vestido em uma dança de sentimentos, o ar sombrio de uma Londres distante e seu detetive de passos apressados... Memórias da minha infância, livros e mais livros. Mais uma vez borrões.


Senti-me caindo em um espiral infinito, minha mente parecia rodar de igual modo e tudo era difuso. Senti meu corpo em um baque com algo confortável e macio.


Inquieta, abri meus olhos com a respiração rasa.


O coração ainda batia acelerado.


Eu estava em casa. Em minha cama. Ainda era noite.


Ao meu lado, Jung adormecia profundamente com a expressão tranquila apesar de cansada.


Respirei fundo enxugando gotas de suor que brotavam sem permissão de minha testa molhando alguns fios que afastei. Meu peito ainda subia e descia sem ritmo.


Encarei o teto, embasbacada.


- Um sonho. Tudo não passou de um sonho.


Alívio me definiu, mas um sorriso insistia em formar-se. Eu estava feliz. Me sentia viva novamente e disposta à viver.


Como num piscar de olhos, eu me sentia capaz de acompanhar o sol que logo despontava em minha vida e o cinza não mais faria parte da minha cartela de cores.


- Aquela mulher... – Sussurrei para mim mesma.


Acho que ela está mais para um anjo, daqueles, amigos tipo guardiões que insistem que tudo vai ficar bem e eu acreditei nela. A ruiva de pele alva, corpo avantajado e fios ondulados me apresentou à mim mesma e me fez me puxar de volta de algum canto esquecido dentro em meu interior.


Os livros me fizeram voltar a vida e tudo fez sentido. Eles me apresentaram novos mundos, novos sentimentos e sensações. Me inspiraram e me guiaram, me ajudaram e foram meus companheiros fiéis. Não poderia mais deixar que a pressa da vida apagasse quem eu realmente sou.


Olhei para minha cabeceira e vi um livro empoeirado servindo de suporte para o abajur. Levantei-me puxando-o com cuidado e soprei a camada de poeira que encobria sua capa.


Tomei nota de que também sopraria a poeira da minha própria capa, assim como fazia com aquele objeto.


Pude ler: Livro – Um encontro, da autora Lygia Bojunga e me perguntei se aquilo seria algum tipo de acaso. Depois de todo o sonho que tive, tão surrealmente real, não duvido de quase nada.


Olhei para o Jung que se remexeu em minha cama ainda adormecido e voltei-me para o livro. Apertei-o contra o peito com carinho e desculpei-me mentalmente com meu namorado por aquele amor que sentia com os livros e pelos mesmos.


Um amor incondicional que apenas sente prazer ao deleite sem mais segredos; um amor inteiro, sem medos; cúmplice, novo e ao mesmo tempo nostálgico a cada folheada. Impossível de se enjoar, sem discussões bobas; sem precisar do momento certo, como dois amantes. Um amor ilegal. Duradouro.


Apenas desejo.


Um fantástico clandestino amor.


O tempo passava sem que eu me desse conta ainda imersa naquele sonho estranho.


Ainda imersa naqueles universos.


Imersa em mim mesma.


- Já acordada? – Jung sentou-se na cama espreguiçando-se, com os fios lisos desgrenhados. Estendeu a mão para que a segurasse e assim o fiz. Ele me puxou para um abraço quentinho e me aninhei em seus braços com o livro em mãos.


De um lado, meu amor eterno; do outro meu amor clandestino.


Eu havia me reencontrado.


 


~*~


 


Algumas horas se passaram e precisamos sair para o começo de mais um dia.


Era um dia ensolarado e eu, acompanhava este sol.


Fazia o caminho de todas as manhãs para a universidade e me sentia bem com aquilo. Algo em mim havia mudado da noite para o dia, literalmente e uma sensação de Dejà Vú me tomou. Assim como no sonho, meu celular tocou e comecei uma chamada com Jung enquanto fazia o percurso pacato matinal.


Porém, diferente daquele sonho, conversávamos o quanto estávamos felizes e o quanto poderíamos crescer. Fazíamos planos e tínhamos esperança.


Contei à ele que queria, um dia, viajar para cada lugar em que havia viajado através das folhas surradas dos meus velhos livros e ele ficou animado, pensando em hospedagens e o quanto aproveitaria das gastronomias locais.


Ríamos juntos, até que meu coração disparou ao avistar alguém, como uma miragem.


Parei assim como pausei o que falava, deixando o outro na linha à minha espera.


Uma mulher alta, de corpo avantajado e fios ondulados alaranjados passou apressadamente por mim e sorridente, segurava uma sacola de livros. Me acenou feliz fazendo um leve movimento com a cabeça em comprimento.


Foi tudo tão rápido que não tive tempo de retribuir ou sequer pedir que esperasse.


Fiquei em choque. Era ela!


Mas ela logo se foi, como num piscar de olhos.


Atordoada, despedi-me de Jung e desliguei a ligação. Resolvi que deixaria a aula para depois.


- O que foi isto que acabou de acontecer?! – Murmurei para mim mesma caminhando vagarosamente pelo caminho de volta.


Precisava pensar e comecei a acreditar que alguma peça não se encaixava... Como pode eu sonhar com alguém que nunca vi na vida? Ou até mesmo alguém que não existe poder sair de um sonho?


Abri a porta de casa vagarosamente assim como estavam os meus pensamentos confusos. Adentrei meu quarto arrastando os pés. Joguei minha bolsa de lado, na cama e algo em baixo da mesma me chamou atenção. Algo que me havia passado despercebido mais cedo. Uma pequena parte despontava para o lado de fora da colcha amarela recaída. Levantei o tecido felpudo e macio, agachei-me e tateei o objeto. Segurando-o, puxei-o com dificuldade para fora daquele espaço. Tive que ajoelhar-me usando as duas mãos para remover o objeto tamanho era seu peso e densidade.


Aquilo estava estranho.


Senti meu coração disparar dando sinais de que algo estava fora do que eu conhecia como normal.


Assim que consegui arrastá-lo para fora o suficiente e vi o que era, soltei-o com espanto e caí para trás, sentada, num tombo dolorido. Me afastei instintivamente e não acreditei no que meus olhos estavam vendo:


Um avantajado osso, de algum ser pré-histórico, estava bem diante dos meus olhos. O mesmo em que eu havia tropeçado no vale daquele Mundo Perdido em meu sonho ou seria “sonho”.


Levei uma mão à boca. Eu tremia da cabeça aos pés.


- Não foi um sonho! - Gritei para mim mesma deixando-me ser tomada pelo choque daquela estranha realidade.


As palavras da ruiva mulher ecoaram em minha mente trazendo-me de volta do meu breve torpor:


“Não esqueça do seu Eu interior e tudo pode acontecer como num piscar de olhos”.


Ali compreendi que tudo começou com meu amor ilegal me curando de mim mesma, me resgatando do meu próprio abismo e apenas com algo fantástico eu poderia despertar da minha apática cartela de cinza.


Agora tudo continuaria; com meus livros, minhas paixões, meus amores ilegais.


 


***


 


Anos se passaram desde este estranho dia e vezes a mulher ruiva me visita em sonhos. Até hoje me pergunto a partir de que momento entramos no mundo dos sonhos ou desde que segundo estamos mesmo acordados.


Concluí meu curso superior de idioma. Me tornei escritora. Crio meus personagens e os tiro das letras fazendo-os em cores, linhas e expressões como também ilustradora.


Ainda não expus o fantástico achado pré-histórico que foi parar debaixo da minha cama, tampouco contei às mídias minhas viagens na fenda do tempo. Ou me chamariam de louca ou eu ganharia uma nota alta. Como não me interesso nem por uma opção, e não mais pela outra, vivo com o Jung e com os livros do jeitinho que sempre quis.


Assim que contei tudo o que me havia acontecido e mostrei ao Jung aquela peça arqueológica surreal, o Jung caiu para trás, me chamou de louca e entre beijos, disse-me que rica ou não, estaria comigo, mas com a condição:


- Só não passe mais tempo com esse aí do que comigo, hum. – Falou com um falso desdém, não escondendo um cúmplice sorriso de canto, apontando com o queixo para o osso no meio do quarto.


Um dia, quem sabe, talvez o mundo conheça minha aventura por meio de um futuro amante, novinho em folha, que poderei publicar.


Estamos agora, o Jung e eu, uma temporada em uma região próxima à bacia Amazônica, cenário de O Mundo Perdido e seu enorme platô misterioso, nos inspirando à novos caminhos e planos. Ele, chef gastronômico aprendendo e deliciando-se com cada canto deste meu sonho mais-que-perfeito: um sonho real, criando menus e escrevendo também seu próprio livro de receitas inéditas, com elementos típicos de cada lugar que fomos e ainda iremos. Com mapas e meu toque de referências literárias para cada lugar visitado. Este será um belo livro, mais uma linda paixão minha porém, desta vez, cheio de nós.


 


“...Tudo pode acontecer como num piscar de olhos”.


 


Era um dia ensolarado e eu era o meu próprio sol.


Me reencontrei em meu próprio Eu, agora com a euforia e jovialidade que sempre me pertenceram, mas que estavam empoeiradas em algum canto de mim.


Agora tenho de volta os meus, para sempre amantes, livros.


Fantástico clandestino amor.


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Autor(a): waleska_carol

Esta é a unica Fanfic escrita por este autor(a).




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