Fanfic: Clarice Feliz | Tema: Clarice
Ela era gordinha, com busto enorme, enquanto as outras ainda eram achatadas. Como se não bastasse, tinha dinheiro para comer balas, diferente das outras meninas. Sua diversão era a leitura e para sua sorte, seu pai era dono de livraria. As outras meninas recebiam em seus aniversários um cartão postal da loja de seu pai, com paisagens comuns da cidade onde viviam, ao invés de um livreto simples que fosse. Tinha talento para maldade, era pura vingança, chupava balas sem cerimônia, apenas para que as outras soubessem. Ela devia odiar as outras, por serem finas, altas e com cabelos belos. Comigo exerceu com calma seu veneno.
Com minha fome por leitura, nem notei tamanha maldade, continuei a pedir livros emprestados que ela não lia. Um dia comentou que tinha o livro mais esperado do ano, e eu fiquei empolgada embora fosse algo fora da minha realidade.
Me falou para passar em sua casa no dia seguinte e me emprestaria, fui a sua casa e me disse que tinha emprestado o livro e que deveria voltar no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí mas com a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, já que o s dias seguintes seriam agradáveis com a minha leitura. Mas não ficou simplesmente nisso, a filha do dono de livraria tinha um plano maldoso.
No dia seguinte lá estava com um sorriso e o coração batendo e tive como resposta que o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte, e assim continuou por um tempo. Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer, chegou um dia que, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe, que percebeu minha tristeza e pediu explicações a nós duas.
A mãe boa entendeu o que estava acontecendo e voltou-se para a menina má e exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! Nos olhos da mãe foi possível ver que ela sentiu a maldade de sua filha, e que desconhecida menina loura em pé à porta tinha uma esperança quase findada.
Então disse firme e calma para a filha que deveria emprestar o livro agora mesmo, afirmando ainda que deveria ficar com o livro o tempo que quisesse.
Fiquei estonteada, e assim recebi o livro na mão, não consegui dizer nada, não saí pulando como sempre, andei devagar e pensativa, segurando o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Não sei o tempo que levei até chegar em casa, e quando cheguei também não comecei a ler. Fingia que não o tinha, tempos depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, criei falsas dificuldades para ler o livro, dificuldades para aquela felicidade clandestina.
(LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998) Releitura de autoria própria
Autor(a): aluna321
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