Fanfic: Eu, Ela & Todos os Chichês do Mundo | Tema: the 100, Clexa, Humor, Romance, GirlsLove, Yuri, Shoujo-ai, Clarke Griffin, Lexa
Clarke encarou boquiaberta a misteriosa morena de belíssimos olhos verdes e lábios carnudos emoldurados por um rosto de feições delicadas e longas madeixas castanhas, que se espalhavam pelo piso de linóleo como se tivessem sido programadas para compor uma das visões mais sensuais que ela já vira na vida. Seu coração batia descompassado em seu peito, incapaz de negar que fora fisgado. No entanto, o breve minuto de deslumbramento foi interrompido pelo som de um gemido de dor, arrastando Clarke do mundo dos sonhos para a mais tortuosa realidade.
“Oh meu Deus. Você está bem?” Suas mãos agiram por conta própria, auxiliando a morena a sentar-se, tomando a liberdade de procurar por catombos na base do crânio da garota.
“Só...um pouco tonta, talvez?”
...adicione uma voz incrivelmente sexy, a descrição dela por gentileza. ‘Que merda. Definitivamente, estou perdida.’
“Tonta?” O tom de urgência de sua voz certamente alertou a morena.
“Não...quer dizer, sim, mas não é nada.”
“Tem certeza? Eu posso chamar os paramédicos...”
‘OS PARAMÉDICOS? Sério, Clarke? Cale a boca! Mas...Oh Deus, ela sorriu? Tudo bem...ela provavelmente acha que sou uma idiota retardada...pelo menos ela me apresentou a esse sorriso inesquecível.’
“Sem problemas, vou agendar a tomografia para amanhã...não se preocupe.” Ela fez menção de levantar.
Percebendo que sua posição ainda impedia que ambas se movessem, Clarke se colocou de pé prontamente auxiliando a jovem morena a fazer o mesmo.
“Eu realmente sinto muito. Juro que não costumo incorporar um trator humano com frequência. Geralmente é algo que faço em datas especiais...”
Mais uma vez o sorriso apareceu.
“Não esqueça de me enviar um memorando informando essas datas...Prefiro assistir a próxima performance à distância.”
Clarke tinha a certeza que estava aparecendo uma idiota, sorrindo feito uma palerma.
“Ah, pode ficar tranquila, repetir vítimas não é do meu feitio.” Ela estendeu a mão. “Meu nome é Clarke... a propósito... só para você saber a quem culpar por alguma possível concussão.”
A palma suave juntou-se a sua e dedos longos se fecharam ao redor de sua mão. Seu coração pulou.
“Lexa...”
“Lexa...” Clarke murmurou em seguida, ao mesmo tempo que seus olhares se encontraram. “Posso ajudar você com alguma coisa? Quer dizer, você ia...” Ela continuou gesticulando para dentro de sua sala.
“Oh. Sim... Anya. Eu procurava por Anya Grounder...” Lexa respondeu, inclinando a cabeça para o lado.
Clarke se aproximou um pouco dela. ‘Talvez a tontura tenha voltado.’
“...Você. Seu nome é Clarke?”
‘Maravilha, Clarke! Você causou um traumatismo craniano na única garota capaz de ‘fazer você andar nas nuvens’.’
Seus braços alcançam Lexa pelos ombros, a morena desviou o olhar para ela. Elas estavam muito próximas. Próximas demais. O ar começou a ficar pesado.
“Lexa?”
Lógico que Anya ia aparecer. ‘Mas que droga’, Clarke segurou a língua, quase dando voz aos seus pensamentos.
Lexa se afastou, se voltando para a direção onde Anya aparecera.
“Pensei que você já tinha ido.” Anya questionou se aproximando. Seus olhos puxados se estreitaram ainda mais, vagando entre Clarke e Lexa.
“Eu precisei ficar...” Lexa disse, chamando a atenção da mulher para si. “Por costume vim procurar você na sua antiga sala...”
“Oh...” Anya murmurou. “Bem, pelo menos você finalmente se apresentou a nossa mais nova Executiva Criativa.”
“Pode-se dizer que sim...” Lexa desviou o olhar para Clarke, que voltou a sentir suas bochechas corarem.
“Perfeito! Seria o cumulo se a nova responsável por todo marketing e blá, bla, blá da The Heda não fosse apresentada a presidente da empresa.”
Um balde d’água fria do tamanho do Everest desabou sobre Clarke.
“Presidente?”
‘P.Q.P’
“Clarke Griffin, conheça Alexandria Woods. A Ceo da The Heda.” Anya indicou com uma das mãos, gesticulando entre elas, com os lábios repuxados em um sorriso torto que mais lembrava um daqueles momentos onde o Grinch se preparava para destilar sua maldade sobre os pobres habitantes de Whoville.
“Muito prazer.” Lexa estendeu a mão com um meio sorriso.
‘Fuck my life...’, Clarke cantarolou mentalmente. ‘Eu tenho um mega crush pela minha chefe…’
Manhã de domingo – Quartel General da Família Griffin - Windsor Terrace, Brooklyn.
[10:25 AM]
Raven olhou de relance para Clarke, travando o queixo para conter uma gargalhada, se controlando para não sujar toda a superfície de mármore do balcão, enquanto continuava a acrescentar mais maionese a gigantesca vasilha cheia de salada de batatas e salsa picada.
Já havia se passado quase uma semana da noite em que Clarke chegara em casa completamente atordoada, com um saco recheado com Donuts em uma das mãos, uma pasta abarrotada de papeis na outra e um olhar de cachorro pidão. A princípio Raven correu na direção dela, verdadeiramente preocupada com sua amiga, mas logo após Clarke relatar o ocorrido – em detalhes – a jovem latina se jogou no chão gargalhando sem parar.
E tem sido assim desde então...
Clarke não podia negar que se fosse Raven em seu lugar ela provavelmente teria a mesma reação. Ao menos não houveram mais situações constrangedoras a serem acrescentadas ao pacote já vexaminoso... Clarke voltou ao trabalho no dia seguinte, desejando mais que nunca poder ficar invisível, somente para ser informada, logo na entrada por Octávia que Lexa havia viajado a negócios, só retornando a empresa na semana seguinte, postergando não somente suas reuniões com a diretoria, como também mais um possível vexame.
Ela quis soltar fogos de artificio, correndo feito uma maluca pelos corredores, mas acabou se contentando com ‘Muito Obrigada, Octávia. Remarque minhas reuniões com a senhorita Woods para outro dia e por gentileza, me mantenha informada sobre isso.’ Respirando aliviada.
Reencontrar Lexa sem ter o tempo hábil para se refazer não era uma opção. Na verdade, era frustrante não conseguir impedir seu coração de dançar um samba digno do carnaval Brasileiro, todas as vezes que imaginava estar diante daqueles olhos novamente. Principalmente porque deixar esse ‘samba crescer’ seria o cumulo da inconveniência.
Lexa... Não. Alexandria Woods era sua chefe. A presidente da empresa onde Clarke atingiria todos os seus sonhos. Definitivamente, seu coração precisava entender que as chances de atender as suas solicitações irracionais de jantar à luz de velas... passeios no Central Park... caminhar de mãos dadas...beijos roubados entre reuniões...PARE CLARKE.
Nada disso se concretizaria. Ponto.
“Sonhando com seu amor?”
Clarke sentiu uma coceira nas mãos, uma vontade insana de atirar a panela de macarrão – que fervia no fogão diante dela – na criatura irritante encostada no balcão, sorrindo maquiavelicamente em sua direção.
“Amor? Clarke? Filhote, será que você tem algo que queira compartilhar com seu paizão?”
‘Oh. Deus.’
Jake Griffin, não podia ter escolhido um momento mais apropriado para invadir a cozinha. ‘Se Raven for esperta é melhor ela não abrir a boca, até eu inventar uma boa desculpa’
Mas Raven não é esperta. Não nesses casos.
“Ohhhh Papa Griffin, Clarkey ainda não informou a família? Ela. Está. Apaixonadinha.”
Agora a panela vai voar.
“RAVEN!”
“Clarke, coloque essa a panela no lugar!”
A contragosto, Clarke baixou a panela novamente sobre o fogão. Há anos Jake não usava ‘aquele tom de voz’, o que deixava claro que independentemente de sua idade, ela estaria em maus lençóis se Raven desse entrada na emergência com uma bela queimadura de terceiro grau no meio da cara.
Mas então algo no rosto de seu pai chamou a atenção da loira. Ele parecia um tanto ansioso... um tantinho culpado...
“Bem... isso é interessante. Você devia ter dito antes...querida. Antes...de hoje!”
O-kay. Aquela não era a primeira vez que Clarke via aquela expressão suspeita no rosto de seu pai. Sentindo as engrenagens começarem a girar lentamente em seu cérebro, Clarke inclinou a cabeça para o lado deixando seus olhos vagarem pela provável ‘futura cena do crime’. Seus pais haviam desmarcado o jantar em família (que sempre incluía Raven) em prol de um churrasco (algo que sua mãe só planejava para receber novos vizinhos, ou parentes distantes nos feriados), e tanto ela quanto seu pai estavam inacreditavelmente sorridentes...e prestativos... e sua mãe havia comprado flores para um arranjo de mesa da sala...e se ofereceu para trançar seu cabelo.
“OH MEU DEUS, VOCÊS ME ARRUMARAM UM ENCONTRO AS CEGAS!” Ela gritou.
Isso não acontecia há alguns anos. Fato. Talvez por isso ela havia demorado tanto para enxergar os sinais do apocalipse. Aparentemente seus pais haviam aprendido a esconder melhor suas intenções nefastas.
“EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊS FIZERAM ISSO! DE NOVO!”
“Clarke, filhote...Ela é a sobrinha de um amigo...bem, não exatamente um amiiiiigo de longa data. Mas, ele é um amigo! Um novo amigo!”
“Não. Não. Não.” Sério? Agora eles estavam apelando para estranhos?
“Nós nos conhecemos recentemente. Naquelas aulas experimentais de culinária indiana há algumas semanas, lembra? E durante uma de nossas conversas eu mostrei uma foto nossa...”
‘Traduza-se: sua.’
“Oh meu Deus!!!” Clarke murmurou.
“...E ele me mostrou uma foto da sobrinha dele...E Clarke ela é linda, solteira e Lésbica!”
“O-kay. Eu vou embora. Agora. Tchau.” Ela havia deixado sua bolsa na sala ou no seu velho quarto?
“Por favor Filhote, dê uma chance a moça! Veja só, ela trabalha tanto quanto você! Se formou em Yale, primeira de sua turma! Superinteligente como você, hein?! E, ela cozinha muito bem! Diferente de você..." Clarke virou para encara-lo, fechando a cara, e seu pai acrescentou rapidamente. "...mas, isso não vem ao caso...lógico.”
Clarke revirou os olhos, marchando até a saída da cozinha. Quem precisa de uma bolsa estupida, quando se mantém o cartão de crédito no bolso de trás da calça. A-há! E sua mãe vivia dizendo que esse era um péssimo hábito.
Seu pai continuava a argumentar enquanto Raven se contorcia no chão, quase sem ar de tanto rir. Clarke já estava na no meio da sala de jantar quando a campainha tocou. Sua mãe passou feito um foguete por eles abrindo a porta no segundo seguinte, dando espaço para um homem gigantesco, vestido como alguém saído de um desses anúncios de moda, com calças caqui e camisa polo que certamente custaram muito mais que toda a carne comprada para o churrasco. Ele estava acompanhado de uma morena, também elegantemente vestida provavelmente por alguma marca caríssima, que sorria meio sem jeito segurando uma garrafa de vinho e olhando ao redor um tanto desconfiada. Seu rosto meigo ressaltava sua aparência frágil e o vestido azul royal de mangas curtas acentuava ainda mais essa imagem. Ela parecia uma bonequinha. O retrato da virtude e inocência... exibindo suas longas e pecaminosas pernas naquela peça de roupas de grife curtíssimas.
“Merda!” Clarke engoliu seco quase mordendo a língua, praguejando baixinho, imediatamente se atirando de volta à cozinha.
“PQP! Merda! Droga!” Os xingamentos continuaram com a loira pulando por todo lugar.
Curiosa, Raven caminhou até a entrada da cozinha espiando pela beirada da porta.
“Uau...Griffin... Ela é um docinho de gostosa. Belas pernas.”
“Hey. Essa pode ser minha futura nora, Pouca Sombra. Respeito.” Jake brincou, cutucando Raven.
Nenhum dos dois percebeu o desespero da loira, que tremia sacudindo um molho de chaves em uma das mãos resmungando baixinho.
“Merda. Merda. Qual é a chave da porta dos fundos?”
“Epa, espera aí, Griffin. Se acalma. A garota não é nada mal, porque você não dá uma chance ao acaso e...”
“Porque isso não é acaso, Raven! É carma! Aquela é a Lexa!” Clarke rosnou.
“O quê?” Raven engasgou.
“Lexa? Quem é Lexa?” Seu pai perguntou.
Pela primeira vez na vida, Raven estava muda, paralisada no lugar, completamente boquiaberta. Lógico que ela escolheria o momento em que Clarke mais necessitava dela para bancar a estátua perplexa.
“Lexa, papai!", Clarke rosnou entredentes. "Lexa! Alexandria Woods! A Lexa. A presidente da empresa onde trabalho ou em poucas palavras, minha chefe! Como diabos você e a mamãe conseguem me enfiar nessas situações está além da minha compreensão!” Ela continuou desesperada, se agarrando a camiseta de seu pai, sacudindo o homem pelos ombros. “E quer saber mais? Ela também foi a única mulher que em toda minha existência conseguiu fazer meu coração disparar! A única mulher na face da terra que eu não posso me envolver está parada nesse momento na nossa sala de estar porque vocês armaram para sua filhinha inocente um maldito encontro às cegas!”
Jake encarava sua filha com a mesma expressão de pânico que ela provavelmente exibia.
“Oops...” Foi o máximo da eloquência dada a situação.
“É! Um puta Oooops, pai! Agora. Me. Tira. Daqui.”
Infelizmente já era um pouco tarde para escapar. Abby invadiu a cozinha de braços dados com Lexa – que aparentemente tinha acabado de se dar conta no tipo de situação que seu tio a havia metido – já chamando por sua tão querida filha.
A cena era mais ou menos essa: Raven parada no meio do nada de olhos arregalados, Jake com uma expressão semelhante, de pé próximo a porta que levava ao quintal, e Clarke, ainda agarrada a camiseta de seu pai, rosto inacreditavelmente vermelho, expressão de derrota, encarando uma completamente surpreendida e confusa Lexa.
“Nós terminamos a salada, amor.” Seu pai gaguejou.
Clarke não se conteve e estapeou o próprio rosto.
[12:30]
Folie à deux, é o nome que se dá ao fenômeno onde dois indivíduos compartilham do mesmo estado alucinógeno. Popularmente conhecido como ‘Loucura Compartilhada’, esse transtorno pode apresentar quadros graves de distúrbios psicológicos e em certos casos atingir a todo um grupo familiar, gerando um quadro generalizado de ‘Transtorno psicótico compartilhado’ entre os membros de uma família, ou em bom francês, Folie en famille.
‘À Deux’ ou ‘En Famille’, Clarke não conseguia decidir qual quadro era o pior. Se o fato de Lexa não ter girado nos calcanhares – marchando em direção a porta no exato momento que a viu – significaria o princípio alucinógeno compartilhado entre ela e Lexa, sendo, nesse caso, a dita loucura simplesmente ignorar a óbvia armação orquestrada por seus familiares, ou se então, o fato dela estar sentada à mesa do quintal, parecendo genuinamente interessada em trocar receitas – muito sério isso...receitas – com sua mãe durante os últimos vinte minutos, a prova definitiva de que Lexa na verdade havia de fato abandonado a casa há horas, deixando um trauma tão profundo em todos os reles mortais presentes que por sua vez, passaram a alucinar em conjunto, forjando a sua presença entre eles em suas mentes insanas.
“Oh, Lexa querida, você precisa ensinar isso a Clarke! Ela insiste em usar esse molho pronto, e sinceramente já não tenho argumentos...Talvez você consiga convencer Clarke a se alimentar melhor.”
‘Como alguém pode ter tanto a dizer sobre uma simples lasanha, está além do meu intelecto’. Clarke suspirou, revirando os olhos.
“Senhora Griffin...”
“Abby. Lexa, eu já disse. Senhora Griffin é a minha sogra, por favor.” Sua mãe disse entre risadinhas! Aquelas risadinhas malucas onde o interlocutor por alguma razão desconhecida imagina ser seu melhor amigo e sente a necessidade de expressar isso tocando em você?!
‘Oh céus!’
“Certo. Abby. Bem, eu posso, de repente, enviar por meu tio uma amostra? Copiar uma receita geralmente fica mais fácil depois de uma degustação...” Lexa respondeu um tanto incerta com um meio sorriso, fazendo os olhos de sua mãe brilharem feito um daqueles letreiros luminosos de neon bem extravagantes da Broadway.
“Isso seria maravilhoso, querida! Mas, não incomode seu tio! Você pode entregar diretamente a Clarke! É uma coincidência vocês trabalharem juntas, não é mesmo? É quase como se fosse o destino!”
‘Oh Deus...’ Clarke virou a cerveja goela a baixo de uma vez. ‘Eu preciso de algo mais forte’.
Transtorno alucinógeno ou não, assistir as interações entre Lexa e sua mãe estavam fazendo seu coração palpitar de um jeito diferente. Tão diferente que ela não sabia como classificar. Uma vontade estranha de transformar aquela cena em algo constante invadiu sua mente, e ela se pegou desejando que aquilo perdurasse por toda vida, e aquela fizesse parte do seu cotidiano, um algo sempre presente em seus dias e de seus finais de semana em família.
“É a sexta cerveja que você engole... Daqui a pouco vou precisar tirar sua cara do vaso sanitário, Griffin...”
Clarke girou nos calcanhares, ainda muito sóbria para dar ouvidos a Raven.
“Eu não sei se estou bebendo porque esse é certamente o momento mais embaraçoso da minha vida, ou porque esse certamente tem o enorme potencial de se tornar o momento mais embaraçoso da minha vida...”
“Sério? Eu achei que depois da cena na cozinha vocês já houvessem superado essa fase...Quer dizer, o titio Gustus tem tanta culpa no cartório quanto papai e mamãe Griffin...E além disso, Lexa até parece estar se divertindo...”
Clarke desviou o olhar para onde seu pai e o ‘titio’ Gustus estavam conversando animadamente junto a churrasqueira, enquanto misturavam ingredientes para um ‘molho barbecue especial’. Sua mãe e Lexa ainda trocavam receitas, agora de alguma torta doce. Lexa havia se oferecido para ajudar a organizar a mesa para o almoço, e apesar os esforços de sua mãe em persuadi-la ao contrário, a morena vencera a batalha. As duas seguiam para lá e para cá, da cozinha para o quintal, com pratos, talheres e vasilhas com comida. Abby definitivamente estava encantada com Lexa... Clarke tinha certeza absoluta que sua mãe não a deixaria viver mais um dia sequer sem lembra-la o quanto Lexa era sua nora dos sonhos...
‘Se ela soubesse...’
Não. Sua mãe definitivamente não sabia de sua indubitável paixão por sua chefe. Na verdade, a única informação até agora divulgada para a patrulha mãe havia sido exatamente essa: Olha só, mais que mundo pequeno, mamãe! Lexa é a minha chefe.
Ou algo desse tipo...
‘Há algumas horas na cozinha...
“Passados alguns infinitos segundos, onde Clarke quase se perdeu na intensidade do verde do olhar da morena – visivelmente surpresa – diante dela, sua mãe resolveu falar.
‘Clarke? Eu gostaria de apresentar...’
‘Olá senhorita Woods...’ Clarke engoliu o pânico, conseguindo manter a voz firme e estendendo a mão formalmente.
Lexa piscou algumas vezes, mas repetiu o gesto estendendo a mão.
‘Por favor, Clarke, não há necessidade para formalidades. Só Lexa, por favor.’
Abby encarou as duas garotas boquiaberta.
‘Vocês já se conhecem?’
Então, Clarke se voltou para sua mãe com um sorriso que dizia claramente ‘eu e você temos muito a discutir depois disso’. Sua mãe engasgou e Clarke sorriu ainda mais. Ótimo. Ela havia entendido a mensagem per-fe-i-ta-men-te.
‘Mamãe, conheça Alexandria Woods, presidente da The Heda. Minha chefe.’”
Raven esticou a mão, tomando a cerveja de Clarke. A loira fechou a cara.
“Você vai me agradecer no final do dia. Pode acreditar.”
Ela duvidou. Depois de uma cilada como essa, era difícil imagina-se sendo capaz de expressar alguma forma de agradecimento. Mesmo assim, Clarke decidiu consentir, abrindo mão de sua cerveja. Encher a cara na presença de sua chefe, tendo em vista as circunstancias realmente não era uma boa ideia. Além disso, a quantidade de álcool circulando em suas veias já havia conseguido deixa-la mais relaxada. Algo bastante útil, pois, Lexa parecia ter, finalmente, desgrudado de sua mãe e caminhava em sua direção.
“Clarke?”
Clarke forçou seus olhos a desviarem dos lábios de Lexa. A maneira como ela pronunciava seu nome, estalando a língua no céu da boca, para enfatizar o som da letra K, fazia seu corpo vibrar.
“Porque eu tenho a impressão de que esse momento vai se transformar em algo ainda mais embaraçoso durante as festas de confraternização da empresa?”
Com um meio sorriso, Lexa inclinou a cabeça para o lado. “Talvez, porque isso provavelmente vai acontecer?”
Ao notar Clarke estreitar os olhos, Lexa deu de ombros.
“Não se apresse em me culpar.” Ela apontou para seu Tio. “Gustus Woods é o contador de histórias da família.”
“Desculpe por isso...” A loira suspirou desolada.
“Não se preocupe, Clarke. Pelo que sei, nós fomos vítimas de familiares extremamente amorosos e excessivamente preocupados com nossa vida social... ou aparentemente, com a ausência dela.”
Por que ela tinha esse sorriso enigmático, que mesmo tão singelo e tão contido, era capaz de fazer surgir um brilho travesso em seu olhar?
“Pode dizer, Lexa. Um bando de enxeridos.” Clarke retorquiu cruzando os braços –provavelmente fazendo biquinho, porque isso fazia parte da sua ‘Expressão Indignada Level One’ – e Lexa cobriu os lábios com uma das mãos, obviamente tentando esconder o sorriso.
“Eu obviamente não quis dizer tal coisa, Klark.”
Clarke estreitou os olhos para o brilho astuto colorindo olhar dela. Oh, ela definitivamente quis.
“Ah, então você é a Clarke Griffin! Já ouvi falar muito bem de você, sabia?”
Surpreendendo as garotas, o tio Gustus aparece do nada, jogando um dos braços gigantescos sobre os ombros de sua sobrinha. A expressão de surpresa estampada no rosto da loira, fez o homem gargalhar.
“Sua reputação a precede, Clarkey. E parece que sua imitação de um trator também é muito boa!”
Raven estava certa, ela havia salvado o dia livrando suas mãos da garrafa de cerveja, porque depois desse comentário, Clarke teria enfiado o rosto entre as mãos mesmo se o casco ainda estivesse seguro entre seus dedos.
“Oh Deus!” Clarke gemeu envergonhada.
“Augustus Rodolph Woods! Comportem-se.” A morena ralhou, franzindo o cenho. O que possivelmente só incitou o homem a rir mais.
“Anya disse que você quase passou por cima da nossa pequena Heda.” E cutucando as costelas de Lexa, continuou. “Ela ficou tão atordoada que nem ao menos soube explicar como aconteceu!”
“Tio!” Lexa exclamou. Sua voz atingindo um tom mais agudo.
Clarke sentiu os cantos de seus lábios se repuxarem. Ela tentou conter o riso, mas falhou. A expressão mortificada no rosto de Lexa só era superada pelo leve rubor em suas faces. As seis latinhas de cerveja correndo em suas veias também não colaboram e no segundo seguinte, Clarke se juntava a Gustus, rindo compulsivamente com os olhos já lacrimejando. Lexa cruzou os braços diante do corpo, bufando alto e revirando os olhos.
“Ótimo. Agora temos duas histórias constrangedoras disputando o Top 10 nas festas de fim de ano. E ainda estamos em junho! Se continuarmos nesse ritmo, vamos estabelecer um novo recorde.”
Golpe baixo. Clarke engoliu a risada.
“Não é justo.” A loira reclamou fazendo biquinho.
“Você tem razão, Clarke. Minha sobrinha consegue estragar a diversão...” Tio Gustus abraçou Clarke pelos ombros. “Talvez você possa ensiná-la a relaxar.”
Imediatamente uma sequência de cenas com demonstrações de suas técnicas de relaxamento preferidas começaram a pipocar na mente levemente inebriada de Clarke. Nenhuma delas fazia alusão a certamente ingênua abordagem sugerida pelo Tio da morena.
A Loira engasgou começando a tossir compulsivamente.
“Desculpe, Clarke, às vezes esqueço que mais pareço um gigante!” Tio Gustus se afastou, dando umas batidinhas de leve nas costas de Clarke, provavelmente pensando que a força de seu abraço havia dado início à crise de tosse.
Lexa estapeou as mãos de seu tio para longe das costas de Clarke, assumindo a função de tentar aliviar a crise de tosse da loira.
“Do mesmo jeito que esquece da existência de algo bem comum durante as interações sociais mundialmente conhecido como espaço pessoal. Eu sinto muito, Clarke. Meu tio insiste em confundir aperto de mão com estrangulamento.”
As mãos da morena percorreram gentilmente as costas da garota, pressionando delicadamente seu dorso.
Ao lado da morena, Gustus ergueu as sobrancelhas, abrindo e fechando a boca, certamente decidindo se era melhor comentar a quase inexistente distância entre sua sobrinha e Clarke. Algo que a loira também havia percebido.
‘E o espaço pessoal? Foi para o espaço, Lexa?’ Clarke pensou, tentando controlar sua respiração. As mãos de Lexa não estavam ajudando em nada a sanar sua tosse. Na verdade, a sensação dos dedos dela deslizando sobre o tecido de sua camiseta, causava arrepios por todo seu corpo. Uma vontade quase incontrolável de girar nos calcanhares e envolver Lexa em seu abraço para nunca mais deixa-la sair seguia em ondas até seu cérebro, disparando choques por todo seu sistema nervoso.
‘Droga...’
Clarke se afastou.
“Tudo bem. Só preciso de um pouco de ar... Com licença, por favor.”
Sim, ela fugiu.
Caminhando à passos largos, cruzando o quintal em segundos, invadindo a cozinha. Clarke subiu as escadas num piscar de olhos, se fechando em seu velho quarto. Seu refúgio. Ela ofegava. Suas mãos tremiam um pouco. Como Lexa conseguia reduzi-la àquela massa de emoções descoordenadas? Clarke nunca sentiu algo tão poderoso, parecia que ela estava sendo consumida por um maremoto de sentimentos inexplicáveis, completamente incapaz de se controlar, constantemente tropeçando em si mesma feito uma adolescente imatura.
“Griffin?”
“Agora não, Raven.”
Clarke enfiou o rosto no travesseiro. Não demorou muito e ela sentiu o colchão afundar levemente ao seu lado.
“Pensei ter dito não, Raven...”
“Desde quando faço o que você manda?” Clarke não respondeu, só continuou a fingir que não estava chorando, escondendo o rosto no travesseiro. Raven a observou por um momento e suspirou. “Tudo bem, já deu para perceber que essa Lexa é algo sério. Então...o que vamos fazer a respeito? ”
Clarke riu em meios as lágrimas, finalmente deixando o travesseiro de lado e sentando-se na cama para abraçar sua amiga.
“Oh, tudo bem, Clarkey. Ia acontecer um dia, não é mesmo? Na verdade, já estava mais do que na hora...”
Raven não era exatamente a melhor referência quando o assunto era ‘consolar alguém’. Sua amiga nunca sabia o que dizer, e eventualmente acabava ou se restringindo a poucas palavras, ou a tentar quebrar o gelo com uma piada.
“Nada disso importa, Rae. Ela é minha chefe, ponto final.” Disse a loira, finalmente se afastando, enxugando as lágrimas do rosto.
“Clarke...”
“Ponto final, Rae. Lexa está fora dos limites.”
Raven mordeu o lábio, obviamente engolindo um belo discurso sobre como Clarke não deveria se privar de sentir, pela primeira vez em toda a vida, algo claramente tão forte por alguém. Afinal, sua melhor amiga sabia muito bem, o quanto ela era na verdade uma romântica incurável que sempre sonhou encontrar sua outra metade.
“Okay, Loira. No seu tempo...”
Decidindo não arriscar o restante de sua sanidade mental, caso Raven não conseguisse controlar a boca por mais tempo, Clarke se levantou, seguindo até o banheiro para limpar o rosto.
Elas desceram depois de alguns minutos. O suficiente para inventarem uma desculpa convincente o bastante para encobrir a fuga de Clarke. Um esforço que se demonstrou desnecessário no exato momento em que as garotas apareceram no quintal.
Sua mãe parecia desconsolada sentada em um dos cantos da mesa. As duas garotas olharam ao redor e não demoraram a constatar o que havia acontecido.
Lexa havia ido embora.
Clarke sentiu sua amiga colocar a mão em sua cintura, provavelmente para dar-lhe um suporte maior, mas já era tarde, seu coração já havia afundado em seu peito se partindo aos pedaços.
...
The Heda – Quarta-Feira, Final da Tarde.
Lexa engoliu seco, sentindo seus olhos arderem. Clarke tinha acabado de deixar a sala de reuniões seguida por sua assistente e suas atitudes durante toda a tarde só confirmavam as não tão recentes suspeitas da morena. Clarke a estava ignorando. Quer dizer, ela estava cumprindo todos seus compromissos profissionais de maneira impecável, dirigindo todo o departamento de marketing com um primor nunca visto antes, mas Lexa não conseguia impedir seu coração de se contorcer em seu peito ao vê-la se distanciar mais e mais a cada dia.
Bem, talvez analisar a situação por esse ângulo fosse um exagero, considerando que elas nunca foram realmente próximas. Malmente conhecidas, se fossemos escrutinar o caso, afinal, desde a primeira vez em que se encontraram, ambas só voltaram a se falar durante o 'pseudo encontro às escuras' armado por seus familiares. Mesmo assim, algo dentro de Lexa exigia ser mais que um simples rosto na multidão perante os olhos de Clarke Griffin, e a angustia corroendo seus pensamentos só aumentava visto a insistência da loira de trata-la com indiferença.
Evidentemente Lexa estava ciente ter uma enorme parcela de culpa nisso tudo. Abandonar subitamente o almoço na casa dos Griffin no domingo passado, certamente não havia enviado uma boa mensagem. Sinceramente, ela se arrependeu de sua decisão no mesmo instante que comunicou a Abby Griffin sobre sua partida.
‘Um assunto importante surgiu, Abby. Infelizmente, preciso ir. Por favor, deixe meus cumprimentos e sinceras desculpas a Clarke e sua amiga.’
Talvez, só talvez, Lexa tenha agido impulsionada por uma súbita e injustificável crise de ciúmes ao ver Raven ir atrás de Clarke no momento em que a garota a abandonou no meio do quintal sem nem ao menos um 'volto logo'. E também, talvez, só talvez, ela tenha decidido ir embora logo após ter surtado internamente, justamente, porque nada lhe dava o direito de sentir-se daquela maneira.
Uma situação extremamente frustrante, fundamentada em sentimentos insólitos. A receita para o desastre. Essa inesperada atração por Clarke estava disparando uma sequência incontrolável de acontecimentos, desordenando a pacata rotina da jovem CEO. E infelizmente, apesar de desejar com todas suas forças, ser capaz de impedir tais sentimentos de firmarem alicerces junto ao âmago de seu ser, Clarke Griffin havia se revelado tão absoluta quanto os mais devastadores fenômenos já vistos pela humanidade. Sua simples presença conseguia derrubar todas as barreiras atordoando todos os sentidos de Lexa. Algo que ficou bastante obvio depois do incidente da segunda-feira. Um incidente que ficou conhecido pelos corredores como o ‘outro atropelamento’, onde Clarke novamente colidiu de frente com Lexa, logo na saída de sua sala caindo mais uma vez por cima na morena no meio do corredor, dessa vez, tendo praticamente toda a empresa como plateia.
“Segunda-Feira – Final da Manhã
Pastas e papeis voaram pelos ares no momento em que Clarke e Lexa se esbarraram.
‘Oh, Deus!’ Lexa exclamou, sentindo o ar escapar de seus pulmões quando seu corpo se chocou contra o chão sustentando o corpo de Clarke sobre o seu.
Não foi um Deja Vu, foi exatamente um momento ‘control C - control V’, com o adicional de um público cativo, diga-se de passagem, completamente escandalizado.
Lexa estava no chão, mais uma vez sentindo a respiração de Clarke junto ao seu pescoço, e como da primeira vez, seu corpo estremeceu involuntariamente, ao mesmo tempo que seu coração quicava contra suas costelas. Clarke sussurrou ‘Mil perdões...’, ainda compreensivelmente atordoada, repetindo as mesmas palavras ditas em seu primeiro 'esbarrão' há duas semanas.
'É impressão minha ou você está planejando transformar isso em algo frequente?' A morena sussurrou de volta, ainda sem folego, próximo ao ouvido dela. Todo seu bom senso definitivamente havia voado pela janela.
Então algo mudou. O corpo sobre o seu enrijeceu. No instante seguinte, Clarke estava apoiada em seus braços com o rosto pairando a centímetros do dela. Lexa perdeu o pouco folego que lhe restava, afundando completamente nas irises azuladas diante de seus olhos. Seus corpos estavam tão firmemente pressionados um no outro que ela era capaz de jurar que Clarke podia sentir o seu coração acelerando ainda mais, e, por um segundo, ela pensou ter visto aqueles olhos azuis traçarem o caminho por seu rosto até se fixarem em sua boca. Involuntariamente, ela umedeceu os lábios deixando sua mente divagar, enquanto seus olhos memorizavam a forma e contorno dos lábios da loira. Até que...de repente, Clarke se afastou.
No momento em que o peso do corpo dela desapareceu, Lexa sentiu como se o mundo tivesse voltado a girar de uma vez levando algo importante embora. Mas só quando a voz dela a alcançou, ela percebeu que estava perdida, porque não foi exatamente aquele tom de voz tom capaz de confundir seus sentidos que chegou aos seus ouvidos.
'Desculpe, senhorita Woods.' Ela testemunhou os olhos azuis perderem o brilho e o semblante doce esvanecer das feições angelicais. Lexa sentiu uma pontada em seu coração. E como dizem, só então a 'ficha caiu': Ela estava perdidamente enamorada por sua Diretora Executiva de Marketing."
Depois de tudo, Clarke se oferecera para ajudá-la a levantar, mas deste momento em diante a loira só lhe dirigia a palavra durante as reuniões, as quais sua presença era indispensável, ou então, com meros cumprimentos pelos corredores, como; ‘bom dia, boa tarde, boa noite, senhorita Woods’.
Ela estava começando a odiar seu sobrenome.
Lexa travou o queixo irritada consigo e com sua incapacidade de lidar com a situação. Girando a ponta do belíssimo e pontiagudo abridor de cartas que tinha em mãos sobre a superfície escandalosamente lustrosa de sua caríssima mesa de mogno, ela ponderou suas atitudes desde o primeiro instante que seus olhos imergiram na imensidão azul celestial do olhar de seu atual tormento.
Não era fácil admitir. Principalmente porque Alexandria Woods era internacionalmente conhecida por sua teimosia, entretanto, nem mesmo o lado mais lógico do seu cérebro negava a veracidade dos fatos expostos diante de si.
Clarke fazia seu coração bater fora do compasso;
Clarke podia parar o tempo com um sorriso;
Clarke conseguia ser a única presença existente em uma sala lotada;
Clarke era capaz de esvaziar sua mente com um simples olhar;
Clarke era um vírus, se espalhando por seu sistema, inebriando sua mente e corpo.
Conclusão? A definição ‘enamorada’ chegava a ser uma sutileza.
O que só aumentava a frustração da morena, porque agora Clarke agia feito um robô em sua presença e a evitava pelos corredores a todo custo.
'Por que sua família tinha que ter essa mania terrível de se meter em sua vida pessoal? Se seu tio não tivesse se intrometido, ela não teria surtado e Clarke não estaria agindo daquele jeito.'
Estava se tornando cada vez mais difícil fugir das inúmeras tentativas de seus familiares de bancarem os cupidos... Ultimamente até mesmo Titus - seu antigo tutor, e grande amigo da família, - havia se aliado a seu tio Gustus e comparsas. Se seu pai estivesse vivo, provavelmente estaria gargalhando até chorar (Alexandre Woods conseguia ter um senso de humor ainda mais peculiar do que seu irmão). Pelo menos sua mãe ainda era mais discreta em formular suas artimanhas, algo que certamente a traria ainda mais preocupações se sua irmã caçula não tivesse decidido ajudá-la. Ontari, podia ser uma fedelha irritante na grande maioria do tempo, mas Lexa não podia negar que ela era a única pessoa no planeta capaz de desvendar os segredos de Becca Woods em um piscar de olhos. Embora ela provavelmente só tivesse resolvido aliar-se a sua irmã mais velha para conseguir um estágio na empresa durante as férias da universidade, somente para se aproximar de um dos rapazes do setor de compras, um tal de Jonh Murphy.
Há anos Lexa se esquivava dessas armadilhas. Jantares, onde de repente surgiam convidadas inesperadas de olhares carentes e esperançosos, ou convites para finais de semana em praias paradisíacas, cortesias para shows e musicais que se materializavam do nada sobre diante de seus olhos. Embora a intenção geral por detrás dessas atitudes fossem justificadas pelo mais sincero desejo de sua família de vê-la feliz, os resultados nunca foram os melhores.
Conclusão: Inúmeras tentativas tão minuciosamente planejadas, superadas pelo acaso. Ao que parece, o destino havia se provado mais esperto que todos eles.
‘Droga. Agora aqui estou, perdida em meio a uma bagunça digna de uma comédia romântica...e eu odeio comédias românticas.’
Clarke continuaria fugindo dela e não havia nada que pudesse ser feito para remediar a situação, sem chateá-la ainda mais.
Lexa bateu com a cabeça na mesa. Mogno. ‘Droga’. Péssima ideia. Mogno é duro. Muito duro.
“Wow... Isso vai virar um belo de um catombo, Heda.” A voz de Anya surgiu do nada, trazendo Lexa de volta a realidade.
“Quando vocês vão decidir esquecer esse apelido idiota?” Ela respondeu fechando a cara, cobrindo a mancha vermelhar em sua testa com uma das mãos.
Anya atravessou a sala com um sorriso maquiavélico adornando suas feições geralmente estoicas.
“Deixa eu pensar? Nunca? Fica meio difícil, já que é o nome da sua empresa, sabe?”
Lexa suspirou, se levantando devagar da poltrona.
“Do meu pai... essa empresa é do meu pai, Anya.”
“Desculpe, minha prima, mas como Tio Alexander diria, ‘Esse Woods já deixou o prédio há alguns anos, pequena’ a empresa é sua, Leksa.”
“Sua sensibilidade em discutir a morte de meu pai é tocante.” A jovem morena revirou os olhos, caminhando lentamente até o pequeno bar montado em um dos cantos da sala. 'Gelo', ela pensou. 'Alguns cubos de gelo e minha cabeça irá parar de latejar.'
Anya bufou alto. “Ele provavelmente daria uma boa gargalhada se pudesse, você sabe disso.”
Isso é verdade. Lexa tinha que admitir. 'Oh, Deus, seu pai fazia falta.'
"Ao que devo o prazer de sua visita, Anya?"
"Sabe, Lexa, a ironia nunca foi o seu forte...pelo menos não quando essa ironia é dirigida a minha pessoa."
Lexa revirou os olhos, arrumando um bom bocado de gelo sobre um lenço.
"Okay, Heda. Sem enrolações. Azgeda retirou o investimento para o próximo trimestre e, embora meu maior desejo seja esgoelar minha querida mãe, meu adorável meio irmão acabou me convencendo que passar o resto da minha vida em uma prisão não seria tão interessante quanto 'Orange Is The New Black' nos faz pensar ser."
Atirando sua trouxinha de gelo no cesto de lixo, a jovem presidente da The Heda sentou-se novamente em sua poltrona, respirando fundo e contando até dez. Sua querida tia, como sempre, se demonstrava mais que eficiente em dificultar sua vida.
Reza a lenda que Nia Woods costumava ser uma boa pessoa. Filha única dentre uma família de três irmãos, e a primeira menina nascia no clã dos Woods em três gerações, Nia foi obviamente mimada desde o primeiro ultrassom que validou a existência de seu sistema reprodutor feminino. Não era preciso ser um gênio para desconfiar que tanta atenção e cuidados acabaria por transformar a doce menina em uma garota de carácter egocêntrico. Mas, seus pais e família sempre conseguiram contornar seu gênio, e a jovem Nia aparentemente ainda não havia se tornado a intragável megera dos dias de hoje. Porém a grande surpresa só veio quando sua tia se encontrava no segundo ano da universidade. Contrariando todas as expectativas, ela acabou se apaixonando por um jovem rapaz de família humilde, um bolsista que trabalhava como garçom em um dos restaurantes do campus para ajudar a pagar sua bolsa de estudos. Foi uma bela história de amor, enquanto durou... Infelizmente, após oito anos de pura felicidade, Tristan Grounder faleceu vítima fatal de um acidente de carro. Sua tia perdeu toda sua doçura naquele dia, se metamorfoseando em uma criatura fria e sem alma. Ela e Anya mal se suportavam, e quando sua mãe se casou novamente, Anya saiu de casa. As duas mantem um relacionamento estritamente profissional, já que Nia G. Azgeda é a CEO de da Azgeda Co., uma das corporações, que até então, financiava uma grande parte de um dos projetos literários de apoio a novos autores da The Heda.
"Roan confirmou a decisão de Nia baseada no que exatamente?" Lexa tentou se concentrar no problema, ao invés da mega crise de enxaqueca emergindo por detrás de seus olhos.
"Segundo meu inepto meio irmão, alguns dos investimentos realizados em um de seus projetos em Londres foi um fracasso. Eles estão se fechando para contra-atacar no mercado Australiano, mas para isso precisam reduzir os custos."
"E lógico, cortar o apoio a projetos em editoras parceiras..." Lexa concluiu.
Anya respirou fundo, puxando uma das cadeiras, sentando-se perto de sua prima.
"Lexa, nós ainda podemos prospectar um novo investidor, mas para isso você vai precisar voltar a campo."
"Eu imaginei... Quem você tem em mente?"
Anya mordeu o lábio e Lexa escondeu o rosto com as mãos... ela já sabia.
"Luna Hilkerboat." Anya concluiu secamente.
Lexa quase bateu com a cabeça na mesa novamente. O dia não poderia ser pior.
...
[23:40]
Clarke suspirou se contorcendo na poltrona, estalando as costas, depois o pescoço. Todos os relatórios de todos os setores do marketing e publicações estavam espalhados sobre sua mesa. Como Anya conseguia dar conta de todo esse trabalho e mais suas funções na diretoria, era algo que a loira desejava ser capaz de descobrir.
Fechando os olhos por alguns momentos, a jovem executiva encostou a cabeça sob a superfície de madeira, absorvendo o cheiro de mogno e papel. Quantos cafés Octávia havia comprado hoje? Seis. Haviam seis copinhos no lixeiro debaixo da mesa. Clarke suspirou. Ela tomaria mais um café. Um cappuccino. Com chocolate. E creme. Muito creme.
"Não me diga que você é daquelas que vira a noite no trabalho, Griffin."
Clarke quase caiu da cadeira.
"Calma, garota." Anya se aproxima da mesa, observando um dos relatórios. "Esse material só precisa estar pronto para daqui há duas semanas, Clarke." Ela continuou franzindo o cenho.
"Eu estava adiantando algumas coisas..." A loira deu de ombros.
Anya a encarou por alguns instantes.
"Oh-kay. Entendi. Workaholic. Não que algumas empresas não matassem por alguém com esse perfil, mas eu, especificamente, acredito em uma rotina saudável de trabalho. Então, se você vai pernoitar aqui dentro que seja por um bom motivo...Como livrar sua agenda do resto da semana para sua viagem, por exemplo."
Clarke arregalou os olhos.
"Como? Que viagem?" Ela puxou uma agenda por dentre uma das pilhas de relatórios. "Não tenho nenhuma viagem..."
"Oh, é isso. É algo emergencial. Um arranjo de última hora. Na verdade, você irá em meu lugar em um dos eventos de um de nossos maiores patrocinadores. Apronte as malas, Griffin! Você embarca para Las Vegas amanhã à noite!"
Autor(a): danaandme
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