Fanfics Brasil - O presente Enquanto somos jovens

Fanfic: Enquanto somos jovens | Tema: Naruto


Capítulo: O presente

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Sakura estava no quarto arrumando a cama para passar a noite, quando Ino chegou no apartamento. Incapaz de controlar a curiosidade, ela foi até a sala, encontrar com a amiga. Assim que viu a expressão desanimada de Ino, ela própria se desanimou também.


— Preciso de um banho — foi a única coisa que Ino disse.


— A Hinata está lá agora — informou Sakura. — Eu ia tomar banho depois dela, mas pode ir.


— Ai, amiga, eu vou — disse Ino. — Eu estou toda grudenta.


Sakura concordou e as duas foram até o quarto. Ino tirou a jaqueta que Kiba havia lhe emprestado e sentou na cama, olhando para a peça de roupa, em silêncio. Sakura sentou na própria cama e esperou, mas Ino continuava quieta. Ela resolveu arriscar:


— Então… — começou — você veio com o Kiba. Pensei que depois de ontem…


— Eu sei — disse Ino. — Acho que agora ele vai ficar com raiva de mim.


— Não vai — disse Sakura, mas Ino negou com a cabeça.


— Eu vim com ele porque eu pensei que eu poderia tentar, sabe? — explicou Ino, deixando a jaqueta de lado na cama. — Ele é um cara legal, fácil de conversar, bonito, atraente…


— Você não tinha achado ele bonito, ontem — comentou Sakura, apenas para pontuar.


— Ele é charmoso — disse Ino, sorrindo. — E o pior é que ele sabe.


— Caras como ele sempre sabem.


— É.


Ino deitou e escondeu o rosto no travesseiro, deixando escapar um gritinho frustrado.


— O que aconteceu? — perguntou Sakura, curiosa.


A loira contou. Sakura ouviu tudo em silêncio, mas não conseguia parar de sorrir. Ela podia ver como Ino estava balançada pela atenção de Kiba e até gostou mais dele por ter tido uma reação tão tranquila com a rejeição. Apesar de dizer que queria sair e conhecer pessoas novas, Ino não estava pronta e, se aquela situação pudesse servir de alguma coisa, que fosse para que a garota percebesse isso, antes que fizesse alguma besteira. Sakura foi até a amiga e a virou para si.


— Ei — chamou — não fica assim. Você terminou um relacionamento há pouco tempo e mal conhece o Kiba. É normal se sentir insegura a respeito de um outro cara.


— Mas é confuso — disse Ino, fazendo bico e rindo de si mesma.


— Se dê mais tempo, Ino — Sakura ouviu a porta do banheiro ser aberta e soube que Hinata tinha saído do banho. — Se tiver que acontecer, vai acontecer. Acho que você fez a coisa certa. E acho que o Kiba sabe disso, também.


— Ele tem todo o direito de ficar chateado comigo…


— Talvez — concordou Sakura. — Mas se ele é um cara tão legal quanto parece, ele não vai ficar. — Ino levantou os olhos para ela. — Agora vai tomar o seu banho, que eu estou na fila e quero dormir cedo.


— Eu te amo — disse Ino, sorrindo e se levantando da cama.


Sakura praticamente a empurrou para fora do quarto.


 


*


 


Ao sair do banho, Ino foi avisar Sakura que ela podia usar o banheiro. Ficando sozinha no quarto, Ino, ainda enrolada na toalha, olhou para a jaqueta de Kiba, deixada na cama. Pegou-a e a cheirou. Felizmente, não tinha cheiro de cigarro, apesar de estar claro que estava esquecida no carro há um tempo. Era uma jaqueta grande, que tinha ficado larga no corpo dela, a barra na altura de sua coxa. Kiba era um cara alto e tinha um porte físico maior que o dela. Ino sorriu ao lembrar dele dizendo que ela tinha ficado bonita com a jaqueta. Mentiroso, pensou, mas sorria.


Talvez Sakura tivesse razão. Se Kiba fosse alguém que valesse a pena, as coisas entre eles aconteceriam no tempo certo. Por hora, se quisesse ser honesta consigo mesmo, Ino tinha que deixar esse mesmo tempo curar suas feridas primeiro, antes de se jogar em uma aventura com uma pessoa que mal conhecia.


Ino colocou a jaqueta em um cabide próprio no seu armário e a deixou lá, guardado como uma promessa, um talvez.


 


*


 


Os três primeiros meses de faculdade passaram depressa e sem surpresas. Ino decidiu focar nos estudos o máximo que pode, pelo que Sakura em particular pareceu bastante satisfeita. As duas tentavam acompanhar o ritmo das aulas, estudavam juntas e seguravam a onda uma da outra. A amizade delas era a coisa mais importante na vida de Ino agora, além dos seus pais e familiares. Ino estava muito grata por ter a companhia e maturidade de Sakura para lhe fazer companhia.


Por falar em amizades, como Ino havia planejado para aquele ano, ela estava conseguindo sair com seus amigos mais vezes. Praticamente todos os fins de semana eles estavam juntos, agora com o acréscimo de Kiba, Shino e a namorada de Chouji, Karui. O grupo agora estava muito grande e era difícil juntar todo mundo de uma vez só. A próxima oportunidade seria o aniversário de Sakura, no dia 28 de março, que Ino não pretendia deixar passar batido. A festa começou a ser planejada três semanas antes, com a ajuda das meninas. Manter Sakura às cegas sobre o que estava acontecendo era um desafio, pois a menina estava sempre atenta a todos os detalhes e quase pegou as amigas no pulo mais de uma vez.


O plano era fechar uma área no restaurante em que Naruto trabalhava (para poupar gastos e ter uma desculpa para levar Sakura até lá) e juntar todo mundo para uma festa surpresa. Ino estava combinando com Sasuke para que fosse ele a levar Sakura, mas dado o histórico dele de não atender aos compromissos com os amigos, Ino mandava lembretes com frequência, para que ele não conseguisse se esquecer. Tinha certeza que ele já tinha perdido a paciência com ela, porque tinha parado de responder, mas Ino confiava que ele estaria lá pela Sakura. Pelo menos isso.


Com tanta correria, não tinha sobrado muito tempo para comprar o presente. Na sexta feira um dia antes da festa, tudo que podia ser feito estava pronto e agora Ino precisava descobrir o que daria para Sakura. O que ela precisava? Sakura era uma garota muito prática e resolvia as coisas com rapidez, então tudo o que precisava ela simplesmente comprava, sem ficar adiando. Produtos de beleza não faltavam, apesar de nunca serem uma má ideia, mas os gostos de Sakura eram mais simples e delicados do que os de Ino. Também podia dar livros, mas Sasuke lhe dava livros o tempo todo, dos quais a amiga sempre gostava, e Ino não queria que seu presente ficasse em segundo plano. Poderia dar roupas, mas Sakura não precisava e também tinha a questão dos gostos das duas, que era bem diferente.


Com pouco tempo para resolver, ela precisava ir ao shopping, que ficava do outro lado da cidade. Ela não tinha carro, então ligou para a única pessoa que ela conhecia que tinha carro e não era o Sasuke.


 


*


 


Kiba não queria ir com Ino ao shopping. Já eram cinco da tarde quando ela mandou mensagem, ele não queria ir para o outro lado da cidade, não queria voltar tarde. Além disso, ele tinha marcado de sair com amigos do curso de veterinária. Então não, ele não estava disponível. Porém, Ino o chamou. E ele não conseguia dizer não para ela, não conseguia ficar longe, mesmo que fosse melhor assim. Por isso, contra a sua vontade e bom senso, ele desmarcou com os amigos e foi pega-la a faculdade.


Nesses quase três meses do ano letivo, ele e Ino tinham ficado mais próximos e tinham uma amizade pela qual ele prezava bastante. Ela era divertida e leve, apesar de ser muito patricinha e fresca com algumas coisas. Ele gostava de pegar no pé dela por causa das suas roupas e sapatos caros que usava para sair, e tinha um apreço especial por vê-la revirar os olhos e cruzar os braços de frustração. Parecia uma criança mimada. Aliás, ela era mimada. Tinha ficado claro que Ino estava acostumada a ter tudo o que queria, quando queria. Era natural para ela pedir e ser atendida.


Como agora. Enquanto a esperava do outro lado da rua onde ficava campus, ele se xingava mentalmente por estar ali. Sabia que no fim do dia quem estaria deitado na cama, bufando de frustração seria ele. Era sempre assim com Ino. Ela o manipulava como a um brinquedo, sem fazer esforço. Dizia vem e ele vinha, dizia vai e ele ia. O pior era que ela nem se dava conta.


Kiba sabia que precisava seguir em frente. Claro que ele não tinha ficado esperando esse tempo todo. Tinha ficado com outras garotas, algumas delas que Ino conheceu porque saíam juntos com frequência. Ino às vezes o provocava sobre essas garotas, mas ele não tinha certeza se era porque se importava ou porque para ela não fazia diferença. Ela também provocava Naruto, por exemplo, que tinha decidido seguir em frente em seu crush pela Hinata. A verdade, no entanto, era que tanto ele quanto Naruto estavam só passando o tempo e se enganando.


Era como Naruto tinha falado no outro dia: a gente faz o que pode com o que tem. Se a Hinata quer a minha amizade, eu vou ser um ótimo amigo. Quando ela precisar de um homem, eu estarei lá. Shikamaru tinha comentado que era uma ideia idiota, argumentando que era um passe livre para a zona da amizade. E Kiba concordava cem por cento com essa afirmação. Com certeza era uma coisa idiota a se fazer. No entanto…


Ele levou um susto quando ouviu a porta do passageiro abrir, se virando para ver Ino entrar no carro. Ela estava bonita, como sempre, o perfume floral invadindo o carro sem pedir licença. Kiba percebeu que ela falava com ele, mas não conseguiu prestar atenção. Ela falava com pressa, coisa que se tornou comum desde que tinha decidido fazer a tal festa. Ele a observou em silêncio enquanto ela se ajeitava. Usava uma blusa branca que ia até a cintura fina com estampa de gatinhos coloridos em tons pastel e uma calça azul clara e um par de tênis brancos sem cadarço.


— Vai chover — disse, simplesmente, apontando para as nuvens escuras no céu, que já estava escurecendo.


— Eu trouxe um casaquinho se precisar — disse ela, apontando para bolsa.


Kiba tinha suas dúvidas de que um casaco coubesse naquela bolsa, mas preferiu não comentar. Se tinha uma coisa que detestava mais do que ir à cidade, era dirigir embaixo de chuva, mas de que adiantava reclamar agora? Ino se recostou no banco, já com cinto e olhou para ele, com uma sobrancelha levantada. Kiba não disse nada, apenas ligou o carro e levou a madame para o shopping.


Nas últimas semanas o humor de Ino estava quase intragável. Ela normalmente era mandona, o que irritava Kiba, mas sabia recompensar com bom humor quando as coisas estavam resolvidas. No entanto, o estresse e a correria da organização a tinham transformado em um poço de ansiedade e irritação. Não que fosse novidade para ele, que tinha sido criado por sua mãe e irmã mais velha, que não eram nada além de estresse, ansiedade e exigências. Ele as amava mais do que tudo na vida, mas era diferente quando as via em uma garota aleatória por quem se sentia inadvertidamente atraído.


Ino se inclinou e ligou o rádio, pelo que ele não protestou. Eles tinham gostos diferentes para música, mas em geral ela respeitava que o carro era dele, então ele decidia o que tocava. Àquela altura já tinha dado tantas caronas e feito tantos favores que Ino até conhecia algumas músicas e as cantarolava baixinho, fazendo movimentos de cabeça como uma pequena roqueira. Isso o fazia sorrir, porque não combinava com ela, era como colocar uma coleira de espinhos em um gatinho branco e peludo.


— Desculpa ter te pedido para me trazer — disse Ino, quando estavam na estrada. — Eu prometo que quando passar essa festa vou te devolver todos os favores que me fez.


Kiba riu.


— Está tudo bem — disse, disfarçando a irritação. — O Shino me pediu para comprar umas coisas para ele na papelaria, então…


— Adoro papelaria — animou-se Ino. — Podemos começar por lá, se quiser. Se encontrar alguma coisa legal para a Sakura, talvez a gente não precise ir em outra loja.


— Você não sabe ainda o que vai dar?


Ino olhou-o com um sorriso culpado. Outra coisa que Kiba tinha aprendido por ter sido criado por mulheres era que se elas iam fazer compras sem ter uma ideia clara do que queriam, todo o processo duraria horas. Sua expressão deve ter deixado transparecer seu pânico e ouviu Ino rir ao seu lado.


— Calma — disse ela, rindo. — Eu vou ser rápida, prometo!


Claro que não foi rápido. Quando chegaram no shopping, já estava começando a pingar os primeiros sinais de chuva, mas conseguiram alcançar o prédio do shopping antes dela começar de fato. Fizeram como Ino sugeriu e começaram pela papelaria. Shino havia pedido um caderno e uma caixa de caneta azul, além de um caderno para desenho com folha vegetal. Kiba não via um desses desde a época de escola. Foi Ino quem achou um para ele, enquanto procurava por um possível presente para Sakura. Depois de ter olhado a loja inteira, ela finalmente desistiu e Kiba seguiu para o caixa com as coisas de Shino.


Eles passaram em lojas de roupa, sapato, livraria, perfumaria. Ino sempre tinha ideias e sempre tinha motivos para que aquele não fosse um bom presente. Kiba deu o máximo de si para não surtar, mas por fim não aguentou:


— Ino, a gente não tem a noite toda! — disse, quando saíam de uma loja de roupas. — Você precisa se decidir.


 


*


 


Ino sabia que Kiba estava certo e sabia que estava abusando da paciência dele. Nos últimos dias, aliás, tinha percebido ele mais mal humorado do que o normal e não gostava de pensar que pudesse ter alguma culpa nisso. Mesmo assim, com o estresse das últimas semanas, a reclamação dele a fez se irritar e parou na frente dele, de braços cruzados.


Por mais que eles fossem amigos agora e se dessem muito bem, e por vezes suas personalidades encaixassem como peças de quebra cabeça, outra vezes não era bem assim. Às vezes, quando seus humores não se alinhavam, trocavam farpas de verdade, que nada tinham a ver com provocações amistosas. Ambos eram teimosos e temperamentais, por isso era difícil não entrar em conflito quando um queria uma coisa que o outro não. E nenhum dos dois era de deixar para resolver depois, quando estivessem mais calmos. Então, quando ficavam sozinhos, como agora, e se desentendiam, acabavam em uma discussão.


Ela o fitou com irritação, colocando as mãos na cintura.


— Eu te pedir um favor. Você não precisava vir, se não quisesse.


Kiba se aproximou, apertando os olhos.


— Eu não estou reclamando de ter vindo, mas de você não ter pensado no que ia comprar antes de vir. Você deixou para decidir na última hora.


— Eu só quero achar um presente a altura da minha melhor amiga, que é uma das pessoas que eu mais amo nessa vida — disse ela, irritada. — Eu não posso simplesmente comprar qualquer coisa. — Ino se afastou um pouco dele, sentindo-se perturbada pela proximidade. — Eu faria o mesmo por você, se quer saber! — disse ela, sem pensar direito.


Kiba suspirou e olhou por cima do ombro dela. Com a mão livre, tocou em seu braço e o acariciou de leve.


— Okay, desculpa — disse, lhe dando um pequeno tranquilizador nas mãos. — Mas a gente pode fazer uma pausa? Eu estou morrendo de fome e fico mal humorado.


Ino achou que não tinha escolha e cedeu. Também estava com fome, mas a procura pelo presente era sua prioridade, por isso estava ignorando até então. Porém, achou razoável fazer aquela pausa, se a recompensa fosse ter um Kiba mais tranquilo e colaborativo nas próximas horas. Eles foram até a praça de alimentação, escolhendo opções diferentes para comer. Ele comprou um lanche completo com batata frita e refrigerante. Ela comprou uma massa com molho branco e salada.


Kiba era uma presença constante, sua figura masculina havia rapidamente se tornado familiar a ela. Sentia que o conhecia e, ao mesmo tempo, não conhecia, porque ele não falava muito sobre si mesmo, sua família e sua vida fora do contexto ao qual ela estava inserida de certa forma.


Apesar de gostar e procurar a companhia de Kiba, Ino também a evitava, negando-se a desfruta-la plenamente, por vezes até achando desculpas idiotas para não estar com ele. Ela não sabia se Kiba se dava conta da confusão que era a sua mente quando eles estavam juntos. Provavelmente ele ignorava esse fato porque não pensava mais nos dois como uma possibilidade. E estava tudo bem. Era melhor assim. Menos complicado.


Quando estava com ele, porém, Ino se sentia confortável. Isso é, quando a presença dele era calma e segura, era o suficiente para dar sentido a qualquer situação. Quando entravam em conflito, no entanto, por mais que ela não se sentisse de modo algum ameaçada, era como se um sinal de alerta soasse na sua cabeça e ela se tornava arredia e defensiva.


Felizmente, esses momentos eram frequentes, mas não duravam muito. Por mais que discutissem, eles logo se entendiam. Porque eram parecidos, complementares e se atraíam como imã.


— Quando a Red Fox vai se apresentar de novo? — perguntou, tentando desviar o rumo de seus pensamentos.


— Daqui a duas semanas — respondeu Kiba, tendo que pensar um pouco. — Estamos ensaiando umas músicas novas.


— Tem composição sua?


— Tem — respondeu ele, animado.


Ao longo dos últimos meses, ela o ouviu tocar muitas vezes, e descobriu que adorava vê-lo no palco. Kiba tinha certo magnetismo quando se apresentava. Ino gostava ouvir sua voz. Mesmo que o vocalista principal fosse Naruto, ele com frequência deixava Kiba assumir algumas linhas do vocal, até adaptou algumas músicas para dar mais espaço para ele. Ino achava que todos concordavam que Kiba era o membro mais “artístico” da banda. Além de cantar e tocar a guitarra, ele também sabia tocar outros instrumentos, como a bateria e o teclado, e escrevia algumas músicas. Naruto já havia comentado que Kiba deveria fazer um show solo para eles algum dia, pelo que Ino ansiava. Ele, porém, não dava sinais de que pretendia fazer isso.


— Eu gosto das suas letras — disse ela, com sinceridade. Kiba levantou os olhos para ela, parecendo satisfeito. Isso a fez sorrir. Tinha acalmado a fera.


 


*


 


Depois do jantar, Kiba se sentia menos irritado, mas ainda sem muita paciência para compras. Após alguma troca de argumentos, conseguiu convencer Ino a escolher três lojas onde ela havia pensado em bons presentes e escolher entre eles. Ele ficou contente quando ela aceitou sua sugestão para que comprasse um diário para Sakura, afirmando que era uma boa ideia, uma vez que era um presente único e que seria útil. No fim, não foi bem um diário que Ino comprou, mas um planner, que Sakura poderia personalizar com as canetas coloridas, adesivos e fitas que Ino tinha comprado na papelaria. Ele não entendia nada de planners, mas Ino parecia satisfeita, então era perfeito.


Quando a garota terminou de pagar as compras e guardava o cartão na bolsa, a luz do shopping apagou por alguns minutos. Luzes de emergência foram acesas depois de um tempo, mas Kiba já levava Ino pelo braço para a saída. Ela não protestou. Quando passaram pelas portas de vidro, havia uma pequena aglomeração de pessoas na passagem e uma chuva forte impossibilitava que saíssem da cobertura. Kiba cruzou os braços, olhando para a chuva em silêncio. Se estivesse sozinho, sairia debaixo de chuva mesmo e entraria no carro sem perder um segundo sequer.


Só que ele não estava sozinho, estava com Ino. A garota olhava para a chuva com uma expressão receosa. Estava muito forte, realmente. Kiba não gostava de dirigir na chuva. Muitas coisas podiam dar errado na estrada, a visibilidade, os outros motoristas, a sinalização de rua caso a falta de energia fosse geral. Vendo que teriam que esperar para sair, ele se virou para entrar de novo no shopping e sair do vento. Ino começava a ficar com a pele arrepiada.


Novamente dentro do shopping, os dois foram para uma área de descanso, logo na entrada, onde encontraram espaço para os dois sentarem, deixando as compras aos seus pés.


— Nenhuma chance de você ter um guarda-chuva nessa sua bolsa aí, né? — perguntou, já sabendo a resposta.


— O meu quebrou há alguns meses e não comprei outro ainda.


— Vende guarda-chuva por aqui?


— Eu não vi.


Kiba pensou em sair para procurar, mas as lojas estavam com meia luz, se sustentando apenas com o gerador do shopping. E eles perderiam os lugares, enquanto várias pessoas começavam a se reunir por ali. O jeito era esperar a chuva passar ou diminuir o suficiente para ser possível chegar até o carro.


Ficaram sentados, em silêncio, por alguns minutos. Kiba mexia no celular, nas redes sociais, e sentiu Ino encostar a cabeça em seu ombro. Ele sabia que ela estava olhando para a tela de seu celular e não se importava. Não tinha nada para esconder. Notou uma publicação de sua mãe e entrou no perfil dela, olhando as fotos.


— É a sua mãe? — perguntou ela, enquanto ele lia o texto da publicação.


— É.


— E quem é essa com ela?


Kiba hesitou, antes de responder. Sua mãe era muito parecida com ele, com cabelos castanhos volumosos e olhos pretos. Na foto da publicação, ela pousava sorrindo ao lado de uma mulher loira, de cabelo cortado curto e de olhos castanhos claros.


— É a esposa dela — respondeu, esperando pela reação de Ino.


A garota não respondeu de imediato, mas logo Kiba percebeu que ela estava lendo o texto. Era uma publicação em comemoração ao aniversário de casamento delas. Não era muito longo, porque Tsume não costumava ser boa com as palavras, mas se esforçava por aqueles que amava.


— Elas parecem felizes — comentou Ino, apontando para o sorriso de ambas para a foto. — Estão juntas a quanto tempo?


— Casadas há cinco anos — respondeu Kiba, puxando na memória. — Assumidas há sete e juntas mesmo desde que eu me entendo por gente.


Ino levantou a cabeça do ombro dele e o olhou com interesse.


— Você não sabia que a sua mãe era… — ela fez uma pausa — bi ou…?


— Bi — esclareceu Kiba, mas deu de ombros. — Não sei, na verdade. Acho que ela não se definiu. E não acho que importa.


— É. O importante é que ela está feliz e encontrou alguém.


Kiba estava feliz por Ino ter a mente aberta em relação a isso. Tinha conhecido garotas que se esforçavam para fingir que entendiam e que aceitavam, mas acabavam mostrando que não era bem assim.


— E como foi quando você descobriu?


— Elas chamaram a mim e a minha irmã e contaram — explicou. — Fizeram todo um discurso sobre como a amizade delas era muito forte e como estavam sempre se apoiando e sobre como os sentimentos se transformam… — Ino sorria para ele, enquanto contava a história. Ele não gostava de falar de coisas melosas e de romance, mas se sentia compelido a continuar, estando sob o olhar atento de Ino. — Não vou dizer que foi fácil entender ou aceitar — disse, com sinceridade. — Para mim, pelo menos, foi uma coisa repentina. É claro que a Rukia estava sempre por perto e eu notava que elas eram próximas, mas vou te dizer uma coisa, elas disfarçavam bem.


— Posso imaginar — ela fez uma pausa e Kiba achava que sabia o que viria em seguida. — E o seu pai?


— Se mandou. Só não levou o carro porque estava na oficina na época. Eu o vi poucas vezes desde então.


— Sinto muito.


Kiba dispensou a solidariedade dela com um gesto. Seu pai era um babaca e não valia a pena perder energia pensando nele. Mas o distraiu da próxima pergunta de Ino, para a qual Kiba não estava preparado e não queria se aprofundar.


— Onde está a sua irmã?


Hana. Kiba ainda se lembrava dela como se a tivesse visto no dia anterior. E ainda sentia a falta dela, como uma dor física que não ia embora.


— Morreu a dois anos — respondeu, sério. — Não quero falar disso.


Ino fez que sim com a cabeça e voltou a encostar-se no ombro dele. Kiba ficou ali, sentindo o cheiro de perfume. Ino pegou sua mão e entrelaçou os dedos no dele, como se quisesse reconforta-lo. Kiba ficou grato pelo gesto, mas tinha aprendido a afastar esses pensamentos para o fundo de sua mente. Eles ficavam trancados lá e ele não os visitava. Procurando se distrair, perguntou sobre a família dela. Ino disse que vivia com os pais, perto dali, e que eram médicos. Contou histórias sobre a infância e ficou claro que eram uma família feliz. Kiba escutou em silêncio, satisfeito em ouvi-la falar sem parar. Foi ela, no entanto, quem parou e apontou para a saída.


— A chuva diminuiu — disse ela. — Acho melhor a gente aproveitar agora.


Kiba se levantou, mas Ino ficou sentada, tirando a blusa da bolsa. Ele esperava que ela a vestisse, mas Ino pegou as compras e as cobriu com a blusa. Não ia resolver muita coisa, pois ainda estava chovendo, mas ela abraçou os pacotes e foi para a saída, com ele a seguiu. Os dois saíram debaixo da chuva, que tinha de fato diminuído, mas ainda molhava. Ino correu para o carro e ficou esperando-o abrir a porta para ela jogar as compras no banco detrás e entrou batendo a porta com mais força do que o necessário. Kiba deu a volta no carro e entrou com calma. Ino colocava o cinto enquanto ele colocava a chave na ignição e tentava ligar o motor. Nada. Respirando fundo algumas vezes, ele tentou de novo e de novo, e nada.


— Ah não — reclamou Ino.


Kiba saiu do carro e foi abrir o capô. Ele não entendia muita coisa de mecânica, mas conseguia se virar. Debaixo da chuva, ele se pôs ao trabalho.


 


*


 


Ino esperava dentro do carro, enquanto Kiba mexia lá na frente. Não sabia o que ele estava fazendo, mas esperava que desse certo. Não queria ter que voltar para o shopping e esperar um carro de aplicativo, mesmo porque, já estava ficando tarde. Porém, era impaciente e, mesmo sem poder ajudar em nada, acabou saindo do carro e indo até Kiba.


— E aí? — perguntou, olhando para o motor. — Consegue resolver?


— Não… — foi a resposta tranquila de Kiba. — Já chamei o mecânico.


— Não é melhor chamar um carro e voltar amanhã? — perguntou ela, tentando não ficar ansiosa.


— E deixar o meu carro aqui? — Kiba pareceu ofendido com isso. — De jeito nenhum. E o estacionamento é pago por hora.


— Você sabe que independente de qualquer coisa, eu vou pagar pelo estacionamento, né?


— Eu não sabia — Kiba se animou com a oferta. — Obrigada, então. Mas ainda não posso deixar ele aqui.


— Mas… — começou Ino, afastando o cabelo molhado do rosto.


— Não. Vai que meu pai aparece e resolve levar o carro dele embora?


A brincadeira de Kiba a fez sorrir. Estava molhada, a roupa grudada no corpo. Mas mesmo assim, lá estava ela debaixo da chuva, ouvindo um homem se preocupar com o próprio carro. Kiba fechou o capô e se aproximou, apontando para um dedo sujo de graxa para o cabelo dela. Ino afastou o dedo dele.


— Eu tenho cabeleireiro marcado para amanhã. Ele vai dar um jeito nisso.


— Certo — disse ele, sorrindo. Ele ficou lá, olhando para ela, em silencio. Perto demais. Será que ele sabia o que fazia com ela? Ou era seu dom natural perturba-la sem fazer esforço?


E lá estava. De novo. A faísca que havia entre eles. Ino não a percebeu chegando, não notou a mudança no ambiente que geralmente sinalizava a tensão que vinha com ela. Mas lá estava ela, reluzente e inevitável. Ino engoliu em seco, sem saber o que fazer. No fundo de sua mente, tentava fazer seu corpo se mexer e entrar no carro, mas o corpo dele se mexeu primeiro e ela sentiu uma mão lhe envolver a cintura e a outra a puxar pela mão, fazendo com que se aproximasse. E ela foi, sem oferecer resistência.


O corpo de Kiba estava grudado no dela agora, seus rostos bem próximos, os olhos presos um no outro. Ino sabia que ele estava mais uma vez esperando por ela. Podia sentir o seu próprio corpo reagir àquela proximidade, seu coração disparado no peito. Fechou os olhos, tentando controlar as reações inesperadas e sentiu os lábios dele sobre os seus.


O beijo começou calmo, como se estivessem testando a água antes de um mergulho mais profundo. Depois, Kiba a puxou ainda mais para perto, abraçou-a com os dois braços e seu beijo ficou mais firme, intenso e faminto. Ino o acompanhou com a mesma voracidade, sentindo seu corpo acordar de um sono prolongado. Aquele beijo era eletricidade pura, acumulada ao longo de meses e finalmente liberada. Kiba a moveu para que ela encostasse na lateria do carro e Ino sentiu-se grata por ter algo para a sustentar, porque começava a sentir as pernas ficarem fracas, entregando-se ao momento como se nada mais importasse.


E não importava. A faculdade, Sakura, a família, o passado. Ino sentia todas as outras coisas irem embora, enquanto se concentrava na sensação das mãos dele em seu corpo. Ela mexeu as próprias mãos que se seguravam firme nos braços dele. Uma subiu pelo braço lentamente até sua nuca, puxando-lhe levemente o cabelo e inclinando sua cabeça para um ângulo diferente. A outra agarrou sua camisa, levantando a barra e passeando pelo seu peito, explorando sem pressa.


Foi Kiba quem interrompeu o beijo, tirando a mão dela debaixo de sua blusa enxarcada. Ino sentiu a falta do corpo dele imediatamente, em parte porque ela a protegia um pouco da chuva. Seu corpo estremeceu, sentindo-se subitamente gelado.


— Vamos entrar, você está tremendo.


Ino entrou no carro, se sentindo ainda atordoada. Quase não se lembrava do porquê tinha esperado três esses por aquilo. Olhou para Kiba, que passava a mão pelo cabelo molhado. Ela observou sua pele molhada, os músculos do pescoço, os músculos do braço ficavam ainda mais evidentes com a blusa colada na pele. Seu tanquinho no peito também estava claro sob a camisa, mas Ino o tinha sentido nas mãos, o que era muito melhor do que apenas admirar. Quando ele a olhou, foi ela quem avançou para um beijo, tocando seu rosto e o trazendo para si. Kiba retribuiu, dessa vez deixando a mão repousar sobre a perna esquerda dela. Ino sentiu ele apertá-la na coxa, a energia gerada por isso percorrendo todo o seu corpo e se concentrando em sua região mais íntima. Kiba massageava a sua coxa, os longos dedos fazendo movimentos longos, circulares, avançando aos poucos.


No entanto, ele parou de repente, encostando a testa na dela e fechando os olhos. Quando os abriu, falou com a voz rouca.


— É melhor eu te levar para casa.


A frase a pegou de surpresa. Mas sabia que era a melhor coisa a se fazer. Estavam no estacionamento do prédio e as coisas estavam esquentando depressa demais. Tinham demorado três meses para dar o primeiro beijo, não precisavam pular para as próximas etapas tão rápido. Afastando-se relutante, Ino procurou recuperar a compostura.


— E o mecânico?


Kiba teve o bom senso de parecer sem graça com a pergunta, mas confessou:


— Eu dei um jeito sozinho — disse, virando-se para dar a partida. O carro pegou sem problemas. — Vamos, antes que eu faça alguma besteira.



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Autor(a): Doddy

Esta é a unica Fanfic escrita por este autor(a).

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Quando Ino chegou em casa, Sakura e Karin estavam reunidas na sala, assistindo The Voice. Já passava das nove da noite, ainda chovia e sua roupa estava toda molhada. As duas meninas olharam na direção dela, com um misto de surpresa e curiosidade. Ino parou na entrada para tirar os tênis e pendurar a bolsa no suporte da parede. — Onde voc&eci ...


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