Fanfics Brasil - 08 - Tretogor A Espada do Destino

Fanfic: A Espada do Destino | Tema: The Witcher


Capítulo: 08 - Tretogor

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Sentiu o poder percorrer em seu corpo,


Como se estivesse imerso em um sonho, sublime, e consciente,


Para assim, seguir por um caminho, contra a sua vontade.


“Marionete”


 


Acamparam na floresta aos arredores de Tretogor. O velho mercador tratou de ceder algumas de suas mercadorias, entre elas panelas de cobre, utensílios de barro, um pouco de cerveja e peles de urso para os companheiros de viagem. A fogueira crepitava, o saboroso aroma do cozido de coelhos percorria em suas narinas. Doretarf servia-se enquanto o trovador dedilhava seu alaúde, cantarolando uma de suas baladas conhecidas. Falka por sua vez, já saciada da fome, afiava a espada de prata enquanto bebericava um pouco de cerveja. O comerciante acompanhava o príncipe na refeição. Jaskier parou de repente e se pôs a comer um pouco quando lhe estenderam uma tigela de barro com o cozido.


— Este ensopado está deveras delicioso — elogiou o bardo. — Havia dias que não degustava uma refeição decente. — lambia os beiços a cada colherada.


— E então, o que aconteceu em Novigrad? — indagou Doretarf para Jaskier com grande curiosidade.


— O culto do Fogo Eterno iniciou uma caça e extermínio aos não-humanos, principalmente feiticeiros, colocando-os em piras e deleitando-se com seus berros até que queimassem por completo. Ouvi rumores de que após as duas primeiras guerras contra Nilfgaard, os Reinos do Norte ficaram devastados economicamente e claro, isto levou ao aumento do fanatismo religioso, em particular o Culto do Fogo Eterno. Há quem diga que Radowid V usou os não-humanos como bodes expiatórios para justificar o agravamento de problemas em seu reino.


— E se a culpa for mesmo dos não-humanos? — questionou o príncipe dando uma colherada em sua refeição.


— O quê?! — exclamou o trovador com certa incredulidade. — Isto não faz o menor sentido, jovem camponês. Nós humanos não nos culpamos por bebermos demais e de repente mijar em um campo sagrado dos elfos, por exemplo, colocaremos a culpa na bebida. Sempre apontaremos nossos dedos a qualquer um, menos a nós mesmos.


— De fato... — concordou Doretarf após refletir acerca dos argumentos de Jaskier. — Deve ser perigoso aos não-humanos estar por estas redondezas — disse encarando a bruxa de esguelha. — Você não está com medo, Siana?


— Meu trabalho é matar monstros — declarou ela embainhando sua espada de prata. — No entanto, se humanos quiserem tomar-me a vida, não hesitarei em defender-me.


— Você, ó determinada bruxa, é a mulher mais corajosa que já conheci — constatou o bardo, deixando sua tigela já vazia de lado. — Na verdade, a segunda, depois da Rainha Calanthe de Cintra.


— Cintra caiu, tornou-se vassala de Nilfgaard — intrometeu-se o mercador. — Há boatos de que os poucos sobreviventes partiram em fuga para Skellige.


Skellige... Doretarf quase havia se esquecido. Em menos de um mês ele teria de se casar com Cerys an Craite. A Águia de Skellig o surpreendera com seu espírito de batalha e determinação, mas não havia sentimento algum, a não ser o de obrigação por parte de ambos.


— Bem, não havendo mais nada a tratar, meus caros e minha querida bruxa, irei descansar, pois, meu corpo clama por uma boa noite de sono — declarou Jaskier desamarrotando o pedaço de pele de urso deitando-se em seguida.


— Também irei, amanhã será mais um longo dia — pronunciou-se o comerciante deitando a cabeça sobre um dos braços a medida que se acomodava em um amontoado de folhas que arrumou e encobria-se com outra pele de urso. — Que os deuses nos ajudem e que nenhum monstro apareça — rogou mais para si.


— Praticarei um pouco — avisou Falka quebrando o silêncio, levantando-se logo em seguida.


— Posso acompanhá-la? — perguntou Doretarf enquanto levantava-se também. — Sinto que estou ficando enferrujado, preciso de um pouco de esgrima.


Ela não respondeu, apenas desembainhou suas espadas e jogou a de aço nas mãos do príncipe, que pegou-a sem dificuldades. Caminharam em silêncio até determinada área descampada, o céu estava de um azul-petróleo misturado as inúmeras estrelas. A lua minguante em seu esplendor iluminava as terras dando a ambos uma boa visão do perímetro. Siana movimentou um pouco o ombro ferido, a dor já não a incomodava mais, a cicatriz era de um formato oval desregular exibindo um pequeno amontoado de carne. Girou a espada e a apontou ao seu adversário.


— Está esperando um convite? — indagou Siana aguardando o primeiro movimento do oponente.


Ele sorriu ironicamente de canto girando habilmente a espada, fez alguns movimentos e pôs-se a cruzar lâminas com a bruxa. Falka defendeu-se empurrando-o de leve, testou seus reflexos enquanto disputavam, constatou que a sincronia de Doretarf era de um tempo perfeito, sua respiração, suas reações a cada investida. Ela conhecia aqueles movimentos, pois já cruzara espadas contra alguns soldados versados no passado.


— Você é um soldado — revelou a bruxa. Ele parou por um instante surpreso com a constatação certeira da jovem mulher, a mesma então aproveitou-se da chance e golpeou a lâmina adversária fazendo-a despencar ao chão. Apontou a espada de prata contra seu pescoço que reluzia de encontro com a luz lunar, assim como as irises âmbar de Falka. — Ou melhor, é um voivoda. Não guardou este segredo muito bem. Não deveria mostrar-me suas habilidades, já que influenciavam em seu sigilo — ela alcançou a espada de aço na grama e jogou em direção dele. — E não deveria comer igual a um nobre. Sua postura era perfeita, seu manejo com a colher também, se quiser esconder-se como um simples camponês deve estudá-los antes.


— A verdade sempre é revelada cedo ou tarde — Doretarf ponderou sentando-se sobre uma rocha. — Eis a verdade, sou o príncipe de Kovir e Poviss.


— E posso perguntar o que faz tão longe do seu trono, alteza? — questionou Siana girando sua espada novamente.


— Um usurpador assassinou minha família e tomou-me o trono, fui amaldiçoado e expulso de meu próprio reino — revelou ele entredentes. — Não há um só dia em que eu não almeje cortar a garganta daquele patife traidor.


— Devo alertá-lo que o caminho da vingança é cheio de obstáculos, deve-se perseverar, caso contrário o pântano da vingança o afundará de uma só vez — alertou Falka sentando-se ao lado do príncipe.


— Diz isso por experiência própria?


— Exatamente.


— E conseguiu vingar-se? — questionou ele com grande curiosidade.


— Ainda sinto o sangue em minhas mãos.


— Entendo... — disse por fim. — E quanto a seus olhos? O último bruxo que conheci fora Geralt de Rívia e não tive a oportunidade de lhe fazer tal indagação. — justificou-se Doretarf para não parecer inconveniente.


— Trata-se da prova das ervas — revelou a bruxa. — É um teste arduamente doloroso em que nós éramos submetidos a processos alquímicos intensos, consumo de compostos mutagênicos e treinamento físico e mágico implacável para nos tornar perigosos e altamente versáteis contra a vasta gama de oponentes que temos de enfrentar em nosso ofício. Um dos principais efeitos colaterais permanentes das mutações são estes olhos.


— E todos passavam?


— Não, apenas quatro em cada dez jovens sobreviviam a prova. E para meu deleite fui criada como uma bruxa desde os quatro anos em Kaer Seren.


— E não almejou nada mais que o seu ofício como bruxa?


— Não, isso foi há muito tempo e aprendi a aceitar meu destino. Meu ofício salva muitas vidas.


— Mas não salva a si própria — retrucou o príncipe. — Poderia estar casada, ter filhos, uma família, é isso o que todas as mulheres almejam ou pelo menos a maioria.


— Não para mim. — rebateu Siana. — Nós bruxos somos estéreis, outro dos efeitos das mutações o que nos impede de constituirmos família, não almejo nada mais que matar monstros. A cada monstro morto uma, duas e até dezenas de vidas são salvas, isto, no entanto, só é possível mediante uma ação remunerada, sem isso de nada me vale.


— Então está dizendo que os salva somente por conta de dinheiro? Quer mesmo que eu acredite que não tens sentimentos?


— Nós bruxos somos desprovidos de sentimentos — argumentou ela levantando-se repentinamente.


— Não acredito em patavinas do que está dizendo — declarou o príncipe fincando a lâmina no solo e também levantando-se. Agarrou a bruxa pelo braço subitamente. — Você não tinha obrigação nenhuma em salvar-me, porém mesmo assim o fez e eu nada tinha de valor. Então, por que o fez? Por que se importou a tal ponto de quase sacrificar sua própria vida? Não digas que não tens sentimentos porque não acredito, Siana de Narok — puxou-a para mais perto com seus rostos permanecendo a poucos centímetros de distância. — Por que não se permite sentir?


Doretarf estava certo em suas afirmações, pois de algum modo após olhar em seus olhos suplicando salvação naquela caverna, Siana não ficou indiferente, ao contrário, se permitiu salvá-lo por sentir uma conexão indescritível e colocar sua vida acima de qualquer recompensa.


Seus corpos colaram-se, Falka pôde ouvir os batimentos do príncipe, calmos e calorosos, suas mãos agarram-na de tal maneira que não podia soltar-se, indo de seus braços até as costas. Olhou para ele e se permitiu deslumbrá-lo, os gratos olhos azuis-celestes estavam ansiosos, esperando uma resposta. Mas antes que ela pudesse manifestar-se, o moreno inclinou-se sobre a mesma, acariciando suas maçãs do rosto, então selou seus lábios sem qualquer tentativa de repeli-lo. Começou com um beijo gentil ao mesmo tempo que era caloroso para depois tornar-se ávido, com sede de mais.


— Não posso — interrompeu ela subitamente, desvencilhando-se dos braços do príncipe.


— Por quê? — indagou ele confuso.


— Não sou o que está procurando — respondeu sucintamente, alcançando rapidamente suas espadas no chão e embainhando-as, sumindo na escuridão logo em seguida.


Doretarf retornou ao acampamento, mas a bruxa não estava lá, no entanto, viu Midgaar comendo um pouco de feno e tranquilizou-se, afinal se ela tivesse partido havia de levar o cavalo. Encostou-se em uma tora de madeira e passou os dedos sobre os lábios sentindo o gosto dos beijos de Falka ainda que um pouco desapontado pela rejeição por parte dela, porém imaginava que a mesma certamente teria seus motivos para tal. Entretanto, não podia negar que estivesse extremamente atraído pela mesma, era como se o destino tivesse planejado que seus caminhos se cruzassem. Após certo tempo devaneando, deitou-se, contemplou o céu estrelado e pôs-se a dormir.
 


(...)


 


Separaram-se ao amanhecer. Após um banho demorado em uma lagoa próxima, o príncipe trajando as mesmas roupas surradas despediu-se do mercador que seguiu para Rinde. Falka já havia partido junto ao bardo antes que ele despertasse e Doretarf não tinha a mais vaga ideia para onde ela teria ido, porém, não era algo com que poderia se preocupar, afinal eles tinham compartilhado apenas um beijo e a bruxa havia deixado claro que não havia espaço em sua vida para envolvimentos.


Rumou para Tretogor, a capital da Redânia, construída sobre uma fundação élfica há trezentas milhas a leste de Oxenfurt e três dias de Anchor a cavalo. Cavalgava em um dos baios emprestados pelo comerciante que os ajudara outrora, o devia muito e caso revesse o velho mercador no futuro, seria bem recompensado e bem-vindo ao seu reino. Encontrou alguns Cavaleiros Templários pelo caminho, que o ignoraram já que se tratava de um humano. Seguiram examinando a estrada e Doretarf pegou o caminho contrário, indo em direção do castelo. Os detalhes da fortaleza entregavam o tempo na história, revelando haver passado por pelo menos três a quatro reformas, pôde concluir o príncipe já que a arquitetura dos elfos não jaziam mais ali.


Apeou do animal e amarrou as rédeas em uma das vigas de madeira perto dos estábulos. Caminhou por uma ruela de pedras e avistou a entrada do castelo, guarnecida por dois sentinelas redanianos. Os soldados apontaram suas lanças em direção do desconhecido e um deles pronunciou-se:


— Alto, não pode se aproximar do palácio, seu vagabundo. Vá embora!


Doretarf irritou-se com a descortesia, mas apesar de tudo sabia que nada havia de real em suas vestes, somente em sua postura altiva, porém de nada adiantaria contra aqueles soldados. Duramente tinha que acostumar-se a cruel realidade que já não era mais o príncipe de Kovir e Poviss, era apenas um andarilho em busca de alianças e nada podia provar para exibir seu título, nem mesmo um anel ou um cordão. Nada lhe restara, embora ainda assim declarou:


— Exijo uma audiência com vossa majestade, o rei Radowid V — solicitou seguro de si, desvencilhando-se das lanças. — Anunciem que o príncipe de Kovir e Poviss está aqui e deseja lhe falar.


Os sentinelas encararam-se de soslaio, em seguida voltaram-se para Doretarf que já supunha que ambos certamente achavam que ele não passava de algum beberrão ou lunático, mas para sua surpresa o conduziram palácio adentro ao encontro do onipotente rei da Redânia. Não sabia ao certo se fizera a escolha certa, afinal Radowid não tinha boa fama, sendo conhecido como O Inflexível, entretanto, era o mais próximo em questões econômicas de Kovir naquele exato momento. Passaram por um largo corredor, ouvindo apenas o ranger das botas dos soldados, avistou uma grandiosa janela de vidro defronte e armaduras reluzentes adornando toda a extensão.


Cessaram a caminhada e um dos soldados se pôs a adentrar no salão do trono, presumiu o príncipe. Após alguns minutos as portas foram finalmente abertas e Doretarf entrou, observou o rei sentado no trono parecendo entediado ao vê-lo. Os criados afastaram-se saindo imediatamente do local, as bandeiras da Redânia balançavam em cada viga no castelo. Ao lado do monarca, ajoelhada e acorrentada a grilhões encontrava-se uma mulher, o tecido fino em seu corpo revelava seus mamilos róseos.


— Doce? — ofereceu Radowid para a cativa segurando o confeito delicadamente entre o polegar e o indicador, fora de alcance o suficiente, de modo que a mulher de cabelos ruivos tivesse de se erguer sobre os joelhos para comê-lo de seus dedos. Ela ergueu a cabeça e saboreou o doce, fazendo suas correntes tilintarem. — Feiticeiras não são adoráveis? — questionou ele com um sorriso desdenhoso nos lábios. — Não concorda, príncipe sem renome?


Todo o corpo de Doretarf reagiu contra tal declaração, constatando o quanto aquela escrava sofria nas mãos do “Inflexível”. Seu coração palpitava descompassadamente dentro de sua caixa torácica, agora tinha certeza que havia sido uma péssima ideia pedir auxílio a Radowid V, mas já que havia ido tão longe, não iria recuar.


— Bem mais adoráveis — concordou Doretarf calculadamente. — No entanto, não sou um príncipe sem renome, majestade. Sou o herdeiro legítimo do trono de Kovir e Poviss, Doretarf Troideno.


Radowid endireitou-se em seu trono lapidado em mármore, encarou o camponês com uma mistura de desprezo e curiosidade, e logo pôs-se a gargalhar com desdém.


— E, no entanto, veste-se como a um vagabundo qualquer — rebateu o rei rigidamente. — Estou curioso, Doretarf de Kovir e Poviss o porquê destas vestes já que, segundo tu, és o herdeiro do reino.


— Devo admitir vossa majestade que meus trajes refletem a de um plebeu — aproximou-se com cautela do trono. — Mas volto a afirmar que sou o herdeiro de Kovir e segundo meu pai, o rei Gedovius Troideno, dentre nossas relações políticas, Redânia é o mais próximo de meu reino do que qualquer outro. Exportamos minérios em abundância, bem como armamentos para vós, por isso peço-lhe um quarto de seu exército para retomar meu trono. Se disponibilizares esta quantidade, garanto-lhe minha eterna gratidão e dez por cento de todos os meus lucros.


— Retomar-lhe o trono? — questionou Radowid intrigado inclinando-se sobre o assento.


— Meu pai fora assassinado covardemente em nosso palácio — revelou Doretarf com o pesar nítido no semblante. — Fui banido de minhas terras pelo algoz e traidor, o conselheiro do rei a quem confiávamos cegamente. Viajei até aqui para pedir-lhe apoio, vossa majestade — concluiu tentando ser o mais respeitoso possível.


O monarca encostou-se novamente, com a mão direita a repousar sobre o queixo. Apoiou-se em um dos braços do trono e arqueou uma sobrancelha, parecia ponderar e refletir acerca das informações que lhe foram despejadas e acima de tudo, analisava-o. Por fim, ergueu a mão esquerda em sinal a seus guardas que logo entenderam. Cerca de cinco soldados cercaram o príncipe, golpearam-no na perna com um chute voraz fazendo-o ajoelhar-se perante o rei.


— Mais perto — ordenou O Inflexível impacientemente.


Os subordinados obedeceram de imediato, arrastaram-no até os pés do soberano, soltando-o abruptamente igual a um cão. Doretarf sentiu as lajotas frias em seu rosto e levantou-se, ficando de joelhos perante aqueles olhos negros, frios e calculistas. Radowid trajava as cores de seu reino, vermelho e azul em um imponente gibão real estampado com o símbolo da águia. A coroa reluzia de encontro com os raios solares que adentravam iguais tentáculos de luz através das vidraças que incomodou os olhos do príncipe, obrigando-o a fechá-los por um momento.


— Aceitarei vosso pedido — declarou o rei quebrando o silêncio. — Com uma condição. Radowid estendeu um pouco a perna direita, a ponta de sua bota bem lustrada se apresentando para Doretarf. — Beije — ordenou seriamente.


O príncipe encarou-o com incredulidade. Uma humilhação atrás da outra e aquela era a mais hedionda em toda a sua vida, seus lábios tremeram em ódio e as irises azuis tornaram-se gélidas, fitando o monarca com desprezo e repudia. Os guardas desembainharam suas espadas. Ele seria mesmo capaz de obedecer a tal ordem descabida, pisoteando em seu orgulho e dignidade? Cerrou os punhos em revolta.


O rei, por sua vez, já impaciente, chutou-o na face. Doretarf caiu de costas cuspindo sangue. Essa era a sua chance, levantou-se ainda um pouco aturdido pela pancada e encarou desafiadoramente os soldados. O primeiro atacou erguendo a espada, ele por sua vez desviou agachando-se, agarrou a empunhadura da lâmina medindo forças contra o inimigo e empurrou-o usando todo o peso do seu corpo fazendo o soldado cair de lado, causando um estrondo de metal contra o piso de mármore. Girou a espada habilmente que pegou do oponente abatido como se fosse uma extensão de seu corpo e pôs-se a matar os demais que ali estavam, orquestrou seus ataques com perfeição, rasgou suas gargantas, cortou suas cabeças e perfurou-os em pontos fracos das armaduras. Radowid arregalou os olhos em espanto e levantou-se abruptamente. Doretarf largou a espada ensanguentada e voltou sua atenção ao rei.


— Você, seu bastardo — empertigou-se O Inflexível — Como ousa adentrar em meus domínios e insultar-me desta maneira?


— Nada disso havia de acontecer se não pisasse em minha dignidade, das quais fora uma das poucas coisas que me restaram — retrucou Doretarf enraivecido.


— Foi Dijkstra quem o mandou, não foi? Para assassinar o rei de Redânia. Confesse seu vagabundo! — rosnou Radowid entredentes recuando alguns passos para trás.


— O quê? — indagou o príncipe confuso sem entender a que o monarca se referia.


— Veio com desculpas esfarrapadas de um reino que está intacto, com um rei vivo. Achas que eu não sabia que o príncipe Doretarf de Kovir e Poviss morreu em batalha? Acreditou mesmo que cairia em tal farsa?


Dezenas de reforços adentraram ao grande salão e imediatamente subjugaram o príncipe, derrubando-o, obrigando-o ficar com a cabeça sobre o chão frio com a sola das botas do comandante das tropas pressionando sua bochecha. Radowid soltou um sorriso de escárnio e ordenou que o acorrentassem, grilhões foram postos em seu pescoço e nas mãos que foram presas atrás das costas. A feiticeira cativa observou em silêncio, enquanto o comandante do exército desferia golpes impiedosos no príncipe, fazendo surgir equimoses em seu rosto e tórax. De repente as portas se abriram.


— O rei Gedovius Troideno de Kovir e Poviss — anunciou o arauto.


O corpo de Doretarf enrijeceu, seu coração palpitou descontroladamente quando ouviu o nome de seu pai. Não era possível que o rei estivesse vivo, pois ele mesmo o vira sucumbir pelas mãos de Terorah de Nazair e não podia estar enganado, a cena que presenciara naquela maldita noite não podia ser apenas uma ilusão, por mais que desejasse profundamente que fosse. Olhou para a figura que elegantemente passava por ele. Os cabelos castanhos escuros e os olhos azuis de Gedovius encontraram-se com os dele, o mesmo rosto robusto e o nariz adunco. Doretarf estava paralisado, não havia nenhuma reação, nenhum pestanejar, nada viera a sua mente. Apenas não conseguia crer em seus próprios olhos.


— Radowid, meu velho companheiro — pronunciou-se Gedovius em tom solícito. — Vejo que estás deveras ocupado. O que se passa? Se quiseres podemos adiar nossa negociação.


— Não. Não há nada para se preocupar — apaziguou o rei. — Este é apenas um vagabundo que queria tomar-me a vida a serviço de Dijkstra, estes ataques ocorrem com frequência ultimamente — fez uma breve pausa. — O que me é mais cômico, é que este rato ousou inventar ser seu filho, Gedovius.


— O quê? — indagou o rei de Kovir e Poviss. — Nunca ouvi tamanha inverdade, pois todo o norte sabe que meu filho sucumbiu nas mãos de Nilfgaard — declarou seguramente.


Então suas suspeitas se confirmaram, ele não alucinara quando viu seu pai morrer. Tinha plena convicção de que não estava louco, o que só podia lhe levar a um palpite. Terorah forjara sua morte para o resto do Continente e com magia conseguiu de alguma forma inexplicável reviver o rei ou isto era apenas uma ilusão criada para poder se aproveitar da imagem de seu falecido pai.


— Sua víbora inescrupulosa! — bramiu Doretarf debatendo-se em vão sobre os grilhões. — É você, não é? Terorah de Nazair seu grande filho da puta!


Perdeu a compostura e fora golpeado novamente pelo comandante, dessa vez despencou de bruços sentindo a bile subir pela garganta, mas conteve arduamente a evacuação. Avistou então o brilho de uma bota deveras polida.


— Por que me ofendes, pobre plebeu? — indagou o homem com uma pitada de sarcasmo.


Com dificuldade ergueu a cabeça, sentiu o gosto de sangue e cuspiu sobre as botas do homem jovial a sua frente que fitou-o com desdém e impediu o comandante de golpeá-lo novamente.


— Você é bastante insolente — declarou Terorah. — O que ocorre aqui, vossa majestade? — indagou dirigindo-se a Radowid. — Era mais um infeliz espião de Dijkstra?


— Eu irei matá-lo! Seu... — ameaçou Doretarf, entretanto foi interrompido pelo feiticeiro.


— Amordacem-no — ordenou o mago.


O comandante obedeceu de imediato, amarrou a boca de Doretarf com um nó mais forte que o normal para que não tivesse a chance de soltar qualquer ruído. Caiu novamente de joelhos com um soco desferido no estômago. Terorah caminhou em direção aos reis e os reverenciou como de costume.


— Todo cachorro deve ser posto de joelhos — sentenciou o feiticeiro voltando-se ao príncipe.


Doretarf transbordou o olhar em fúria, a respiração desregular fazia seu tórax movimentar-se violentamente enquanto fitava o mago. Não conseguia crer ainda que o homem a quem tanto confiava proferiu tamanha mentira perante ao rei, colocou um usurpador para negociar com Redânia e como se não bastasse, o humilhou perante todos. Subjugado, forçado a ficar de joelhos perante aquelas figuras desdenhosas sem um pingo de compaixão. Sim, o mataria sem pestanejar, jurou naquele momento perante os deuses em pensamento que o perseguiria até os confins do mundo e o faria pagar por todo o mau que lhe causara.


— Matem-no, já me cansei desta escória — ordenou Radowid.


— Espere, meu soberano — intrometeu-se Terorah. — Por que não o mandas de volta a seu senhor, Dijkstra? — sugeriu erguendo uma sobrancelha.


— Onde quer chegar, Terorah? — indagou o redaniano intrigado.


— Pense bem, vossa majestade. Se o mandar de volta a Dijkstra, que se esconde em Loc Muinne com Philippa Eilhart sob a proteção de Filavandrel aén Fidháil, mataria três coelhos com apenas uma cajadada — aproximou-se do monarca. — Pôde perceber que este homem possui habilidades que servirão a nosso favor. É um matador, pois pelo que percebo em seu salão, ele assassinou cerca de cinco de seus soldados mais bem treinados. Devemos usá-lo, incumbi-lo de exterminar aqueles patifes, vossa majestade. Tenho toda a certeza de que ele matará a seu favor.


O rei da Redânia passou a mão pelo braço de seu trono e pensou por um instante.


— Faça como quiser, feiticeiro — pronunciou ele. — Exijo a cabeça de Dijkstra e Philippa em minhas mãos para poder empalá-las. Mas se este desgraçado voltar de mãos vazias, não terei piedade.


— Não se preocupe, majestade — assegurou Terorah curvando-se enquanto Radowid sentava-se novamente em seu trono. — Irei enfeitiçá-lo, garanto-lhe que ele não falhará para sua plena satisfação.


Doretarf remexeu-se entre os grilhões em sinal de protesto, enquanto o mago se aproximava com um sorriso soturno na extremidade dos lábios. Subitamente surgira em sua mão um cajado de madeira, então começou a conjurar seu encantamento a medida que os guardas se afastavam. De repente um vento cortante invadiu o recinto, uivando, turvando a visão do príncipe. Seus olhos tornaram-se completamente esbranquiçados, fleches de luzes douradas se fizeram presentes por todo salão. O príncipe de Kovir e Poviss já não sabia aonde se encontrava, não possuía consciência de tempo e espaço, todas as lembranças em sua cabeça tornavam-se rapidamente um imenso borrão. E repentinamente tudo sumira, nada lhe vinha à mente. Sentia-se oco, sem o controle de suas ações, como se sua alma tivesse sido sugada para fora do próprio corpo. A única voz que inesperadamente surgiu em seu subconsciente como uma ordem suprema era:


Capture os filhos de Filavandrel e os traga para mim.


 


Notas Finais:


Que capítulo foi esse meu povo? Cheio de intrigas e reviravoltas. Esse Doretarf é um grande azarado mesmo, mal se livrou de um problema para se enfiar em um maior ainda e desta vez não tem ninguém para tirá-la dessa enrascada. Terorah o tem na palma da mal e o usará a bel prazer... E aí? Alguém arrisca supor o motivo do mago inescrupuloso querer os filhos do Filavandrel?


Como sempre, comentários são sempre bem-vindos vindos.


Agradecemos por acompanharem até aqui e nos vemos no próximo capítulo ✌️



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Autor(a): bianav

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