Fanfics Brasil - Capítulo 1 Pecados Capitais

Fanfic: Pecados Capitais | Tema: Vondy


Capítulo: Capítulo 1

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— Num ano atípico como este, aliás os últimos anos todos têm sido atípicos, eu sugiro o velho e bom CDB. É sempre bomnão arriscar. Mas, como gerente, tenho que pensar na cliente. Quanto é que a senhora quer aplicar?


A velhinha sorriu, sabia que estava em boas mãos. O gerente, com aquela gravata vermelha listradinha, passava segurança.


— Duzentos.


— Duzentos mil?


— Duzentos reais.


Christopher teve que manter a mesma bancária cara. Duzentos reais! Passou uns papéis para ela preencher.


Pela lentidão que ela demonstrou ao iniciar a primeira linha, ele pediu licença e foi até a mesa do sub, seu amigo de infância,Virgílio.


Christopher tem 45 anos e vem contando, já há algum tempo, quantos anos faltam para se aposentar. Altura mediana, como convém a um gerente de banco, magro, aparenta menos do que a idade. Camisa branca, a gravata vermelha, calça preta comvinco. Sapato engraxado, fumante inveterado, o que faz com que, de meia em meia hora, vá ao banheiro do andar de cima (mais arejado) dar suas tragadas. Nariz aquilino, como diria Machado de Assis.


Virgílio, mesma idade do amigo, é gay. Melhor dizer homossexual. Poeta inédito, leitor compulsivo, intelectual.


Discretíssimo dentro e fora do banco. Quando bebe dá alguma bandeira. Bebe todo dia, depois de largar o expediente. Era vizinho de Christopher no interior do estado de São Paulo. Foram com vinte anos para a capital. 1980. Fizeram economia juntos na USP. Ainda durante o curso, prestaram concurso para o Banco do Brasil. Entraram como "auxiliar de escrita, referência 050", fizeram carreira. Agora estavam os dois ali. Gerente e subgerente de uma agência pequena, dentro de um shopping. Não podiam reclamar, tinham comprado a casa própria (cada um a sua, bem entendido), financiada pelo próprio banco. Viviam e esperavam a aposentadoria sentados diante dos computadores. Inseparáveis. Que fique claro que a amizade deles não envolvia sexo. Um respeitava e entendia o outro. O nariz de Virgílio não era aquilino. Christopher era casado. Virgílio, solteiro, espírita, metido a ter premonições que nunca davam certo.


A mulher de Christopher é a Gemma, com dois emes, como ela sempre exigia para não parecer com um mero ovo choco. Odiava gemadas. Mas amava voleibol. Assistia a todos os jogos pela televisão. Masculino e feminino. No jornal, só lia, na seção de esportes, notícias sobre vôlei. Gemma jogava vôlei, quando conheceu Christopher em 1981, numa churrascaria em Santo André.


Era reserva da seleção brasileira que tinha acabado de vencer naquele dia o Sul-Americano, quebrando uma hegemonia de onze anos da equipe peruana. Você só estava na seleção porque a Isabel e a Jackeline se recusaram a disputar o campeonato porque eram contra patrocínio na camisa", jogaria várias vezes na cara dela o Christopher, anos depois, sempre que brigavam e ela batia nele com a palma da mão de trinta centímetros, um metro e oitenta e dois e, cada vez, menos magra. Hoje usa cabelo curto, tipo escovinha, com laquê, todo espetado, duro mesmo. Numa olimpíada poderia ser confundida com um levantador de pesos. Búlgaro.


Mas, naquele dia, sua altura era perfeitamente proporcional com o corpo. Perfeita. A seleção comemorava o título e Gemma estava triste, cabeça baixa. Tinha entrado duas vezes durante a partida, em momentos decisivos, apenas para dar seu saque mortal. Errou os dois.


Mas sorriu quando recebeu um bilhetinho trazido pelo garçom:


— Gemma, o saque não é tão importante assim. O que importa é o depósito! Sorria... Christopher.


Ela esticou o pescoço como um periscópio e deu de cara com Christopher e Virgílio, duas mesas ao lado. Christopher deu umtchauzinho. Ela engasgou com a picanha. Seis meses depois, aos vinte anos, Gemma abandonava, de véu e grinalda, seupromissor futuro na seleção brasileira, para se dedicar de corpo e alma aos depósitos de Christopher.


Agora, 25 anos depois, Christopher consegue, finalmente, fazer a aplicação da velhinha. Ela fica felicíssima, agradece várias vezes ao gerente e vai embora bengalando. O computador apita. E-mail. Christopher abre, lê. Fica lívido e pasmo, como diria Eça.


Virgílio percebe, vai até a mesa dele. E lê.


— Fodeu!


Naquele dia, na churrascaria, Christopher também estava triste, muito triste. Sua amada, sua paixão havia anos, Dulce, com dezoito anos, tinha ganhado uma bolsa para estudar bale em Paris. Dulce havia prometido que iria ficar apenas um ano. Nunca mais voltou. E Christopher nunca-nunca-nunca se esqueceu dela. Durante 25 anos ela não deu mais notícias.


Principalmente depois que Christopher escreveu dizendo que iria se casar. Christopher, cada vez que apanhava de Gemma de dia, sonhava com Dulce de noite. Não com uma Dulce de quarenta e poucos, que ele não conhecia, mas com uma Dulce de dezoito,linda, maravilhosa, meiga principalmente. Bico do seio cor-de-rosa, que Christopher chegou a ver uma única vez, dentro do fusca, num rápido lusco-fusco pré-sexual.


O e-mail:


Aqui é a Dulce Beatriz Maria Florence. Descobri seu endereço!!! Estou voltando definitivamente para o Brasil. Fui convidada para dirigir uma escola de balé em São Paulo. Chego amanhã, no vôo 2352, da Europe Flight, em Guarulhos. Adoraria que você estivesse no aeroporto me esperando. Você me levou, lembra? Seis da manhã, se não atrasar, é claro. Nunca te esqueci. De verdade. Vai, vá... Até amanhã. Tout bien?


Dulce. Aquela.


Ou tudo é uma fantasia minha e você nem se lembra de mim?


Virgílio olhando para a tela e para Christopher. Para Christopher c para a tela. Christopher, distante:


— Seis da manhã... Guarulhos? Dulce? O que é que eu vou dizer para a Gemma para acordar às quatro da manhã?


Virgílio coça o queixo. Christopher, a cabeça. Virgílio, suando:


— Estou tendo uma premonição.


— Pelo amor de Deus, Virgílio! Não começa com essas viadagens!!!


A premonição era de que o avião iria cair na baía da Guanabara.



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Autor(a): marcossouza

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Já era a segunda vez naquela semana - e estamos na quinta-feira - que Gemma fazia o seu `irresistível` risoto de calabresa. — Por isso que engorda! Massa, calabresa, gordura - dizia Christopher com a cabeça em Dulce, que ele imaginava ainda magrinha. — Vai começar de novo, Christopher Uckermann? Quando ela chamava Christopher de Chr ...



Comentários do Capítulo:

Comentários da Fanfic 1



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  • Srta Vondy ♥ Postado em 24/06/2022 - 07:20:49

    Aí mds, tem uma carinha de escondido é mais gostoso, continuaaa




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