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Fanfic: Tarde de domingo (Felicidade Clandestina- Clarice Lispector) | Tema: Relações interpessoais


Capítulo: Tarde de domingo

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Tarde de domingo


 


Em minha juventude, nada mais encantava uma adolescente sonhadora do que o cheiro inebriante e o universo magico de um livro novo. Devido a escassez de recursos de nossa família, adquirir livros era fato a ser comemorado, como se ganhássemos um prêmio.


Ao contrário de todas as minhas amigas daquela época, Catarina, além de morar na melhor casa da cidade, de desfilar com seu carro e motorista por todas as ruas, de vestir roupas de moda, tinha acesso ao livro que quisesse; coisas que nós, menos abastadas, tínhamos apenas em sonhos.


Mas o que faltava a Catarina, tínhamos de sobra. Catarina não tinha amigos, visto que de nariz em pé, símbolo da arrogância, mantinha todas nós a distância, como se fossemos indignas de sua amizade. Toda tentativa de diálogo ou aproximação era recebida com olhar de desdenho.


Por traz desse ar de superioridade, vim a saber mais tarde que guardava uma melancolia, um sentimento de abandono. Sua mãe a deixara em tenra idade, vítima de uma doença, que naquela época, não se mencionava sequer o nome – câncer. Após se ver viúvo e com uma filha pequena nos braços, o pai se perdeu na vida, entregou-se ao álcool e as diversões noturnas, gastando boa parte da fortuna familiar. Por conta disso, Catarina criou aquela carapaça, acredito que fosse uma forma de blindagem a qualquer aproximação que poderia mais tarde tornar-se em abandono.


Em um domingo, quando saiamos da missa matinal, vi Catarina caminhando pela praça. Ela trazia consigo um livro. Aos poucos nossos caminhos foram se aproximando. Ao cumprimentá-la, como toda pessoa educada faz, vi que o livro que Catarina tinha em mãos era o objeto de meus sonhos, algo que queria a muito tempo mas papai não tinha condições para comprá-lo. Sem perceber, comecei a conversar com Catarina e, surpreendentemente, ela se mostrou receptiva e me respondeu sem sua arrogância costumeira. Acabamos conversando por longo período, claro que falando apenas de livros e nada mais. Ao final, acabei por pedir o livro emprestado, mas Catarina alegou que ainda estava lendo e que iria pensar se me emprestaria.


Ansiosa, voltei para casa e comecei a pensar em quantos dias ela terminaria sua leitura e se realmente me emprestaria. Mas minha empolgação durou pouco. Ao cruzar com Catarina na semana seguinte ela mal me olhou nos olhos.


Mais um domingo chegou, e quando saíamos da missa, novamente vi Catarina vindo em nossa direção. Nos cumprimentamos, sentamo-nos e começamos a conversar, mas toda vez que indagava se me emprestaria o livro, Catarina dizia que não terminara de ler. Era como se Catarina fosse pessoas diferentes, a que conversava animadamente aos domingos e a que me ignorava durante a semana.


Aos poucos, nossas conversas romperam os assuntos literários e se lançaram a situações corriqueiras, questões familiares, paqueras. Percebi que Catarina não era má, ela incorporava uma personagem e se escondia atrás dela. A resistência aos poucos foi se desfazendo, e Catarina passou a ser simpática durante a semana também.


Ao se passar mais de três meses, já nos considerávamos amigas, embora não frequentássemos os mesmos lugares, visto a diferença social existente entre nós. Nos encontrávamos na praça, em frente a igreja, e passávamos longas tardes conversando.


No final daquele ano uma notícia devastadora chegou à nós: Catarina estava doente como a mãe. Não havia tratamento, apenas medicações para alívio das dores. Entristecida, eu a visitava regularmente. Agora a barreira social, que impedia que frequentasse sua casa, fora rompida, e constantemente estava lá. O pai de Catarina dizia que eu levava alento para ela e trazia momentos de distração e esquecimento do porvir.


Em uma das tardes de visita Catarina me fez confissão, alegou nunca ter lido o famigerado livro, e naquele momento, pediu que eu lesse para ela, já que sua visão se apresentava turva e distorcida. Fiquei emocionada com o pedido, teria a oportunidade de ler o livro mais comentado da época e dispor de momentos agradáveis, memoráveis com a amiga que estava por partir.


Capítulo após capítulo, ficávamos ansiosas para o dia seguinte e o desenrolar da história, mas acabei por ler o fim do livro sozinha. Catarina partiu em um domingo, logo após o fim da missa, sem saber o desfecho da história que nos aproximou.


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Autor(a): gislene

Esta é a unica Fanfic escrita por este autor(a).




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