Fanfics Brasil - 35 - Velhos Conhecidos A Espada do Destino

Fanfic: A Espada do Destino | Tema: The Witcher


Capítulo: 35 - Velhos Conhecidos

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Quando o poder dirige a sua mira para o bem pessoal de quem o exerce,


 já degenerou em tirania.


Porém quando alguém compreende que é


contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas,


nenhuma tirania pode escravizá-lo.


“Poder versus justiça – A lei da soberania sobre o discernimento ”


 


Reuniram-se nas profundezas penumbrosas do castelo de Tretogor, cerca de dois homens e duas mulheres. A gruta era iluminada por uma única tocha para não levantar suspeitas. Arrastaram alguns caixotes descartados pela cozinha real sentando-se em círculo.


— Aqui ninguém poderá nos ouvir — começou Varnes, o cocheiro calvo magricela.


— Tomara, o mago não pode saber de forma alguma — alertou Dramina, a lavadeira de cabelos grisalhos e pele enrugada. — Caso contrário estaremos todos mortos...


— Vamos logo ao que interessa — cortou Griman, um dos guardas reais. — Os outros logo desconfiarão da minha súbita ausência.


— Está bem — concordou Bertrolde, uma meia-elfa de longas madeixas morenas que era ajudante na cozinha. Certamente era a mais velha daquele grupo, porém aparentava mais jovialidade que todos. Nas orelhas cobertas pelo penteado, haviam cicatrizes no lugar onde antes havia as típicas pontas por tê-las cortado para misturar-se aos humanos. — Estava relutante se este segredo faria bem para alguém no futuro ou só traria mais desgraça, mas vendo como o rei está perdendo a sanidade, melhor que eu revele às pessoas de confiança, pois a verdade precisa vir à tona agora que Radowid não possui mais qualquer discernimento para governar — ela suspirou profundamente entrelaçando as mãos sobre o colo, um pouco hesitante em prosseguir. — O rei Vizimir II violou minha prima, Nissandra, mas isto não é a pior parte. Ela acabou engravidando daquele monstro, assim dando luz a uma menina, a bastarda e primogênita do rei... Ele as manteve em Tretogor por anos, obrigando minha prima a continuar sendo sua concubina, até que Hedwig descobriu a infidelidade do marido e perseguiu-as determinada a matá-las a qualquer custo. Por sorte não obteve êxito e Vizimir enviou-as para nossa terra-natal, Kovir, para serem esquecidas — suspirou novamente tentando arduamente conter o marejo nos olhos. — Tudo o que ocorreu foi demais para Nissandra ser capaz de suportar, então ela acabou abandonando a filha à mercê da própria sorte... — fez uma breve pausa. — Anos mais tarde, ela enviou-me uma carta dizendo haver deixado propositalmente a menina na estrada que os rumores dizem levar a Kaer Seren, na esperança de que as pessoas certas a encontrassem. Depois disto, nunca mais obtive notícias dela...


— Espere, Kaer Seren? A escola de bruxos de Kovir e Poviss? — indagou o cocheiro arqueando a sobrancelha intrigado e obteve um assentimento de cabeça por parte da meia-elfa. — Mas a bastarda provavelmente morreu. O que temos a ver com isto?


— A questão, meu caro Varnes, é que investiguei sobre os bruxos de Kaer Seren — retrucou Bertrolde. —, ao que tudo indica a menina sobreviveu e não somente isso, tornou-se uma bruxa.


— Uma bruxa? — questionou Griman espantado com tal informação, pois relacionou em sua mente os pontos que agora lhe faziam total sentido. — Lutei na batalha de Loc Muinne ao lado de uma bruxa que carregava o medalhão da escola do grifo no pescoço, a mulher lutava pelo estandarte kaedweni. Seu nome é Siana de Narok, cuja alcunha é Falka.


— Neste caso, se esta tal bruxa realmente for a primogênita de Vizimir e se Radowid morrer... — constatou a lavadeira com um certo brilho de euforia a transparecer nos olhos.


— Teremos uma nova rainha — completou Bertrolde esperançosa. — As leis da Redânia são claras e não há qualquer decreto que impeça uma mulher de governar.


— Mas trata-se de uma filha fora do casamento. Jamais terá direito ao trono sendo uma bastarda — interveio Varnes desanimadamente.


— Exatamente — concordou Dramina cruzando os braços.


— Terá se for legitimada — esclareceu a meia-elfa.


— E que garantias teremos que esta mulher seria menos pior do que Radowid? Afinal, bastarda ou não ainda possui o mesmo sangue do pai dele — observou o cocheiro com certa descrença.


— Não temos nenhuma garantia — respondeu Bertrolde gesticulando com as mãos. —, teremos de arriscar. Mas na situação crítica em que este reino se encontra atualmente, creio que qualquer um seja menos pior do que Radowid.


Todos concordaram com o argumento inegável.


— Mas quem a legitimaria? — questionou Griman com curiosidade enquanto coçava a barba recém-aparada. — E mesmo se conseguíssemos tal feito, não se esqueçam de que bruxos não se envolvem em questões políticas. Como a convenceríamos de tomar partido e reivindicar a coroa de Radowid?


— Ainda não sei como — revelou a ajudante de cozinha após outro longo suspiro —, mas ela é a nossa última esperança... Precisamos encontrá-la.


Subitamente um tenso silêncio se fez presente quando uma silhueta que se ocultava na escuridão surgiu na penumbra diante do quarteto, que arregalaram os olhos atônitos ao constatarem de quem se tratava. As irises azuis gélidas contrastavam com o simulacro sorriso.


— Ora, ora, ora... — pronunciou-se com altivez o homem que trajava um gibão em tom creme com detalhes bordados em dourado. — Parece-me que os ratos resolveram fazer a festa sobre um assunto deveras importante. Sabem perfeitamente que as leis são muito claras e precisam fazer-se valer. Conspiração contra a coroa é um crime gravíssimo, acredito que o rei gostará de saber desta estória mais que mirabolante — debochou cruzando os braços.


— Mago... — rosnou Griman com azedume. — Vamos, não deixem que o feiticeiro sobreviva! — berrou ainda que fosse o único armado do grupo, a medida que desembainhou a espada.


Terorah sorriu ironicamente de canto, desviou do assalto do guarda com uma finta e assim que ganhou a distância, chamas incandescentes flamejaram de suas mãos sobre o rosto do oponente, fazendo o homem urrar de dor com a carne queimada antes de tombar sobre os pés do mago. Tal investida fez o restante do grupo recuar temerosos por tamanha barbárie.


— Por favor, milorde — suplicou Varnes já de joelhos cruzando as mãos em forma de prece —, tenha piedade...


O regente de Kovir e Poviss não deixou-o completar a frase, ateou fogo sobre suas mãos sem qualquer misericórdia arrancando-lhe gritos de agonia, em seguida queimou-lhe o pescoço e o silêncio mortal se instaurou novamente no ar até ser quebrado:


— Mais alguém quer implorar pela vida? — inquiriu friamente o feiticeiro enquanto limpava o sangue das mãos com um fino pano branco, incinerando-o no momento seguinte. Amedrontadas, a humana e a meia-elfa não ousaram pronunciar qualquer palavra, pois para aqueles que temiam Terorah de Nazair, que diga-se de passagem não eram poucos, ser condenado a forca ou guilhotina era uma morte mais digna do que morrer pelas mãos daquele ser hediondo. — Excelente, agora vamos a uma audiência com vosso amado rei — ironizou com seu típico sorriso lúgubre.
 


(...)


 


Radowid sentado ao trono ouviu atentamente os relatos de seu conselheiro, cujas prisioneiras que encontravam-se lado a lado acorrentadas diante do monarca foram obrigadas a confirmarem cada alegação. Por um instante o Inflexível transpareceu um olhar de incredulidade, porém logo permeou para um semblante de austeridade para as subjugadas.


— Deixe este trono bem polido para a verdadeira herdeira — despejou Bertrolde com ousadia antes de um dos guardas esbofeteá-la no rosto fazendo-a ir ao chão.


— Levem estas escórias daqui — ordenou Terorah. Assim ambas foram arrastadas com truculência para as masmorras enquanto debatiam-se em resistência. — Não se preocupe, meu rei. Providenciarei a execução destas conspiradoras ainda hoje em sigilo, assim evitará a disseminação deste boato entre o povo — Entretanto, não houve qualquer manifestação por parte do calvo, que ainda tentava arduamente digerir tais revelações estarrecedoras. — Majestade? — chamou-o novamente, desta vez obtendo êxito em tirá-lo de seu estado de torpor.


— Esta bruxa... — as palavras sumiram instantaneamente dos lábios de Radowid que ainda permanecia estupefato. Em um lapso baniu os devaneios para longe e voltou-se para o mago. — Esta maldita bruxa que ameaça meu reinado é a mesma que batalhou em Loc Muinne a mando de Henselt?


— Sim.


— Não pode ser... — sibilou o monarca com preocupação, levantando-se em um arroubo. — O povo está começando a tramar pelas minhas costas. Meu pai foi um tolo! Maldito seja, Vizimir! — esbravejou e jogou-se ao trono novamente para acalmar os nervos. Massageou as têmporas, suspirando profundamente. — Quero que a tire do meu caminho, Terorah, imediatamente, antes que estes rumores saiam do controle e acabem incitando mais tentativas de conspiração contra mim.


— Se eu duelar contra a bruxa, não tardará para que a notícia se espalhe pelo reino, tornando verídica a futrica na língua da plebe e desencadeando uma rebelião que será incontrolável.


— Então qual seu brilhante estratagema para dar cabo desta bastarda usurpadora?


— Precisaremos de assassinos profissionais. Devemos agir pelas sombras, garantirei a não interferência em sua soberania, pois eu mesmo tratarei de contratar.


— E quem possui em mente? — requisitou Radowid com curiosidade, aprumando-se no assento.


— A trupe de Ivo Mirce, mais conhecido como Cigarra. Obtive informações de que são famigerados em seu ofício.


O Inflexível coçou a barba recém-aparada de maneira reflexiva brevemente até chegar a uma conclusão:


— Não. Você mesmo informou-me que Henselt fracassou em livrar-se dela após ser traído pela mesma. Meros mercenários não são páreos para bruxos, mesmo os mais habilidosos, isso só me levaria a uma derrocada iminente. Combateremos fogo com fogo — concluiu soturnamente.


Terorah imediatamente captou onde o rei queria chegar com tal declaração, assentiu com uma breve mesura e um sorriso cúmplice antes de retirar-se através do portal que conjurou.
 


🔸🔸🔸⚜️🔸🔸🔸


 


Cerys deixou a hospitalidade das Montanhas Azuis poucos dias após a partida de Doretarf e cavalgou por dias, pernoitando onde pudesse até chegar em Ban Gleán, cidade localizada ao sul de Kaedwen e ao norte do rio Pontar. A skelligana cruzou a entrada da cidade e apeou para exercitar um pouco as pernas que já estavam um tanto dormentes pelo longo período de montaria, puxando pelas rédeas seu cavalo de pelagem branca que lhe fora presenteada por Filavandrel. 


Observou os transeuntes que passavam de um lado a outro em suas rotinas e avistou algumas crianças brincando com os cachorros das ruas e desviou no último momento de uma galinha que estava sendo perseguida por outro jovem. Por fim, avistou a taberna que procurava, próxima a uma simplória praça onde havia uma feira de comércio. Estava ali, pois ouviu rumores de que um corsário estaria por aquelas bandas e pelo mesmo ser skelligano, ela possuía grande interesse em contratar seus serviços. O mais importante era conseguir barganhar com o homem, afinal tratava-se de um pirata. Prendeu as rédeas do equino no cercado próximo à entrada do local e retirou a espada embainhada do alforje, também presente do rei dos elfos, quando avistou alguns arruaceiros saírem do estabelecimento.


— Não, não, Filack. Eu não quero sair, deixe-me afogar minhas mágoas — balbuciava um homem magricela, enquanto era arrastado por outro companheiro. — Você sabe... — arrotou. — a desgraçada me traiu... O álcool é minha única salvação.


— Cale a boca, Marley. Ora, ora, ora... — ironizou um terceiro de cabelos ruivos e dentes tortos assim que pregou seus olhos na Skelligana. — O que temos aqui... Está perdida, meu bem? — indagou fascinado por tamanha beleza.


Cerys ignorou, não dando-se ao trabalho de responder o questionamento a medida que prendeu a bainha na cintura.


— Por acaso és surda? — inquiriu novamente o ruivo, aproximando-se perigosamente.


— Não quero ser incomodada — alertou ela com empáfia, encarando-o severamente sem recuar. — Sigam seus caminhos e não terão problemas.


O sujeito gargalhou virando-se para debochar com seus amigos, que o acompanharam na troça.


— O que uma coisinha linda poderia fazer? — provocou ele, voltando-se a ruiva, pairou a poucos centímetros do rosto dela. — Acho que você precisa de uma boa noite de prazer na minha cama para acabar com esse mau-humor — ele riu outra vez e inclinou-se para roubá-la um beijo.


Ela fora rápida o suficiente para lhe desferir uma cabeçada antes, fazendo-o cambalear para trás espirrando sangue pelo nariz. Marley riu gostosamente sobre os ombros de Filack, que o deixou cair sobre a cerca.


— Você teve o que merecia Berve — zombou Marley enrolando a língua. — Mulheres... são mais fortes... que nós... nos destroçam... Oh, minha amada... Genevive... — lamentou lamuriosamente deslizando sobre a cerca ao encontro do chão e pôs-se a chorar como uma criança.


— Sua vadia, quebrou meu nariz! — exasperou o ruivo com uma mistura de irritabilidade e aflição. — Merda... Você me pagará, desgraçada. Filack, pela direita — ordenou ele desembainhando sua espada sem perda de tempo.


Cerys apressou-se e fez o mesmo desviando do primeiro assalto no instante que se seguiu, girou, e cortou o ar verticalmente em direção da cabeça de Berve em um golpe voraz, contudo, ele instintivamente recuou, no entanto, não em tempo suficiente, pois a ponta da lâmina lhe rasgou o rosto da bochecha até a têmpora. O homem desabou ao chão largando a espada ao sentir a ardência imediata e repousou as mãos sobre o rosto, gritando em espasmos de dor. Filack aproveitou-se da chance e avançou pelas costas da skelligana, ela compenetrada no ruivo não deu-se conta de que o oponente serpenteava pela retaguarda furtivamente.


O arruaceiro ergueu a espada preparado para desferir um corte diagonal, todavia, ao executar o golpe sua lâmina colidiu contra outra inesperadamente, fazendo ressoar um clangor de estrépito. Ao ouvir tal ruído estridente, ela voltou-se de sobressalto e surpreendida avistou um homem robusto de barba grossa e cabelos loiro-escuro, defendendo sua traseira. Trajava um gibão-de-couro sem mangas por cima de uma camisa de linho rubra e portava uma aljava nas costas. Algumas das flechas caíram quando o mesmo girou sobre os calcanhares em um contra golpe, acertando o adversário no abdômen. O sangue flutuou em semicírculo, seguindo a trajetória da lâmina. Marley gritou em desespero assistindo tamanha sanguinolência e não conseguiu conter o vômito. Berve mesmo com as pernas a tremularem, levantou-se em um pulo e correu para longe, deixando sua espada e companheiros para trás.


— Bando de filhos da puta — resmungou Cerys embainhando a espada. — A propósito, obrigada pela ajuda.


— Senhora an Craite? — indagou o homem um tanto surpreso antes de recolher suas flechas caídas. — O que faz em Ban Gléan? — embainhou a espada, limpando o sangue em suas mãos sobre as vestes.


— É uma longa história... — murmurou ela ajeitando alguns fios rebeldes atrás da orelha. — Espere... Como me conhece? — questionou arqueando a sobrancelha intrigada. Porém, antes que o arqueiro pudesse respondê-la, a mesma prosseguiu com extrema curiosidade ao identificar algo familiar. — Este sotaque... Por acaso és o corsário de Skellige?


— Sim, minha senhora. Sou Folan do clã Tuirseach. Creio que não vá lembrar-se de mim após longos anos, mas costumávamos brincar juntos em nossa infância. Eu, a senhora e vosso irmão — relembrou um tanto nostálgico.


— Folan... Bem que suspeitei que algo em você lembrava-me alguém conhecido — declarou ela buscando em sua mente as lembranças do passado distante. — Agora que mencionou, recordei-me, de fato... Você mudou muito — constatou observando-o dos pés a cabeça e chegando a conclusão que o antigo amigo havia se tornado em um belo homem.


O arqueiro deixou escapar uma breve risada em ironia.


— Isto é plenamente justificável, afinal, a última vez que de fato nos falamos ainda éramos apenas moleques — esclareceu arrancando um sorriso de canto da ruiva no mesmo tom. — E a senhora também mudou muito, pois está ainda mais bela.


Cerys apenas sorriu-lhe singelamente um pouco desconcertada pelo elogio inesperado, sem perceber que suas maçãs do rosto haviam ruborizado levemente, porém, logo retomou seu semblante de seriedade.


— Embora tenha sido bom lhe rever, Folan, estou aqui, pois preciso retornar a Skellig o mais breve possível. Pago qualquer preço, contanto que me leve ao arquipélago.


Ele coçou a densa barba, pensativo.


— Ouvi dizer que o duque Crach an Craite pereceu em batalha e que Hjalmar assumiu o título de novo duque de Ard Skellig. Primeiramente, minhas condolências por sua perda, o Javali do Mar era um grande líder e guerreiro. E por que a senhora está tão longe de sua casa? — indagou cruzando os braços intrigado. — Se queres minha ajuda, preciso saber de tudo. Vamos beber algo por minha conta, assim poderá me colocar a par da situação — convidou.


— Vejo que não tenho escolha... — suspirou seguindo-o em direção da taberna.


Sentados em uma mesa na extremidade do salão para evitar ouvidos inconvenientes, Cerys contou-lhe todos os acontecimentos antes e após sua saída de Skellig. Folan escutara atentamente a todos os relatos sem interrompê-la, enquanto bebericava sua cerveja.


— Entendo... — pronunciou-se o arqueiro após o fim do relato, tentando processar todas as informações reveladas — Nunca poderia imaginar que Hjalmar destruiria a própria família e que tornar-se-ia vassalo de Nilfgaard. O que só ressalva que ele não a vê mais como familiar e sim como inimiga. A senhora sempre fora determinada e espirituosa, uma líder nata. Desde nossa infância mostrava vocação para tal e pude constatar com certeza pelas poucas vezes em que participava das festas em Ard Skellig, pois como a única mulher a participar das competições ganhava-as na maioria das vezes. No entanto, não creio que seja uma boa ideia retornar para o arquipélago agora, provavelmente vosso irmão esteja preparado para lidar com seu retorno.


— Não... Ele certamente pressupõe que eu já esteja morta, pois, tanto Hjalmar quanto meu pai passaram a vida inteira subestimando-me, vendo-me como uma pessoa fraca, esta é a razão de eu sempre ter tido a necessidade de provar a todos do que sou capaz. Então as chances dele nem sequer esperar que algum dia eu retorne são grandes — argumentou a skelligana dando um generoso gole em seu caneco.


Folan franziu o cenho, intrigado com o que acabara de ouvir.


— Sempre me pareceu seres a favorita do velho Javali do Mar.


— Você provavelmente é um péssimo observador, Folan — ironizou a filha de Crach seriamente. — Hjalmar era o mais amado, pois sempre desfrutava de direitos que me eram vetados pelo meu próprio pai. E o que todo esse amor e favoritismo de Crach an Craite adiantou? Hjalmar não pensou duas vezes em mandá-lo para a morte certa sem qualquer remorso. Então não venhas me dizer que eu era a favorita.


O loiro sorriu pela extremidade dos lábios em sarcasmo, dando de ombros.


— Se a senhora diz... — entornou o caneco garganta abaixo.


Um momento de completo silêncio se seguiu e Cerys fitou profundamente aquelas belas irises azuis do homem a sua frente, tão profundas, que transitavam entre o tom claro e escuro dependendo da posição da luminosidade, provocando-a uma estranha sensação de entorpecimento, como se estivesse sendo tragada para a profundidade sem fim do mar. Entretanto, logo desviou o olhar para disfarçar ao dar-se conta da forma intensa que o observava, tanto que não percebeu que ele o fazia igualmente. 


Ao mesmo tempo, as declarações de Folan martelavam-na o íntimo duramente, fazendo-a questionar-se sobre as próprias concepções. Ele estaria mesmo certo em tais suposições? Seria ela a favorita de Crach an Craite? Então por que todas as privações? Para protegê-la ou para puni-la de alguma forma? Seu pai sempre fora cabeça quente e extremamente rígido em sua doutrina e ela tinha convicção de que era para colocá-la sob cabrestos. Embora o arqueiro houvesse a despertado o direito da dúvida, não fazia mais diferença agora que jamais poderia conversar com o pai sobre tais assuntos. A ruiva tratou de dissipar tais pensamentos e terminou a bebida em um só gole.


— Infelizmente, por mais que eu queira ajudá-la, não conseguirei, pois, perdi meu barco em uma aposta... — despejou Folan sem cerimônias, quebrando o silêncio.


— O quê? — questionou a skelligana com certa incredulidade no semblante.


— Exatamente o que ouviu. Por isso estou preso aqui em Ban Gleán — cerrou os punhos em frustração. — A caça por estas terras mal dá para pagar um prato de comida.


— Para quem você perdeu? Podemos recuperá-lo.


O arqueiro não conseguiu conter um riso irônico de lhe escapar, provocando-a uma carranca pelo mesmo estar fazendo troça da solução que apresentou.


— Perdoe-me senhora an Craite, mas a pouparei do esforço e perda de tempo, pois não conseguiremos recuperá-lo — alegou dispondo seu arco sobre a mesa. — É simplesmente impossível.


— Recuso-me a acreditar. Diga-me para quem o perdeu e eu o ajudarei a recuperá-lo — assegurou-o com confiança. — Ouça, este é o único barco aqui que pode levar-me para casa em segurança, pois confio apenas em skelliganos para isto.


Após um minuto de silêncio decidindo-se se deveria prosseguir e revelá-la, supôs que ela deveria ter algum plano traçado ou já não gozava da plenitude de suas faculdades mentais.


— Olgierd von Everec está com minha embarcação. Ao que parece está recrutando novos soldados para o exército da Redânia em Vengerberg.


— Um barco para levar mais soldados para Redânia? — indagou para si mesma intrigada. — Pelo visto, Radowid não pretende perder tempo... — fez uma breve pausa reflexiva. — E nem nós. Vamos, Folan. Vamos para Vengerberg — determinou levantando-se subitamente.


— Isto é suicídio, somos apenas dois contra uma legião de redanianos. Não quer pensar melhor a respeito? Sem contar que temos pouco armamento e praticamente nenhum dinheiro para providenciar mais ou suprimentos. Nos matarão sem qualquer esforço... — alertou-a na tentativa de fazê-la enxergar que aquilo seria loucura.


— Pare de covardia e apenas deixe-me recuperá-lo, sei o que digo — insistiu a Águia de Skellige enfaticamente.


A determinação em sua voz quase o fez acreditar que teriam alguma chance de sucesso.


— Não é covardia calcular as probabilidades para não morrer levianamente. Mas como queira... — suspirou o loiro, dando-se por vencido pela insistência da mesma ao ver que seria inútil tentar convencê-la da periculosidade daquela empreitada.


A ruiva alcançou seu cavalo ao deixarem a taverna, desviando do vômito de Marley que ainda encontrava-se esparramado naquele canto da cerca.


— Você não vem? — indagou Cerys sem entender o porquê ele continuava estagnado no mesmo lugar. — Onde está sua montaria?


Folan coçou a barba um pouco desconcertado pela situação em que se encontrava.


— Eu vendi, precisava de dinheiro...


A ruiva suspirou revirando os olhos, quase perdendo a paciência.


— Não vamos nos atrasar procurando um cavalo para você. Suba — ordenou ela ajeitando-se mais adiante na sela.


O arqueiro não pestanejou, colocou o pé no arreio e habilmente posicionou-se atrás dela, serpenteando as mãos por sua torneada cintura, segurando-a. Ela pôde sentir a barba roçar levemente e o ar quente das narinas atingir-lhe a nuca. Arrepiou-se com o toque firme em sua cintura sem entender o motivo, no entanto, logo puxou as rédeas e pôs-se a cavalgar apressadamente.



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Autor(a): bianav

Esta é a unica Fanfic escrita por este autor(a).

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