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Fanfic: O Domínio Dos Mortos - Vondy | Tema: Vondy, Terror


Capítulo: Capítulo 102: A Última Caminhada entre os Sucumbidos

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“Por um momento, Philip apenas encara Brian e a escuridão parece aumentar em volta deles. A cidade parece se estender até a eternidade, como a paisagem de um sonho. Brian sente a pele toda arrepiada, como se o simples fato de colocar isso em palavras, de falar em voz alta, tivesse soltado o gênio do mal de uma garrafa. E eles nunca, nunca mais vão conseguir colocar o gênio de volta. Philip bebe um pouco do vinho. Na escuridão, seu rosto está triste e contraído”.


KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 162).


Capítulo 102:


A Última Caminhada entre os Sucumbidos


Era tarde da noite em Settsu quando Dulce e Carlos enfim se permitiram respirar aliviados: todos os preparativos para a última jornada, que começava com o nascer do sol do dia seguinte, foram concluídos.


Não que houvesse o suficiente para encher o porta-malas do Nissan-Leaf, mas eram bugigangas e alguns apetrechos que eles reuniram nos últimos dias, saqueados de residências próximas, e que poderiam se fazer necessários na jornada derradeira que enfrentariam.


Inquieta pelos flocos de neve que eram soprados para o vidro sujo da janela, Dulce desistiu de tentar esconder o fato de que estava nervosa e se afastou, fechando bem as cortinas pesadas com um suspiro. Uma única vela bruxuleava discretamente num canto mais afastado e ela era capaz de jurar que ouvia os roncos de Carlos através da parede fina que a separava do quarto ao lado.


Voltou para a cama e se aconchegou debaixo dos cobertores junto a Christopher, que ressonava tranquilamente. Ao menos um consolo para as suas aflições: Um deles conseguia descansar naquela noite perturbadoramente silenciosa. Satisfeita por isso, abraçou-o na semiescuridão e suspirou outra vez.


Ela se lembrou com um sorriso de como Christopher havia fungado com impaciência quando ela não permitiu que ele saísse da cama para ajudá-los a carregar o carro. Pensou que teria de recorrer a táticas mais agressivas para mantê-lo em repouso, mas no fim ele ouviu o bom senso e se resignou de que o melhor era descansar mais um pouco e guardar todas as forças para o dia seguinte.


Fechou os olhos para finalmente tentar dormir um pouco quando um toque em sua mão a fez enrijecer o corpo e se levantar um pouco para observar o rosto de Christopher, agora desperto.


— Acordei você?


— Não. — Ele mentiu e ela se desculpou com um sorriso. — Tive um pesadelo — Confessou à meia-voz, num sussurro temeroso sob a respiração áspera.


Dulce voltou a deitar a cabeça no ombro dele, correndo os dedos de cima a baixo pelas suas costelas, sobre a camiseta. Inspirou seu cheiro limpo e se curvou o suficiente para beijar a pele do pescoço.


— Foi um pesadelo com o seu irmão? — Não era preciso ser um gênio para saber quem havia protagonizado os sonhos ruins de Christopher, especialmente com a expectativa de um reencontro pendendo entre ambos, uma promessa que o amanhã também traria.


Christopher assentiu fracamente, engolindo a seco. Em resposta, Dulce o abraçou um pouco mais forte, buscando consolá-lo de possíveis resquícios do pesadelo que ainda pudessem perturbá-lo.


Felizmente, aquecidos e acalentados por uma falsa sensação de segurança, ambos pegaram no sono depressa. Precisariam de toda a energia de que pudessem dispor para os possíveis percalços que enfrentariam no dia seguinte.


E, de fato, o primeiro grande desafio com o qual se depararam com a chegada da alvorada foi a nevada contínua que voltara a fustigar a região. Flocos de neve tinham tornado a tingir o mundo enganadoramente pacífico por trás daquelas janelas sujas de um branco tão puro que fazia lacrimejar os olhos.


A nevada não estava forte o suficiente para fazê-los repensar a viagem ou mesmo para atrapalhá-la, mas eventualmente poderia progredir para uma nevasca e era esse prospecto que os inquietava. Ainda assim, Dulce ajudou Christopher a vestir um pesado casaco de lã negro, por cima do suéter de caxemira que ele já usava. Seus dedos abotoaram todos os botões e seus lábios acabaram se curvando num sorriso ante a carranca de Christopher.


— Eu poderia fazer isso sozinho — Ouvi-o resmungar enquanto suas mãos alisavam os ombros, onde o casaco emprestado ficara um pouco justo demais.


— Não, não poderia — Ela teimou, resistindo ao impulso de rir da careta que ele fez quando a sua mão alisou o abdome, bem sobre os pontos, para provar seu ponto. — Eu vou à frente dessa vez, tudo bem? Você vai cobrir a minha retaguarda, mas é só. Carlos vai cobrir a sua retaguarda.


— E de repente ele é confiável o bastante para você — Carlos desdenhou quando Dulce colocou suas luvas, cobrindo os curativos que ainda levava ao redor da palma direita com couro marrom de qualidade.


— Sim, ele é. Acho que ele provou que pode ter ímpetos de bravura quando quer. — Deu de ombros, oferecendo um par de luvas similar, porém de couro negro, para Christopher.


Ela se sentou na cama se casal para apertar os cadarços dos seus coturnos. Carlos surgiu sob a soleira, espiando diligente o cômodo antes que seu olhar repousasse em Christopher e Dulce, conferindo se ambos já estavam prontos.


— Está na hora — Anunciou soturno, e uma aura sobrecarregada de tensão assentou-se entre os três de repente, quase tão fria quanto a brisa contínua que soprava flocos de neve do lado de fora.


Dulce engoliu em seco, mas terminou por assentir. Pôs-se de pé e tentou esboçar um sorriso para os outros dois a fim de encorajá-los. Não pareceu surtir o efeito desejado, tampouco ela era capaz de amenizar os próprios receios. Mas não tinham escolha: ou se arriscavam naquela última jornada, ou poderiam perecer ali mesmo em Settsu. Encontrar o grupo de Santiago era a melhor chance que tinham de sobreviver a esse mundo insano.


Por isso, os três logo deixaram o cômodo, assim como a casa para trás. Agarraram-se aos seus casacos uma vez que pisaram na calçada semicongelada, coberta por uma tênue camada de gelo, e embarcaram no Nissan-leaf. Dulce ocupou o banco do motorista, Christopher o do carona, e Carlos se enfiou no banco traseiro.


A rua estava deserta, mas isso não trouxe o alívio esperado para nenhum deles. O céu estava cinza-gelo, tomado por nuvens densas. Nem sinal do sol ou de que a nevada daria uma trégua.


Dulce exalou uma suave fumaça branca no ar enregelante daquela manhã invernal. Fechou a porta do carro e girou a chave na ignição, dando a partida no motor. Olhou para os ponteiros do painel por precaução. Tinham combustível suficiente. Podiam conseguir.


Desviou o olhar para Christopher, acomodado no banco do carona ao seu lado, e assentiu para si mesma. Resvalou os olhos para o retrovisor e encontrou o semblante apreensivo de Carlos no espelho: A última esperança da humanidade.


Decidiu que eles tinham que conseguir. E, finalmente, manobrou o veículo para longe do meio-fio, em direção à rua atulhada de lixo. Dirigiu com mais cuidado do que o usual, ciente de que o mesmo gelo que cobria as calçadas também cobria as ruas de Settsu.


Os prédios pelos quais passavam, no cenário caótico que era o centro, suspiravam inquietos junto às rajadas de vento como fantasmas lamuriantes. Um ou outro morto se arrastava de algum beco fétido ou de um canto escuro, respondendo ao ronco baixo do Nissan-leaf que cruzava as ruas abandonadas da cidade.


— Santiago disse que nos encontraria na entrada da cidade — Christopher a lembrou, ou talvez tenha apenas comentado consigo mesmo, reafirmando o fato para lhe trazer conforto.


Dulce conteve o ímpeto de sorrir ante a empolgação tímida que ouvia no tom de voz dele. Christopher estava ansioso para rever o irmão, e por mais que tentasse disfarçar isso sob sua fachada séria, o êxito que obtinha nisso era praticamente nulo.


A animação pueril dele a fez ter vontade de rir. Tirou a mão do volante do carro para apertar a mão dele de forma rápida e asseguradora.


— Logo, logo você o verá outra vez — Prometeu solene e manobrou o Nissan-leaf por mais uma rua, desviando de outros veículos abandonados no meio da rua, de cadáveres frios ou do que restara deles. — E aí nós vamos poder relaxar um pouco.


— Eu só vou conseguir relaxar depois que estiver embarcado na porra do helicóptero a caminho de Kunashir. Sugiro que façam o mesmo — Carlos resmungou enquanto olhava pela janela para as criaturas que rastejavam pelas calçadas.


Dulce e Christopher se entreolharam, mas não disseram nada. De fato, mesmo que encontrassem o grupo de Santiago sem nenhum percalço, ainda tinham uma longa jornada pela frente até a salvação que lhes fora prometida: Uma ilha controlada por militares russos onde esperavam encontrar abrigo definitivo.


— Corte o papo de merda, Carlos — Dulce murmurou para quebrar a tensão que voltara a se assentar. — Estamos a um passo de sair desse inferno.


O biomédico estreitou os olhos e ajeito os óculos sobre o nariz, mas não disse mais nada. Voltou o olhar para a janela com uma expressão taciturna. Olhou para os esqueletos de alguns prédios que haviam sido consumidos num incêndio incontrolável e não tão recente, estavam pretos de fuligem. Corpos carbonizados ainda podiam ser vistos, estirados em frente às suas fachadas, ou ainda capazes de se mover de forma limitada como alguns poucos desgraçados.


Cada esquina parecia querer contar uma história diferente para eles, cada uma delas carregava um passado marcado por massacres e orgias canibalescas. Carlos decidiu que estava pouco interessado no que elas tinham a lhes dizer.


Desviou os olhos para longe no momento em que Dulce dobrava outra esquina, manobrando o Nissan-leaf em direção a uma avenida larga e clivosa; Estavam próximos da entrada da cidade.


Mas então ela freou o carro de forma tão abrupta que todos os três ocupantes ricochetearam nos seus assentos, contidos pelos cintos de segurança, os pneus cantando de forma abrupta no asfalto frio.


— Ah, merda! — Ela exclamou com os dedos rijos em torno do volante e com uma expressão embasbacada na face pálida.


— Que porra foi essa?! — Carlos se inclinou para frente para olhar pelo para-brisa e o que viu o deixou estupefato.


Christopher estava mudo e fuzilava o para-brisa, ou melhor, o que ele via pelo para-brisa, além dos flocos macios de neve que se chocavam contra o vidro-sujo. Carlos voltou a se recostar contra o banco traseiro, os ombros caídos.


— Merda, merda, merda! — Praguejou num eco da própria Dulce, que cerrava os dentes para não vocalizar mais xingamentos.


Os três olharam para a grande avenida, para os edifícios que a orlavam, e para muito mais além, cerca de quinhentos ou seiscentos metros adiante, para a mancha negra que se movia ao final da ladeira, viva e pulsante, como um tumor gigante. Vinham num passo trôpego porém contínuo, tomavam tudo, espalhando-se como uma doença.


Seu coro finalmente se fez audível, sobrepondo o assobio do vento; Era assustador. Soavam como um enxame de vespas furiosas, talvez estivessem mesmo famintas. Estavam maltrapilhos e encardidos, ostentavam olhos mucosos e opacos, e mandíbulas escancaradas com dentes podres e negros como lápides em um cemitério.


Eram centenas... Não, eram milhares de mortos-vivos marchando em suas direções. Cinco mil mortos-vivos sedentos por carne fresca. O exército do apocalipse, cantando num só coro e trazendo o arauto de morte e devastação por onde quer que passassem.


E acabavam de se interpor entre Christopher, Dulce e Carlos, e a única oportunidade que eles tinham de salvação.


Cinco mil mortos-vivos entre eles e o único acesso, fosse entrada ou saída, a Settsu. E consequentemente ao grupo de Santiago também.


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Autor(a): Dulce Coleções

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Comentários do Capítulo:

Comentários da Fanfic 349



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  • ana_vondy03 Postado em 24/02/2021 - 18:37:05

    Ah merda! Continuaaa amoreee S2

    • Dulce Coleções Postado em 24/02/2021 - 20:57:55

      Continuando amore

  • ana_vondy03 Postado em 20/02/2021 - 15:19:46

    Chorei, continuaaa amoreee S2

    • Dulce Coleções Postado em 22/02/2021 - 21:57:12

      Continuando

  • taianetcn1992 Postado em 20/02/2021 - 05:31:11

    continuaaaaa

    • Dulce Coleções Postado em 22/02/2021 - 21:56:41

      Continuando

  • taianetcn1992 Postado em 20/02/2021 - 05:30:59

    mais mais mais

    • Dulce Coleções Postado em 22/02/2021 - 21:54:49

      Continuando

  • taianetcn1992 Postado em 20/02/2021 - 05:27:37

    pelo amor de cristo, faz uma maratona de 4 capitulos

    • Dulce Coleções Postado em 22/02/2021 - 21:54:16

      Continuando

  • taianetcn1992 Postado em 20/02/2021 - 05:27:18

    ja quero mais como sempre

    • Dulce Coleções Postado em 22/02/2021 - 21:53:44

      Continuando

  • taianetcn1992 Postado em 20/02/2021 - 05:26:57

    ai meu coração, ansiosa por mais

    • Dulce Coleções Postado em 22/02/2021 - 21:53:19

      Continuando

  • ana_vondy03 Postado em 16/02/2021 - 20:25:52

    AAAAAAA MEU OLHO ATÉ LACRIMEJA!! CONTINUAAA AMOREEE S2

    • Dulce Coleções Postado em 20/02/2021 - 00:41:12

      Continuando amore

  • taianetcn1992 Postado em 16/02/2021 - 08:35:03

    ansiosaaaaaa

    • Dulce Coleções Postado em 20/02/2021 - 00:40:37

      Continuando amore

  • taianetcn1992 Postado em 16/02/2021 - 08:34:55

    ansiosa por esse reencontro, ja me arrepiei toda lendo esse cap, imagino lendo o que eles vao se reencontrar !!!!

    • Dulce Coleções Postado em 20/02/2021 - 00:39:57

      Só digo q será emocionante



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