Fanfics Brasil - 44 - Infortúnio A Espada do Destino

Fanfic: A Espada do Destino | Tema: The Witcher


Capítulo: 44 - Infortúnio

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Tão-somente o infortúnio pode


converter um coração de pedra


num coração humano.


“François Fénelon”


 


Kael’ra despertou de súbito com uma dor aguda no peito, cuspiu involuntariamente a água que havia engolido seguido de consecutivas tosses. Debruçou-se sobre os galhos secos de amieiros. Não sabia se poderia considerar sua atual situação uma benção por escapar de um julgamento em que seria certamente condenado a morte ou maldição por quase morrer afogado. Assim que sua visão desanuviou pôde enxergar uma silhueta.


— Graças aos deuses — pronunciou-se uma voz masculina. — Pensei que tinha batido as botas.


— Onde... — evacuou mais água. — Merda... — conseguiu finalmente regular a respiração e constatou que a água nos pulmões havia se esvaído. Tentou se levantar, mas o empecilho de ainda estar com as mãos acorrentadas por dimerítio dificultou, fazendo-o balbuciar.


— Ô, ô, ô, calma companheiro — o sujeito o ajudou a levantar-se. Kael’ra observou que o homem vestia farrapos, supôs então que se tratasse de um mero camponês, que cheirava a peixe, alho e cerveja. — Os deuses estavam o guardando, pois o vi estirado na margem do rio a tempo. Logo voltará a chover, e com as tempestades o nível da água aumenta rápida e traiçoeiramente — o feiticeiro o encarou e avistou uma cabeleira branca presa em um rabo de cavalo e olhos cor de mel. — Vamos andando... — orientou auxiliando o moribundo a caminhar. — Minha esposa preparará uma sopa para que retome as forças.


— Qual o seu nome? — perguntou o ruivo ainda com certa dificuldade para respirar, tendo que fazer breves pausas entre cada palavra.


— Me chamo Uzi, jovem senhor.


— Obrigado por me ajudar, Uzi.


Rumaram para uma choupana não muito longe do rio Pontar. Apesar de não passar de um casebre, o local era bem iluminado por lamparinas. Na calmaria que prenunciava o retorno da tempestade, ouvia-se apenas o som de grilos e sapos por aquelas bandas. Não havia vento, nem som de lobos pelas proximidades. A mulher do pescador era agraciada com um corpo esbelto apesar do vestido surrado, a mesma que segurava uma colher de madeira foi surpreendida com a chegada do marido com um desconhecido. Um desconhecido acorrentado, o que de certa forma era preocupante.


— Uzi, por que diabos demorou tanto? — interpelou ela erguendo a colher de madeira maciça em direção do marido. — Fiquei preocupada de que havia acontecido algo com você, seu porco imundo — choramingou abaixando a colher.


— Me desculpe Bétula, fui pego pela tempestade e quando estava rezando aos deuses que me dessem uma salvação eu encontrei este homem, desacordado na margem do rio e quase a afogar-se.


— Ah, e como bom samaritano que é resolveu ajudar um filho de uma cadela qualquer! — disse a mulher aos berros.


— Bétula... eu...


— Toda vez, Uzi. Toda vez que você ajuda alguém nos traz algum problema. Da última vez foram os soldados redanianos que vieram aqui pegar aqueles ladrões de uma figa. Nos metemos no meio da confusão devido a sua bondade descabida e irracional que abrigou aqueles putos — ela reclamou em alto e bom-tom deixando Kael’ra receoso.


De repente uma jovem loira de irises azuis surgiu bocejando de uma das portas do casebre.


— Pai? Mãe? Por que estão discutindo uma hora dessas? — perguntou a moçoila com curiosidade, fitando o estranho que se mostrava visivelmente abatido. — Quem é a visita?


— Isso não lhe desrespeita, Amarílis. Volte já para seu quarto, pois a conversa aqui é somente de adultos — repreendeu a mãe ainda com o tom de voz alterado. A menina apenas abaixou a cabeça e obedeceu. — E você, Uzi, trate de colocar esse sujeito para fora daqui. Você já fez mais que o suficiente o impedindo de morrer afogado, agora o destino dele não nos pertence mais — argumentou voltando-se novamente para o fogão a lenha.


— Sabes que ele pode ouvir tudo, não é mulher? — indagou o marido com a sobrancelha arqueada.


— Eu estou pouco me fodendo, Uzi. Não quero esse forasteiro aqui.


— Apenas por uma noite, Bétula, pelo amor dos deuses — o homem se exasperou. — Do que adiantará meu esforço para tê-lo salvo a vida se o largar a própria sorte agora? Deixe que ele coma, que descanse sobre um teto para se recuperar minimamente e seguir caminho pela manhã. Eu garanto a você que nunca mais o veremos ou ouviremos falar dele.


A mulher suspirou dando-se por vencida pelos argumentos.


— Isso se ele não nos matar pela noite — resmungou Bétula ainda ressabiada.


— Ele está acorrentado, como nos mataria?


— Está bem, ele pode ficar apenas por uma noite. Uma noite, Uzi. — deliberou ela.


Kael’ra comeu como um glutão, não se lembrava quanto tempo fazia que não tinha uma refeição decente, mas lhe pareceu uma eternidade. Se empanturrou de pães, peixe e ostras que lhe foram servidos como se fosse uma iguaria. Após a ceia o casal o interrogou sobre como foi parar na margem do rio acorrentado, o feiticeiro por sua vez, inventou uma mentira convincente o suficiente para ambos, mesmo Bétula acreditando que ainda assim ele lhes traria algum problema. Naquela noite o ruivo ouviu sons de prazer e rangidos de cama ecoarem no casebre, ainda que sutilmente, mas não se importou ou sentiu vergonha. O clima estava frio, fazendo-o encolher-se sobre o tapete de couro de castor que lhe disponibilizaram para usar de leito ali na cozinha ao lado da mesa. Por mais que sua mente estivesse um furacão de emoções com tudo o que tinha passado até ali, estava tão exausto que dormiu profundamente assim que fechou os olhos.


 


(...)


 


Ao contrário do que havia sido determinado, ele não foi embora no dia seguinte. Não podia, afinal, não dispunha de provisões, nem mesmo um vintém. Sendo assim, firmou um acordo com o velho pescador que consistia em trabalhar integralmente no ofício da pesca e todo lucro em que Uzi tirasse com a venda dos insumos alimentícios, dividiriam igualmente para que assim o meio-elfo pudesse juntar o valor necessário para seguir seu caminho. Dessa forma, muitos dias se passaram sem que Kael’ra percebesse que já estava ao final da estação primaveril. Se alguém olhasse da pequena janela da choupana, veria um homem esbelto, na maioria das vezes acompanhado de uma jovial moçoila. 


Acordou com uma mão lhe chacoalhando delicadamente, porém, teve dificuldade de abrir os olhos pela extrema exaustão e dor de cabeça. Além disso, seu corpo estava dolorido devido as pancadas que recebera noite passada quando inconvenientemente apalpou as nádegas da filha do taberneiro.


— Bom dia, senhor forasteiro — saudou uma voz melodiosa, muito diferente da voz estridente de Bétula.


— Bom dia, senhorita... — respondeu ele, erguendo o tronco com certa dificuldade.


— Não, não precisa chamar-me por senhorita. Me chame apenas de Amarílis. Está na hora do desjejum, levante-se — ela ajudou-o a levantar-se.


— Onde estão vossos pais? — indagou-a enquanto desengrenhava suas madeixas de fogo.


— Saíram cedo para vender a mercadoria em Rinde — esclareceu a moça a medida que colocava a mesa para o hóspede.


— Rinde? — surpreendeu-se ele. — Quantas milhas?


— Nossa casa fica praticamente ao lado de Rinde, mas não tenho certeza de quantas milhas exatamente. Eu raramente saio de casa, eu só sei que um cavalo veloz dá conta do recado.


— Ah entendo — Kael’ra sentou-se à mesa e alcançou um pedaço de pão, fazendo as correntes em seus pulsos tilintarem. — Pensei que vossa mãe não confiasse em mim. Espanta-me o fato de ter nos deixado sozinhos, ainda mais com uma filha linda que possuem.


A menina sorriu um pouco encabulada com o elogio, enrubescendo levemente.


— Grata. O senhor fala com tão belas palavras que fico meio sem jeito — colocou uma mecha dos cabelos loiros atrás da orelha. 


— É apenas a verdade — sorriu sinceramente com seu charme natural.


— Eu posso ajudar com isso — revelou a jovem apontando para as correntes e levantou-se da mesa. Foi em busca da chave, pois sabia onde os pais a escondiam. Pronto, está bem melhor para comer. Desculpe, mamãe insiste que você seja acorrentado todas as noites, eu não concordo de ela o tratar como um cão. 


— Obrigado, Amarílis — ele tocou singela mente a mão da mesma, arrancando-a um sorriso de satisfação. — Mas não tem problema, é um pequeno preço a se pagar. Cada coroa vale o esforço.


— O senhor é muito formoso e belo. Por acaso tem esposa? Filhos? De onde vem? — perguntou-lhe aproveitando-se da ausência dos pais para sanar suas curiosidades a respeito do homem.


— Não sou de ninguém, sou da vida. E não, não tenho filhos.


— Ah, pelos deuses... é eunuco? — ela arregalou os olhos fazendo suas próprias suposições.


— Não, não — argumentou com um sorriso descontraído. — Sou estéril.


— Sinto muito... Que mulher não iria querer um filho como o senhor? Ruivo, de olhos verdes. Uma beldade da natureza.


— Está se mostrando uma mulher deveras interessante, Amarílis.


— É mesmo, senhor? Eu, mulher? Me vê mesmo como mulher?


— Não vejo motivos para não vê-la desta forma — declarou observando o decote da jovem e bebericou um pouco de suco de maçã sem desviar o olhar.


— Meu pai me proíbe de sair para conhecer a cidade — comentou sem importar-se que o mago encarava descaradamente seu busto. — Tem medo de que algum homem se interesse por mim e me desonre antes que eu possa me casar.


— Ah, mas certamente todo homem enlouqueceria com tamanha beleza. Seu pai está certo de mantê-la aqui, longe das garras de predadores.


— O senhor... também seria um possível predador?


— Eu posso ser, se quiseres... — sustentou o olhar da bela e esbelta Amarílis.


— Eu nunca... — a moçoila aproximou-se sem cerimônias. Kael’ra percebeu a mudança na atmosfera, que foi envolvida com certa luxúria. — vi um homem de verdade. — afagou-lhe os cabelos ruivos. Apesar de seu charme e beleza mesmo com a aparência desleixada, cheirava a peixe e musgo. Contudo, a jovem não se importou, pois estava acostumada com o odor que permeava sua casa constantemente. — Kael’ra... — murmurou o nome com desejo. Deslizou suas mãos pequenas e macias pela barba recém-aparada e desceu até às mãos cheias de calos dele. — Venha... Vamos.


O mago, encantado pela beleza da jovem não resistiu a tentação e levantou-se, acompanhando-a até seu aposento.


— Tens certeza? — questionou-a já quase perdendo a razão ao vê-la abaixar o vestido de costas para si.


Nunca havia adentrado no cômodo antes, que era pequeno e continha apenas uma tarimba de palha, uma cômoda para as roupas e acessórios da jovem. Avistou então o corpo delineado de Amarílis, desnudo, suas nádegas eram avantajadas e seus seios pequenos e rosados. A pele era tão alva que tinha receio de deixá-la alguma marca.


— Havia certo tempo que eu o estava observando. Me encantei pelo senhor desde a primeira vez que o vi. — a garota aproximou de maneira seduzente. — Estou mais que certa de que o quero. — por fim, ergueu-se na ponta dos pés e tomou a iniciativa de beijá-lo.


No entanto, o feiticeiro pousou ambas as mãos sobre os ombros da mesma, impedindo-a de avançar, pois necessitava da certeza do consentimento dela.


— Pergunto-lhe mais uma vez, tens certeza? Eu nunca tive a honra de ser o primeiro homem na vida de uma mulher. E não quero que faça nada que se arrependa posteriormente.


— Tenho certeza, senhor — garantiu-o. — Por favor, beije-me. — implorou manhosamente.


Ele então sem mais hesitar atendeu ao pedido e selou seus lábios aos dela. Havia tempos que não sentia um gosto tão doce, tão acalorado de um beijo. Após alguns minutos saboreando a boca de Amarílis, despiu-se com afoiteza. Voltou a beijá-la, desta vez, puxando-a para si com firmeza, pressionando os seios da garota contra seu peitoral. Ela suspirou entre o entrelaçar das línguas, quando o feiticeiro deslizou uma das mãos para as nádegas dela e apalpou-as com gosto. O beijo que antes era calmo, tornou-se lascivo. Ambos já estavam prontos para entregarem-se um ao outro. Amarílis instintivamente pulou no colo dele fazendo suas intimidades se chocarem, com as pernas entrelaçadas a cintura do homem com seu vale a friccionar contra o membro já rijo. Ela arfou por esse contato, ronronou quando foi posicionada na cama e gemeu manhosamente quando sentiu a virilidade roçar sua entrada. 


— Não se preocupe, serei o mais gentil possível — assegurou-a voltou a beijá-la a fim de deixá-la confortável e relaxada. — Irei devagar — murmurou aos ouvidos dela que apenas assentiu sem cessar seus ofegos de prazer.


Inicialmente a jovem sentiu uma dor a se misturar ao prazer, lhe rasgando internamente, mas após Kael’ra chegar ao fundo, relaxou e agarrou com firmeza os ombros do ruivo, deleitando-se com a sensação de ser preenchida gradativamente e ansiava por mais. Ele começou com movimentos gentis, lentos e sabia exatamente o que fazer para arrancá-la mais gemidos. Beijaram-se com avidez a medida que suas intimidades colidiam. Passaram longos minutos saboreando-se reciprocamente, até que enfim ambos atingiram o ápice do regozijo. Ela derreteu-se, arqueando o tronco rigidamente ao mesmo tempo que tremulava, sentindo o líquido quente dele dentro de si em seguida. Amarílis soltou um alto gemido, e por fim, relaxou não querendo soltar o feiticeiro. A garota nunca em seus dezesseis anos havia vivenciado algo tão prazeroso. 


— Isso... foi incrível, Kael’ra — declarou ainda ofegante, aconchegando-se no peitoral vigoroso do homem, que aninhou-a em seus braços.


— Amarílis... — encarou-a após limpar o suor da testa. — Não podemos mais repetir isso. Não é certo... — confessou com sinceridade. — Além disso, tem seus pais, não seria nada vantajoso para mim que eles soubessem disso.


— Que se fodam meus pais — levantou-se aborrecida. — Se eu quiser trepar, meus pais não têm nada a ver com isso. Estou farta de ser a filha ideal, de ser obrigada a seguir as regras e ser privada de viver a vida. Além dos mais... — voltou-se novamente ao ruivo e alisou-lhe o peitoral. — Você não pode colocar uma criança em mim, então estou segura, posso fornicar quantas vezes eu quiser — concluiu roubando-lhe um beijo.


Kael’ra correspondeu-a com avidez, sorrindo com malícia pela extremidade dos lábios.


— Gosto mais desse seu lado rebelde, Amarílis — mordiscou o lóbulo da jovem que soltou um ofego. — Donzelas são facilmente excitadas.


Enquanto se satisfazia com beijos delicados no pescoço da moçoila para não deixá-la marcada na pele alva e a estimulava-a com carícias em sua intimidade, observou o lençol manchado de rubro. Contudo, apenas preocupou-se em como se livraria do lençol sem que levantasse suspeitas. Ainda assim, voltaram a se entregar mutualmente pelo tempo que lhes restavam até o retorno de Uzi e Bétula.


 


(...)


 


Na manhã seguinte Kael’ra acordou cedo, como de costume, alcançou a vara de pesca e rumou para a canoa que se encontrava atracada próximo à choupana. Aprumou-se na pequena embarcação e remou para a encosta oposta do rio Pontar. Ali era o viveiro de cavala e tilápia, peixes que quase todas as noites estavam na panela de Bétula. Suas roupas emprestadas pelo velho Uzi estavam surradas pelo tempo. Seus cabelos a cada dia ficavam mais ásperos e maltratados. Havia adquirido calos nas mãos e seus pés repleto de bolhas o incomodavam ainda mais quando calçava as botas apertadas. Estava farto daquela rotina, não havia vinho, nem prestígios, nem riqueza, nem luxo. Havia arduamente conseguido se formar em Ban Ard para desfrutar dos privilégios de ser um professor conceituado, mas tudo havia esvaído das próprias mãos. 


— Maldito o dia em que aceitei aquela missão... — resmungou com frustração. — Eu a odeio Siana de Narok, e juro que se um dia eu reencontrá-la, a matarei sem piedade. Eu juro...


Passou longas horas na pescaria, rotineiramente até o entardecer. Dispôs o cardume em um largo cesto de vime e remou de volta para o casebre. Ouviu gritos desesperados, fazendo-o derrubar o cesto pela estreita ponte de madeira que atravessava. 


A porta da choupana estava ao chão, avistou os corpos inertes de Bétula e Uzi, ambos com a garganta dilacerada. O vestido da mulher estava rasgado da cintura para baixo com suas partes íntimas a mostra. Era horrendo até para ele presenciar tal atrocidade. Avistou incrédulo, cartazes de procurado espalhados ao chão com seu rosto estampado. Um saco de ouro estava preso a cintura do velho pescador, que estampava um semblante de pavor com os olhos arregalados. Kael’ra cerrou os punhos e apanhou rapidamente o saco de ouro, alcançou então a faca enferrujada que Bétula sempre usava para ameaçá-lo. Os gritos desesperados insistiam, provindos dos aposentos de Amarílis.


— Ande, fique quieta sua putinha — vociferou um dos soldados desnudo da cintura para baixo antes de desferir um tapa no rosto da jovem que já estava com vários hematomas. A moça, amarrada em uma viga de madeira, tentava arduamente escapar das garras de seu subjugador. O militar a segurou com firmeza pelo queixo e a golpeou com um soco no rosto, tirando-lhe imediatamente a consciência. — Isso quietinha e em silêncio, eu só quero saber o porquê quer esconder o que tem entre as pernas — agarrou-a nas coxas e rasgou-lhe o vestido, deixando-a exposta. Em seguida, penetrou-a com impetuosidade, forçando-se para dentro dela com força. — Você é muito apertada, é mais gostosa que sua mãe.


Kael’ra aproximou-se com muita cautela, segurou firmemente o punho da faca e sem hesitar fincou a lâmina no pescoço do homem, que gorgolejou e surpreso virou-se.


— Filho da puta! — berrou o inimigo tentando estancar o sangue com uma das mãos quando o feiticeiro retirou a lâmina. — Kael... — o líquido rubro aflorou e verteu sobre a parte superior da armadura reluzente. O homem engasgou com o próprio sangue, soltou um último suspiro e colidiu com o chão já sem vida.


O mago cortou as amarras e amparou-a com cuidado quando a mesma desabou em seus braços, despertando. Subitamente ela o arranhou no rosto quando recobrou totalmente a consciência, obrigando-o a recuar. Os filetes de sangue escorreram pela tez alva do ruivo.


— Amarílis! Acalme-se, sou eu, Kael’ra — tentou acalmá-la em vão.


— Afaste-se, afaste-se... — repetiu a garota, ainda um pouco desorientada. Avistou então o corpo inerte de seu estuprador. Alcançou a adaga jogada ao chão que usou para defender-se do homem e o esfaqueou várias vezes no rosto, desfigurando-o. O sangue respingou em seu rosto jovial, mas a menina não se importou, continuou golpeando com frenesi. Kael’ra tentou se aproximar para apartá-la, mas Amarílis apontou a adaga em sua direção. — Você é o culpado de tudo isso, desgraçado! — vociferou em indignação. — Meu pai... Minha mãe... — as lágrimas afloraram em seu rosto machucado — Morreram por sua culpa.


— Amarílis... eu posso explicar...


— Não. O que tem a dizer não importa mais, nós sabemos de tudo — interrompeu-o limpando as incessantes lágrimas. — Seu mestiço imundo! E eu trepei com você pensando que era normal, mas era um maldito meio-elfo. Tenho nojo de você, tenho nojo de mim mesma — urrou sem se importar com os sentimentos do feiticeiro. — Você me violou assim como esse estrume — ela cuspiu em direção do soldado que desfigurou. — Graças aos deuses que é estéril, porque eu seria punida pelos deuses se tivesse um rebento seu, um fruto amaldiçoado — Kael’ra permaneceu em silêncio, afinal, era tudo o que podia fazer naquele momento aterrador, por mais que achasse injusta as acusações da menina. — Por que não foi embora? Você nos amaldiçoou! Se soubéssemos que era fugitivo da coroa, jamais o teríamos abrigado. Tudo... Tudo é culpa sua! — ela avançou com sede de vingança, empunhando a adaga em direção do pescoço do ruivo.


Ele rapidamente movimentou uma das mãos e entoou um cântico quase num murmúrio. Amarílis desabou ao chão desacordada e a adaga tombou de sua mão.


— Por um momento... — agachou-se e acariciou as madeixas loiras da jovem. — Eu quis experimentar uma vida normal e honesta, mas até este direito me foi tirado. Sinto muito ter trazido desgraça para sua vida e de sua família...


Por fim, recolheu o punhal da jovem e o guardou devidamente embainhado, amarrando-o a cintura e escondeu a garota debaixo da própria cama para garantir que ficasse segura até despertar. Retirou-se dali o mais rápido possível antes que os reforços chegassem. A cavalaria aproximava-se com vigor incendiando as residências daqueles que abrigassem qualquer não-humano ou inimigo da coroa. A pequena aldeia de pescadores fora dizimada, as mulheres violadas pela patrulha redaniana, os pais mortos cruelmente e as crianças abandonadas a própria sorte sem mais uma família. 


Kael’ra conseguia ouvir os gritos de desespero das vítimas dos soldados, abatidos sem clemência por flechas e lâminas. Escondeu-se na floresta logo que avistou a patrulha cercar a pequena choupana de Uzi. Passou a ouvir o exaspero de Amarílis novamente quando três soldados adentraram, certamente haviam a encontrado. No entanto, Kael’ra não poderia se arriscar outra vez para salvá-la, mesmo presando muito pela garota. Após algumas poucas horas os bramidos cessaram, presumiu então que a jovem sucumbiu pelas mãos impiedosas dos redanianos. Em seguida avistou os três invasores se retirarem e por fim, atearem fogo no casebre.


— Que suas almas corrompidas sejam purificadas pela chama do Fogo Eterno! — proclamou um sacerdote do culto em direção da vila, que transformava-se em cinzas.


— Vasculhem os arredores e exterminem qualquer fugitivo não-humano que encontrarem, exceto o feiticeiro, o rei o quer vivo — ordenou o cavalariço.


Não havia como pegar o cavalo preso a carroça, pois seria certamente visto. Então afastou-se mais, a patrulha estava ocupada demais para notá-lo naquele breu da floresta. Estava com medo por tudo o que presenciou e pelo que poderia lhe acontecer, fraquejou e recostou-se sobre o tronco de uma árvore e não aguentou, evacuou todo o desjejum. Nunca havia experienciado tamanho barbarismo. Então não era somente ele quem os redanianos estavam atrás, mas todos os inumanos, em geral, até mesmo os mestiços. Após alguns minutos recompôs-se e continuou caminhando sem rumo, apenas seguiu tropeçando nos galhos secos e folhas da extensa floresta.


Comeu algumas raízes para lhe dar o mínimo de força para prosseguir, pois em meio ao desespero não ouve tempo de pegar nenhuma provisão. Pensou em Amarílis e seu desprezo pelos inumanos. Kael’ra passou a vida toda sofrendo preconceito, não por ser feiticeiro, mas por ser meio-elfo. Não fazia ideia que neste meio tempo em que esteve escondido Redânia havia se transformado em um verdadeiro holocausto. Se soubesse antes, com certeza teria se abditado para o mais longe possível. De repente, ouviu o relinchar de cavalos próximos, tratou de largar as raízes e procurou algum esconderijo pela floresta, porém, não há tempo hábil.


— Ali! — alertou uma voz ao longe. — Eu disse que o filho da puta estava aqui.


Kael’ra correu por entre uma floresta de árvores secas. Arranhou os braços, pernas e rosto. Algumas flechas silvaram próximos a ele, por sorte, o anoitecer dificultava a visão dos arqueiros.


— Volte aqui, seu filho de uma cadela covarde! — vociferou o cavalariço apeando de sua montaria ao constatar que a densa vegetação dificultava a locomoção do animal. Deixou um soldado para trás e pôs-se em perseguição ao fugitivo com cinco homens, segurando suas tochas, pois a noite havia caído horas atrás.


Kael’ra apenas forçou-se ao limite, correndo até onde seu corpo pudesse suportar a medida que flechas silvavam próximas de seu ouvido, ao mesmo tempo concentrava-se e reunia forças com o objetivo de conjurar um portal para tirá-lo dali. Porém, não sabia que depois da floresta havia um barranco, pego desprevenido acabou deslizando e caiu. Rolou com grande intensidade por entre a vegetação baixa, batendo a cabeça contra um galho robusto, perdendo assim a consciência.


 


(...)


 


O feiticeiro sentiu uma dor aguda na cabeça e na costela ao recobrar os sentidos, soltou um lamurio.


— Deixem esse pobre coitado — disse uma voz distante. — O ouro que pegamos é o suficiente. Será o suficiente para chegarmos em Rinde.


— Que má sorte — debochou outra voz. — Vamos, meu amor.


Kael’ra fez o possível para se levantar, e balbuciou algumas palavras desconexas, mas não fora o suficiente para chamar a atenção do casal. Perdeu novamente a consciência.



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Autor(a): bianav

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